Cinema
WAIFF 2026: como a IA está redesenhando o cinema contemporâneo
O World AI Film Festival (WAIFF) estreia sua edição brasileira em 2026 fortalecendo uma tendência que já vinha ganhando força no mercado global: a presença da inteligência artificial não apenas como ferramenta, mas como elemento criativo e narrativo nas produções cinematográficas. O evento acontece nos dias 27 e 28 de fevereiro de 2026 na FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), em São Paulo, com mais de 20 horas de conteúdo reunindo debates, projeções, painéis e networking sobre cinema, tecnologia e estética impulsionada pela IA.
O WAIFF integra uma rede internacional de festivais dedicados ao audiovisual com IA — com edições na França, Japão, Coreia e China — posicionando o Brasil no mapa global dessa discussão emergente.
🎬 Agenda completa (27 e 28 de fevereiro)
O festival ocupa diversos espaços simultâneos dentro da FAAP — Auditório CloudWalk, Auditório CAISROOM, SPCine Space e uma área exclusiva para encontros e networking — com uma agenda intensa de palestras, mesas, workshops e exibição de filmes finalistas da mostra competitiva.
🗓 Sexta-feira — 27 de fevereiro (Início 9h30)
- Abertura oficial do WAIFF Brasil.
- Painéis sobre integração da IA no processo criativo cinematográfico.
- Workshops de ferramentas generativas aplicadas à narrativa e imagem.
- Exibição de filmes selecionados para o SPCine Space.
🗓 Sábado — 28 de fevereiro (Início 9h30)
- Palestra de Nizan Guanaes sobre IA e criatividade, destacando o papel das inteligências artificiais no processo de desenvolvimento de ideias e no setor criativo contemporâneo (10h no Auditório CloudWalk).
- Mesas redondas com foco em produção de conteúdo, publicidade e streaming com IA.
- Sessões de debates com especialistas nacionais e internacionais.
- Cerimônia de premiação da mostra competitiva com 11 categorias, incluindo Melhor do Festival e prêmios por formatos como longa-metragem, curta-metragem em múltiplos gêneros, séries verticais e publicidade com IA.
👥 Convidados e especialistas confirmados
O WAIFF Brasil reúne profissionais que transitam entre cinema, tecnologia, produção e comunicação:
- Nizan Guanaes — executivo e estrategista de comunicação, palestrante sobre criatividade nos tempos de IA (28/02).
- Kris Krüg — especialista canadense em ferramentas de IA aplicadas à produção audiovisual.
- Fabiano Gullane — produtor e sócio da Gullane Filmes, com experiência em cinema tradicional e novas práticas criativas.
- Paulo Aguiar — consultor e pesquisador de IA criativa.
- Rapha Borges — CCO da Tiger, trazendo perspectiva do mercado publicitário no uso da IA.
- Representantes da TV Globo — participam de painéis sobre aplicações práticas da IA em produção audiovisual e jornalística.
- Heitor Dhalia — cineasta com longa trajetória no cinema brasileiro, contribuindo como membro do júri da mostra competitiva.
- Lyara Oliveira — gestora e produtora especializada em audiovisual.
- Jacqueline Sato — atriz, roteirista e produtora, presidente do júri, com carreira em TV, cinema e plataformas digitais.
- Tadeu Jungle — diretor e videoartista, também integrando a comissão julgadora.
A diversidade de perfis — do cinema clássico ao cinema tecnológico, passando pelo mercado publicitário e pesquisa — reflete a natureza híbrida do festival, que questiona fronteiras entre criação humana e automação algorítmica.
🏆 Mostra Competitiva e Premiação
A mostra competitiva é um dos pilares do WAIFF: além de reconhecer obras que usam IA em sua concepção artística, a programação premia produções em 11 categorias, dando visibilidade a formatos inovadores como séries verticais para redes sociais e filmes de publicidade criados com IA.
🤝 Cultura, mercado e futuro do audiovisual com IA
Mais do que um festival, o WAIFF representa um movimento dentro da cultura audiovisual global:
- Rede internacional, conectando edições em países como França, Coreia, Japão e China, com um grande final em Cannes.
- Debate sobre autoria, estética e ética da IA no cinema.
- Networking e oportunidades de colaboração, com setores criativos de cinema, publicidade, streaming e tecnologia reunidos.
A edição brasileira do festival demonstra que o uso de inteligência artificial — seja em narrativa, imagem, som ou processos de produção — já não é apenas um tema técnico, mas um elemento estruturante da cultura audiovisual contemporânea.
Cinema
Scorsese leva a IA para o storyboard — e reacende a guerra cultural em Hollywood
Aos 83 anos, Martin Scorsese entrou para a Black Forest Labs, startup de IA generativa por trás do modelo FLUX, e passou a testar a tecnologia na pré-produção de filmes. O gesto é simbólico: um dos maiores defensores da história do cinema agora ajuda a legitimar uma das ferramentas mais controversas do audiovisual contemporâneo.
Martin Scorsese não costuma ser lembrado como um entusiasta ingênuo da tecnologia. Ao contrário: sua imagem pública está ligada à defesa da preservação cinematográfica, à cinefilia quase religiosa e à ideia de que cinema é mais do que conteúdo audiovisual empilhado em plataformas. Justamente por isso, seu novo movimento chamou tanta atenção.
O diretor de Taxi Driver, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, O Lobo de Wall Street e Assassinos da Lua das Flores tornou-se parceiro e conselheiro da Black Forest Labs, empresa de inteligência artificial generativa especializada em modelos de imagem e vídeo. A companhia é conhecida pela família de modelos FLUX, usada para gerar imagens a partir de comandos textuais e referências visuais.
O uso defendido por Scorsese, ao menos por enquanto, é específico: storyboards. Ou seja, a etapa anterior à filmagem, em que diretores e equipes transformam uma ideia visual em quadros, esboços, enquadramentos e sequências que orientam a produção.
Segundo Scorsese, a IA pode ajudá-lo a comunicar com mais clareza o que está imaginando para profissionais como diretor de fotografia, diretor de arte e designers de produção. Em vez de substituir a equipe, o argumento do cineasta é que a ferramenta funcionaria como uma ponte mais rápida entre a visão mental do diretor e a execução coletiva do filme.
É uma distinção importante — e politicamente calculada. Scorsese não está dizendo que quer atores sintéticos, roteiros automatizados ou filmes finalizados por máquinas. Ele está defendendo a IA como instrumento de pré-produção, uma espécie de caderno de rascunhos turbinado. Ainda assim, em Hollywood, esse tipo de nuance raramente passa ileso.
A reação foi imediata. Artistas de storyboard, ilustradores e profissionais de concept art criticaram a iniciativa, argumentando que ferramentas generativas são treinadas sobre grandes volumes de imagens, muitas vezes sem autorização clara dos criadores originais. Para esse grupo, mesmo quando a IA aparece como “assistente”, ela pode acabar comprimindo prazos, reduzindo equipes e desvalorizando um trabalho altamente especializado.
O caso também mexe com uma ferida recente. A indústria audiovisual ainda sente os efeitos das greves de 2023, quando roteiristas e atores colocaram a inteligência artificial no centro das negociações trabalhistas. O medo não era abstrato: sindicatos queriam limites para o uso de IA em roteiros, vozes, imagens, performances e réplicas digitais de atores.
A diferença agora é o peso simbólico do nome envolvido. Não se trata de uma startup tentando vender o futuro para investidores, nem de um executivo prometendo reduzir custos com “eficiência”. É Martin Scorsese, um cineasta associado à autoria, à tradição e à defesa do cinema como arte. Quando ele aceita colocar seu nome ao lado de uma empresa de IA, a conversa muda de patamar.
Também não é a primeira vez que Scorsese dialoga com tecnologias que alteram a linguagem cinematográfica. Em A Invenção de Hugo Cabret, ele explorou o 3D. Em O Irlandês, recorreu a técnicas digitais de rejuvenescimento. Sua trajetória mostra que preservação e experimentação não precisam ser opostos. O ponto delicado é que a IA generativa não é apenas mais uma ferramenta de câmera, lente ou pós-produção. Ela toca diretamente em autoria, treinamento de dados, trabalho criativo e propriedade intelectual.
A defesa mais forte do uso de IA em storyboards é pragmática: pré-produção custa caro, tempo é dinheiro e visualizar cenas antes da filmagem pode evitar desperdício. Para diretores, especialmente em produções grandes, conseguir testar atmosferas, enquadramentos e ritmos visuais rapidamente pode ser uma vantagem real.
A crítica mais forte é igualmente concreta: se a IA passa a produzir imagens de referência em segundos, quem perde espaço são justamente os artistas que antes eram contratados para desenvolver essas visualizações. Mesmo quando a ferramenta não aparece no filme final, ela pode alterar a cadeia de trabalho que torna o filme possível.
No fundo, a entrada de Scorsese na Black Forest Labs revela o ponto exato em que a discussão sobre IA no audiovisual deixou de ser futurismo. Ela agora está na rotina de pré-produção, nas salas de reunião, nos testes de linguagem, nos orçamentos e nos créditos invisíveis da criação.
A pergunta que Hollywood terá de responder não é se a IA vai entrar no cinema. Ela já entrou. A pergunta é em que condições, com quais limites, com qual transparência e com que proteção para os profissionais humanos que constroem a imagem antes de ela chegar à tela.
Scorsese parece apostar que a inteligência artificial pode ampliar a imaginação cinematográfica sem destruir o ofício. Seus críticos temem que essa promessa seja apenas a porta elegante para uma precarização mais profunda.
De todo modo, o recado está dado: quando até Martin Scorsese começa a usar IA para desenhar o filme antes do filme, a indústria já não pode tratar o assunto como experimento lateral. A disputa agora é sobre quem controla a ferramenta — e quem será empurrado para fora do quadro.
Fonte: SFC
Cinema
Dreams of Violets: Feito por IA, drama sobre o Irã estreia em Tribeca e reacende debate no cinema
O filme de US$ 2 mil que coloca a IA no tapete vermelho de Tribeca
Dreams of Violets, novo longa do cineasta iraniano-britânico Ash Koosha, chega ao Festival de Tribeca carregando uma pergunta incômoda: a inteligência artificial pode abrir caminhos para histórias impossíveis de filmar — ou está apenas inaugurando uma nova fase de precarização estética e profissional no cinema?
A obra, com cerca de 75 minutos, é apresentada como um docudrama inspirado na resistência civil iraniana. A trama se passa em Teerã, em janeiro de 2026, e acompanha cinco desconhecidos que se encontram em um beco sem saída durante a repressão a protestos contra o governo. Do alto de uma janela, Amir, uma criança em cadeira de rodas, observa a cena e decide agir.
A polêmica não está apenas no tema. Segundo Koosha, todos os personagens e imagens do filme foram criados com inteligência artificial. Não houve set tradicional, atores diante da câmera ou equipe de filmagem em locação. O diretor escreveu o roteiro, usou ferramentas de IA para organizar e refinar partes do processo, dublou personagens e depois alterou vozes digitalmente. Também compôs a trilha e editou o filme.
O resultado, feito em poucos meses e com orçamento estimado em US$ 2 mil, será exibido em 10 de junho no Tribeca Festival, em Nova York. A produção vem sendo tratada como um marco: um longa live-action integralmente gerado por IA dentro da programação de um festival de grande porte.
Para Koosha, a tecnologia não foi um truque de marketing, mas uma forma de contornar limites políticos, logísticos e financeiros. Filmar no Irã, com atores e equipe locais, poderia ser inviável ou perigoso. Recriar os eventos por computação gráfica tradicional custaria milhões. A IA, nesse caso, permitiu transformar relatos, imagens, vídeos e testemunhos em uma narrativa ficcional com aparência cinematográfica.
É justamente aí que o filme se torna relevante para além da curiosidade tecnológica. Dreams of Violets não surge como uma animação experimental abstrata, mas como uma tentativa de dramatizar violência política recente por meio de corpos sintéticos, rostos inventados e imagens fabricadas. A pergunta deixa de ser apenas “a IA consegue fazer cinema?” e passa a ser: “quem tem o direito de representar a dor de outros quando a própria imagem já não depende mais da presença física de ninguém?”
A defesa de Koosha é pragmática. Sem IA, diz ele, o filme simplesmente não existiria. A ferramenta teria permitido narrar algo urgente sem expor pessoas reais, sem depender de autorização estatal e sem os custos de uma produção convencional. É o argumento da democratização: se câmeras, estúdios e equipes sempre foram barreiras de entrada, modelos generativos poderiam colocar poder narrativo nas mãos de criadores independentes.
Mas o outro lado da discussão é igualmente forte. O cinema vive uma crise de trabalho, crédito e remuneração. Roteiristas, atores, ilustradores, animadores, designers de produção e técnicos já veem a IA como ameaça direta a seus ofícios. Um longa feito sem atores reais e sem imagens captadas no mundo físico acende alertas sobre substituição profissional, uso de bases de treinamento sem consentimento e empobrecimento da linguagem audiovisual.
Há ainda uma questão ética específica: quando a IA recria conflitos políticos e massacres, o risco não é apenas estético. Imagens artificiais podem produzir empatia, mas também podem confundir registro histórico, ficção e propaganda. O filme se apresenta como dramatização, não como documentário. Ainda assim, ao se apoiar em eventos reais, assume uma responsabilidade maior com contexto, transparência e memória.
O caso de Dreams of Violets talvez seja menos uma resposta definitiva e mais um sintoma. A IA já entrou no cinema; agora, começa a disputar também o prestígio dos festivais, o território simbólico da autoria e a legitimidade das narrativas políticas. O que está em jogo não é só a tecnologia, mas a forma como a indústria vai decidir quem cria, quem é creditado, quem é pago e quem pode contar histórias em um mundo onde imagens podem ser fabricadas quase sem custo.
Se o filme será visto como obra pioneira, aberração estética ou peça de transição, só a recepção em Tribeca poderá indicar. Mas uma coisa já parece clara: Dreams of Violets transforma a IA de bastidor em protagonista. E obriga o cinema a encarar uma pergunta que ele talvez preferisse adiar: quando a câmera deixa de ser necessária, o que ainda faz um filme ser cinema?
Fonte: The Guardian
Cinema
Um longa em duas semanas: como a IA da ByteDance provocou Cannes
Dona do TikTok usa o Seedance 2.0 para mostrar que a produção audiovisual com IA generativa já não se limita a clipes curtos: curtas selecionados no Marché du Film e um longa de 95 minutos reacendem debate sobre custos, autoria e trabalho criativo.
A inteligência artificial generativa deixou de ser apenas uma curiosidade técnica nos bastidores do audiovisual. Em Cannes, ela apareceu como uma nova força econômica, estética e política. A ByteDance, dona do TikTok, colocou seu modelo de vídeo Seedance 2.0 no centro das discussões ao ver produções feitas com sua tecnologia circularem no entorno do festival e no Marché du Film, o mercado de negócios associado ao Festival de Cannes.
Dois curtas criados pela plataforma chinesa Chushou AI, The Golden Tomb Seeker e Series Tower, usando o Seedance 2.0, estiveram entre os 21 trabalhos selecionados de um universo de mais de mil submissões vindas de 120 países para o Marché du Film, segundo relatos do SCMP reproduzidos por veículos especializados.
Mas o projeto que realmente capturou a atenção da indústria foi Hell Grind, um longa de ação e fantasia de 95 minutos produzido pela startup norte-americana Higgsfield AI. O filme não integrou a seleção oficial de Cannes, mas foi exibido em um evento de cinema com IA realizado em paralelo ao festival. De acordo com a Higgsfield, a produção foi concluída por uma equipe de 15 pessoas em cerca de duas semanas, com orçamento inferior a US$ 500 mil — dos quais aproximadamente US$ 400 mil teriam sido gastos em computação.
A comparação com Hollywood é inevitável. Alex Mashrabov, cofundador e CEO da Higgsfield, afirmou que uma produção tradicional de escala semelhante poderia custar algo em torno de US$ 50 milhões, segundo a cobertura do SCMP citada por veículos internacionais.
De clipes de segundos a longas-metragens
Até recentemente, uma das principais limitações dos geradores de vídeo por IA era a curta duração dos resultados. Muitas ferramentas populares produzem sequências de poucos segundos, o que obriga criadores a montar milhares de fragmentos para construir narrativas mais longas. Esse processo costuma gerar inconsistências de rosto, cenário, iluminação, continuidade e movimento.
O caso de Hell Grind sugere que essa barreira começa a ceder. Segundo a TechNode, a produção chamou atenção justamente por tentar demonstrar que a IA generativa pode sustentar uma narrativa longa, com personagens recorrentes, universo visual coerente e estrutura de longa-metragem.
Isso não significa que a IA já resolveu todos os problemas do cinema. Ao contrário: o uso intensivo de prompts, iterações e controle humano continua sendo central. Relatos sobre a produção indicam que cada trecho exigiu instruções detalhadas, ajustes sucessivos e supervisão para manter consistência visual e narrativa.
O que muda é a escala da ambição. A IA deixa de ser apresentada apenas como ferramenta para teasers, anúncios, videoclipes e experimentos visuais. Agora, passa a disputar espaço no território simbólico do cinema narrativo de longa duração.
O argumento da ByteDance: menos execução, mais direção criativa
A ByteDance tenta posicionar o Seedance 2.0 como uma ferramenta para acelerar fluxos de produção e reduzir o peso das tarefas repetitivas. Tan Dai, presidente da unidade de nuvem Volcano Engine, ligada à ByteDance, afirmou que ferramentas de IA podem permitir que criadores se concentrem mais em história, personagens e direção criativa, em vez de ficarem presos à execução técnica.
Essa visão também aparece em declarações de cineastas que tratam a IA como mais uma etapa da evolução tecnológica do cinema. O diretor chinês Jia Zhangke, que lançou um curta com Seedance 2.0 em fevereiro, descreveu a tecnologia como uma ferramenta, não como substituta do diretor.
Esse é o discurso de venda: a IA como câmera, ilha de edição, estúdio virtual e equipe de pós-produção condensados em uma nova camada de software.
Mas o outro lado da discussão é mais espinhoso.
O choque com Hollywood: direitos autorais, imagem e trabalho
O avanço do Seedance 2.0 não ocorreu em terreno neutro. Meses antes de Cannes, a ferramenta já havia provocado reação de Hollywood por permitir a criação de vídeos hiper-realistas envolvendo personagens protegidos por direitos autorais e imagens de atores sem autorização.
A Motion Picture Association criticou a ByteDance por supostas violações de propriedade intelectual, enquanto o sindicato dos atores SAG-AFTRA condenou o uso não autorizado de vozes e imagens de artistas.
No Brasil, a Exame noticiou que a Disney enviou uma carta de “cessar e desistir” à ByteDance após vídeos feitos com o Seedance circularem com personagens como Mickey, Minnie e Homem-Aranha. A empresa chinesa afirmou estar ciente das preocupações e disse trabalhar no reforço de mecanismos para impedir usos não autorizados de imagens e personagens protegidos.
O jornal espanhol El País também destacou a reação da indústria norte-americana após a viralização de um vídeo gerado por IA que simulava uma luta entre Tom Cruise e Brad Pitt, associado ao debate sobre o Seedance 2.0.
A tensão é clara: para startups e plataformas, a IA promete democratizar a produção audiovisual. Para atores, roteiristas, técnicos, estúdios e titulares de direitos, ela também pode representar apropriação indevida, precarização e deslocamento de trabalho.
Cannes como vitrine e campo de batalha
Cannes sempre funcionou como vitrine de prestígio, mercado de negócios e termômetro das obsessões da indústria. Em 2026, a IA generativa apareceu como uma dessas obsessões centrais.
Segundo a Tubefilter, o Seedance 2.0 esteve associado a produções exibidas no entorno do festival e no Marché du Film, enquanto Hell Grind foi promovido como o primeiro longa-metragem totalmente gerado por IA. A recepção artística pode ter sido dividida, mas o impacto industrial foi evidente: o filme serviu menos como obra definitiva e mais como prova de conceito.
A pergunta que fica não é apenas se a IA consegue fazer filmes. Essa resposta, em algum grau, já começou a ser dada. A questão mais importante é quem controla essa produção, com quais dados, sob quais licenças, com que distribuição de renda e com quais garantias para trabalhadores criativos.
A nova economia do audiovisual
Se um longa de fantasia pode ser produzido em duas semanas por uma equipe pequena e com orçamento inferior a US$ 500 mil, a matemática do setor muda. Não necessariamente para substituir Hollywood no topo da cadeia, onde marca, elenco, distribuição e propriedade intelectual seguem decisivos. Mas certamente para pressionar produções independentes, publicidade, conteúdo para plataformas, pré-visualização, storyboards, animação e entretenimento de nicho.
Ainda há uma contradição importante: embora a IA reduza custos de equipe e produção física, ela transfere parte do orçamento para computação. No caso de Hell Grind, a maior fatia do custo teria sido justamente infraestrutura de processamento.
Isso indica que a “democratização” prometida pela IA pode depender menos da câmera e mais do acesso a poder computacional, modelos proprietários e plataformas fechadas. Em outras palavras: o gargalo sai do set de filmagem e vai para a nuvem.
O cinema depois da IA
O movimento da ByteDance em Cannes aponta para uma nova fase da disputa global por IA generativa. Depois de texto, imagem e música, o vídeo longo se torna a nova fronteira. E, nesse campo, a empresa chinesa tenta se posicionar não apenas como dona de uma rede social, mas como fornecedora de infraestrutura criativa para a próxima geração do audiovisual.
Para Hollywood, o recado é incômodo: os custos, prazos e estruturas tradicionais de produção estão sendo questionados por plataformas que operam com lógica de software, escala e automação.
Para criadores independentes, a promessa é sedutora: fazer com poucos recursos aquilo que antes exigia estúdios, equipes numerosas e milhões de dólares.
Para o público, resta uma pergunta cada vez mais difícil: quando um filme emociona, importa saber se ele foi feito por câmeras, atores e cenários reais — ou por uma pilha de prompts, modelos e servidores?
A resposta talvez não esteja apenas na tecnologia, mas nas regras que a sociedade decidir criar para ela.
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