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Cinema

WAIFF x Cannes: tradição e inteligência artificial duelam no coração do cinema mundial

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Enquanto o Festival de Cannes tenta proteger a Palma de Ouro como território da autoria humana, o World AI Film Festival ocupou o mesmo imaginário da Croisette com 5.500 obras, Jean-Michel Jarre, Gong Li, Agnès Jaoui e uma pergunta incômoda: quem será chamado de cineasta na próxima década?

Há momentos em que a indústria cultural parece um velho roqueiro diante do sintetizador: primeiro chama de ameaça, depois chama de truque, depois descobre que o som novo já entrou pela porta dos fundos e está tocando no palco principal.

Foi mais ou menos isso que aconteceu em Cannes, em 2026.

De um lado, o Festival de Cannes — talvez o templo máximo do cinema de autor, da mise-en-scène, da pose na escadaria, do olhar grave para a posteridade — sinalizou que filmes nos quais a inteligência artificial generativa seja o motor central do roteiro, da geração visual ou da síntese de performances não devem disputar a Palma de Ouro e a Competição Oficial. Segundo a AI Films Studio, a linha foi traçada em abril, durante o anúncio da Seleção Oficial de 2026, com a defesa de que cinema, para Cannes, continua sendo uma visão pessoal e não uma montagem de dados.

Do outro lado, quase como uma resposta histórica atravessada por cabos, GPUs e prompts, o World AI Film Festival — WAIFF — ocupou Cannes nos dias 21 e 22 de abril, no Palais des Festivals, celebrando justamente aquilo que o festival tradicional tenta manter fora do seu altar competitivo: filmes criados, híbridos ou profundamente atravessados por inteligência artificial. O próprio site do WAIFF anunciou sua edição de Cannes para 21 e 22 de abril de 2026, no Palais des Festivals, com o slogan “New Waves of Creation”.

A imagem é boa demais para ser ignorada: Cannes fecha a porta simbólica da Palma de Ouro para a IA generativa, mas a IA aparece do lado de fora, no mesmo território mítico, fazendo barulho, vendendo futuro e dizendo: “a gente não veio pedir licença; a gente veio disputar linguagem”.

A nova guerra cultural do cinema

A tensão não é pequena. Cannes não é apenas um festival. É uma fábrica de legitimidade. Ganhar ou competir ali muda a carreira de um diretor, reposiciona distribuidoras, valoriza filmes no mercado internacional e transforma obras difíceis em acontecimentos culturais. A Palma de Ouro, criada em 1955, é considerada uma das premiações mais prestigiadas da indústria cinematográfica.

Por isso, a decisão de separar o que seria “cinema humano” do que seria “cinema gerado por IA” não é apenas estética. É econômica, política e simbólica.

A mensagem de Cannes parece ser: ferramentas de IA podem até entrar na pós-produção, na restauração, na limpeza de imagem, talvez em processos técnicos. Mas a origem criativa — roteiro, imagem principal, performance central — deve continuar nas mãos humanas. A AI Films Studio resume essa fronteira dizendo que a restrição mira a IA funcionando como “criadora” ou “visionária”, não como instrumento técnico de pós-produção.

É uma distinção parecida com a velha briga da música eletrônica: o problema nunca foi o sintetizador em si, mas quem está apertando o botão, com que repertório, com que intenção e com que direito sobre o material usado.

Só que agora não estamos falando de um teclado Yamaha DX7 ou de um sampler Akai. Estamos falando de modelos capazes de gerar atores, cenários, vozes, movimentos de câmera, storyboards, trailers, videoclipes, curtas e, em breve, longas inteiros com orçamento esmagado.

A pergunta que assombra Cannes é simples e brutal: se a IA cria imagem, som, performance e roteiro, onde exatamente termina a ferramenta e começa o autor?

O festival rival: WAIFF toma Cannes pela beirada

O World AI Film Festival não chegou pequeno. Segundo o Palais des Festivals, a edição de 2026 recebeu quase 5.500 filmes de mais de 80 países, consolidando-se como um evento global dedicado à interseção entre criação audiovisual e inteligência artificial.

O evento foi organizado pelo Departamento dos Alpes-Maritimes, pela Maison de l’IA e pelo Institut EuropIA, com apoio da cidade de Cannes e parceria de empresas e instituições ligadas à tecnologia e ao audiovisual. A descrição oficial do Palais é cuidadosa: a IA não deve substituir a criação, mas permanecer como ferramenta a serviço da imaginação, das obras e dos autores.

Ou seja: o WAIFF sabe que pisa em campo minado. Ele não vende a IA como máquina autônoma que assassina artistas. Vende como “nova câmera”, como extensão do imaginário, como prótese criativa.

Essa diferença de enquadramento é essencial. Para Cannes, a IA generativa ameaça a pureza autoral da Competição Oficial. Para o WAIFF, a IA é o novo instrumento — como a câmera portátil, o som direto, o vídeo digital, o CGI, o sampler, o autotune, o Ableton Live.

Jean-Michel Jarre, pioneiro da música eletrônica e embaixador do WAIFF, entrou exatamente nessa chave. Em entrevista ao The Guardian, ele criticou o conservadorismo das indústrias da música e do cinema diante da IA e afirmou que artistas usarão a tecnologia para criar “o cinema de amanhã, o hip-hop de amanhã, o techno de amanhã, o rock’n’roll de amanhã”.

Jarre também chamou a IA de “imaginação aumentada” e defendeu que a tecnologia não deve matar o talento, mas ampliar possibilidades criativas. Ao mesmo tempo, reconheceu o ponto mais explosivo da discussão: direitos autorais. Para ele, a IA ainda é um “Velho Oeste” e precisa de regras.

É uma posição muito mais interessante do que o oba-oba tecnocrático. Jarre não está dizendo “liberou geral, raspa tudo, treina modelo e dane-se o artista”. Está dizendo: a ferramenta é inevitável, mas precisa de remuneração, regulação e pacto cultural.

Costa Verde vence — e o Brasil aparece no radar

Na premiação do WAIFF 2026, o grande destaque foi Costa Verde, de Léo Cannone, vencedor de Best WAIFF Film. A lista oficial de prêmios do festival também mostra Costa Verde como vencedor em Best AI Fantasy Film.

A premiação ainda incluiu A Dollar Story, de Qiu Sheng, como melhor filme de ação em IA; La Sélection Mécanique, de Jules Blachier, como melhor animação em IA; Napoléon III Le Prix de L’Audace, de Édouard Jacques, como melhor longa em IA; e STEAM, de Fabio Bonvicini, como melhor trilha sonora de IA.

E há um detalhe delicioso para o radar brasileiro: APOCALYPSE THE ART OF TOVAR, de Nyko Oliver, aparece como vencedor do CapCut Prize na lista oficial do WAIFF.

Para a MVAI, isso é ouro editorial. Enquanto o debate internacional ainda tenta decidir se IA é cinema, fraude, ferramenta, ameaça ou estética emergente, um criador brasileiro já aparece premiado em Cannes dentro do circuito de cinema de IA. É o tipo de sinal que mostra que essa revolução não é apenas Vale do Silício, OpenAI, Runway, Kling ou Hollywood. Tem Brasil no ruído. Tem Brasil no prompt. Tem Brasil nessa rachadura.

A contradição de Cannes: IA fora da Palma, IA dentro do mercado

O aspecto mais fascinante dessa história é que Cannes não está simplesmente expulsando a IA do seu ecossistema. Está reorganizando o lugar dela.

Enquanto a Competição Oficial preserva o discurso da autoria humana, o Marché du Film — o braço de mercado do festival — está ampliando o AI for Talent Summit, dentro do programa Cannes Next. A edição de 2026 acontece nos dias 15 e 16 de maio, na Plage des Palmes, com acesso por convite.

O próprio Marché du Film descreve o summit como um mergulho no futuro do cinema e do conteúdo impulsionado por IA. Em comunicado, afirma que o evento reunirá tomadores de decisão, grandes estúdios, investidores, empresas de tecnologia e startups para networking, colaboração e oportunidades de investimento em inteligência artificial.

Tradução livre do cinismo elegante da indústria:
a IA talvez não possa ganhar a Palma, mas pode muito bem entrar na sala de negócios.

Essa é a grande contradição. No tapete vermelho, Cannes protege a aura do autor. No mercado, discute como a IA vai baratear produção, acelerar workflow, transformar pitching, pré-visualização, distribuição, localização, dublagem, marketing e criação de conteúdo.

É como se o festival dissesse: “na arte, calma; no business, vamos conversar”.

E talvez seja exatamente aí que o futuro esteja sendo decidido.

O que está em jogo: autoria, trabalho e dinheiro

O debate sobre IA no cinema costuma ser vendido como uma briga filosófica: humano versus máquina. Mas, por baixo do verniz, há três temas muito concretos.

O primeiro é autoria. Quem assina uma obra feita com modelos treinados em milhões de imagens, filmes, músicas, vozes e estilos? O promptista? O diretor? A empresa dona do modelo? Os artistas cujas obras foram usadas no treinamento? Ninguém sabe responder com segurança — e quem diz que sabe provavelmente está vendendo consultoria.

O segundo é trabalho. A IA ameaça funções inteiras da cadeia audiovisual, mas também pode abrir espaço para criadores independentes que nunca teriam dinheiro para VFX, animação, concept art, storyboard ou finalização. O mesmo sistema que pode reduzir equipes em Hollywood pode permitir que um diretor periférico faça um curta impossível com orçamento de clipe underground.

O terceiro é dinheiro. A IA promete quebrar a curva de custo da produção audiovisual. E isso, para a indústria, é irresistível. O diretor Mathieu Kassovitz, de La Haine, disse ao The Guardian que está trabalhando em um filme quase todo viabilizado por IA e afirmou que, sem a tecnologia, os efeitos visuais custariam algo entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões; com IA, o orçamento cairia para cerca de US$ 25 milhões.

Essa conta explica por que Hollywood critica, teme, regula, processa — mas não larga. A IA é risco estético e trabalhista, mas também é uma máquina de compressão de orçamento. E, numa indústria espremida por streaming, juros, bilheteria incerta e disputa global por atenção, custo menor é droga pesada.

A velha pergunta da música voltou para o cinema

Para quem vem da música, esse debate tem gosto de déjà-vu.

Quando o sampler apareceu, disseram que não era música. Quando o rap cresceu, disseram que era colagem. Quando o autotune virou estética, disseram que era trapaça. Quando o funk brasileiro explodiu com produção barata, disseram que era tosco. Quando a música eletrônica lotou festivais, muitos ainda perguntavam onde estava o “instrumento de verdade”.

A história foi cruel com os puristas. O que era “atalho” virou linguagem. O que era “erro” virou estilo. O que era “máquina” virou cultura.

Isso não significa que toda obra feita com IA seja boa. Pelo contrário. O próprio The Guardian publicou uma análise bastante crítica do WAIFF, observando que o festival recebeu cerca de 5.000 filmes criados com IA e que muitas obras ainda sofrem com problemas de coerência, profundidade emocional e timing cômico.

O El País também destacou que, embora o WAIFF tenha reunido mais de 5.500 obras de 80 países, a maior parte ainda é composta por curtas e médias, com limitações técnicas visíveis, problemas de estilo e discussões intensas sobre direitos autorais.

Ou seja: não estamos diante de uma substituição mágica do cinema. Estamos diante de uma linguagem recém-nascida, cheia de defeitos, vícios, clichês e potência.

Como todo começo de movimento artístico, tem muita coisa ruim. Mas também tem ali o sinal da próxima indústria.

Cannes está certo ou está atrasado?

A resposta honesta é: Cannes está fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

Está certo ao exigir autoria humana, responsabilidade estética e proteção contra a avalanche de obras geradas sem critério. Um festival como Cannes não é obrigado a virar feira de demo tecnológica. A Palma de Ouro carrega uma tradição de cinema como gesto autoral, histórico, político e humano. Se tudo vira render, se tudo vira prompt, se tudo vira “conteúdo”, Cannes perde justamente aquilo que o diferencia.

Mas Cannes também pode estar atrasado se imaginar que consegue manter a IA como assunto externo. A tecnologia já entrou no cinema por todas as frestas: roteiro, tradução, dublagem, restauração, storyboard, concept art, VFX, rejuvenescimento de atores, marketing, montagem, cor, trilha, cartaz, pitching, distribuição.

O futuro provavelmente não será “cinema humano” contra “cinema de IA”. Será uma escala. De um lado, obras quase artesanais, orgulhosamente humanas. Do outro, obras altamente sintéticas. No meio, a maioria: filmes híbridos, nos quais humanos dirigem máquinas, máquinas sugerem imagens, atores convivem com avatares, músicos conversam com modelos, montadores escolhem entre cem variações geradas em minutos.

Essa é a parte que assusta Cannes. Não é a IA ruim. É a IA boa.

Quando a IA ainda erra mão, faz dedo torto, olhar morto e narrativa quebrada, é fácil rir. O problema começa quando ela emociona.

O novo cinema será disputado no prompt, no contrato e no palco

O WAIFF tenta vender uma visão conciliadora: a IA como câmera, como pincel, como sintetizador, como imaginação aumentada. Cannes tenta preservar a tradição: cinema como visão pessoal, corpo, presença, sofrimento, dúvida, escolha humana.

As duas posições têm razão parcial. E as duas escondem interesses.

Os tecnólogos querem legitimação cultural. Os festivais tradicionais querem preservar capital simbólico. Os investidores querem escala. Os artistas querem ferramenta sem virar matéria-prima gratuita. Os sindicatos querem proteção. Os jovens criadores querem entrar num jogo que sempre foi caro demais.

E no meio disso tudo, o público quer uma coisa simples e cruel: ser tocado.

Se o filme feito com IA emocionar, muita resistência cai. Se for só demonstração técnica, vira NFT com render bonito: barulho de bolha.

Por que isso importa para a MVAI

Para o Portal MVAI, essa é uma das notícias mais importantes da semana porque mostra exatamente o ponto de ruptura da cultura pop em 2026.

A inteligência artificial deixou de ser curiosidade de laboratório e virou disputa de festival, mercado, direito autoral, estética, remuneração e legitimidade. Cannes não está apenas debatendo uma ferramenta. Está tentando decidir quem pode ser chamado de autor no século XXI.

E o WAIFF, ocupando Cannes com filmes de IA, convidados internacionais, obras de 80 países e prêmios para criadores do Brasil, da China, da França, da Jordânia e de outros polos, mostra que a nova cena audiovisual não vai esperar a bênção da velha guarda.

A guerra do cinema não será travada apenas entre diretores e algoritmos. Será travada entre modelos de produção.

De um lado, o cinema caro, institucional, sindicalizado, dependente de grandes estruturas, editais, estúdios, streamings e festivais de legitimação.

Do outro, um cinema emergente, barato, veloz, impuro, cheio de bugs, mas capaz de transformar um criador solitário em microestúdio.

É o punk chegando ao cinema de autor.
É o sampler invadindo a orquestra.
É o videoclipe encontrando o prompt.
É Cannes tentando segurar a porta enquanto a próxima geração já entrou pela janela.

E, como sempre acontece na cultura, a pergunta não é se a tecnologia será aceita.

A pergunta é: quem vai fazer arte com ela antes que ela vire apenas mais uma ferramenta de mercado?

Co-criador do Mochileiros.com, do Coletivo Mariachi e da MVAI. Pedreiro da web desde 1997, midiativista e lúmpen escrevinhador. Responsável pela inserção do verbete "Mochileiro" e "Midiativismo" na Wikipedia em Português.

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Cinema

Diretor de O Rei Leão aposta na IA para revolucionar o cinema

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Rob Minkoff prepara Storm Dogs, produção que combina atores reais e personagens gerados por inteligência artificial. A aposta é reduzir custos e abrir espaço para novas histórias em Hollywood.

Rob Minkoff, codiretor do clássico O Rei Leão (1994), está abraçando a inteligência artificial no cinema. Em entrevista ao jornal britânico The Times, publicada em 7 de outubro, o cineasta defendeu o potencial da tecnologia para transformar a produção de filmes, tornando-a mais barata e menos dependente de grandes equipes.

O próximo projeto é Storm Dogs, filme familiar produzido pela Particle6, empresa de Eline van der Velden, também responsável pela criação da personagem virtual Tilly Norwood.

Um filme com atores reais e personagens de IA

Storm Dogs contará a história de animais que ajudam uma criança pequena a encontrar o caminho de casa após uma enchente.

A produção pretende combinar cenas com atores reais e personagens gerados por IA, incluindo cães e uma criança. O início das filmagens está previsto para 2027.

Para Minkoff, ferramentas de inteligência artificial podem reduzir significativamente os custos de produção, especialmente em filmes que dependem de animação e efeitos visuais.

Menos empregos ou mais filmes?

A principal controvérsia está na redução das equipes. Minkoff reconhece o impacto potencial da IA sobre os empregos, mas acredita que produções mais baratas também poderão estimular investimentos em histórias originais.

A discussão já mobiliza Hollywood. A Particle6 foi alvo de críticas após apresentar Tilly Norwood, personagem digital que provocou reação do sindicato dos atores SAG-AFTRA, contrário à substituição de profissionais por intérpretes sintéticos.

Uma nova Hollywood?

A entrada de um diretor consagrado como Rob Minkoff nesse mercado sinaliza uma mudança importante: a inteligência artificial deixa de ser apenas uma experiência tecnológica e passa a integrar projetos cinematográficos comerciais.

A grande questão agora não é apenas quanto custará produzir um filme, mas quem terá acesso a essa tecnologia, quem continuará criando e como os profissionais serão remunerados.

Fonte principal: The Times (7/10/2026). Informações complementares: Particle6, entrevistas de Rob Minkoff e SAG-AFTRA.

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Cinema

Para Tom Cruise, o futuro do cinema terá IA — e continuará precisando de humanos

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Tom Cruise

Tom Cruise entrou no debate sobre inteligência artificial em Hollywood com uma posição menos apocalíptica do que pode parecer: para o ator, a chegada da tecnologia ao cinema é inevitável — mas isso não significa o desaparecimento da criação humana.

Durante uma conversa da série BAFTA: A Life in Pictures, em Londres, Cruise afirmou que a IA “está chegando e vai acontecer”, mas ressaltou que o público continuará procurando experiências humanas.

“Não há nada como o ser humano”, disse o ator. “As pessoas querem ver coisas reais.”

IA não significa o fim do cinema

Cruise, conhecido por defender filmagens práticas, realizar grande parte das próprias cenas de ação e promover a experiência das salas de cinema, acredita que novas tecnologias podem coexistir com formas tradicionais de produção.

Ele também afirmou não ser contrário ao streaming, mas considera a experiência coletiva da sala de cinema uma forma artística diferente.

O ator resumiu sua resposta ao avanço da inteligência artificial com um conselho aos profissionais da indústria:

“Continuem criando.”

Um debate que já divide Hollywood

A discussão acontece enquanto estúdios, atores, diretores e sindicatos tentam definir até onde a IA pode entrar na produção cinematográfica — da geração de imagens e efeitos visuais à reprodução digital de rostos e performances.

A própria trajetória recente de Cruise reforça sua posição. Em 2025, ele recebeu um Oscar honorário, e a Academia destacou oficialmente sua contribuição à comunidade cinematográfica e sua defesa da experiência nos cinemas.

Para Cruise, portanto, a questão não parece ser impedir a chegada da inteligência artificial.

É descobrir como continuar fazendo cinema quando ela estiver em toda parte.

Fonte principal: NME.
Fontes adicionais: Variety, Screen Daily, Euronews, TheWrap e Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

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Cinema

Google quer pagar milhões para colocar Hollywood dentro da IA

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O Google está tentando aproximar sua inteligência artificial de alguns dos ativos mais valiosos de Hollywood: seus personagens, filmes e universos culturais.

Segundo reportagens do Los Angeles Times e do The Verge, executivos da empresa vêm conversando com estúdios como Disney, Universal e Warner Bros. Discovery sobre possíveis acordos para licenciar propriedade intelectual e permitir seu uso em modelos e produtos de IA. Nenhum grande acordo deste tipo foi oficialmente anunciado até agora.

A negociação mostra que a próxima guerra da inteligência artificial pode não ser travada apenas em GPUs, benchmarks ou qualidade de geração.

Ela será também uma guerra por cultura.

Quanto vale Darth Vader para uma IA?

De acordo com o The Verge, citando informações do Los Angeles Times, uma negociação envolvendo um único personagem de um grande estúdio poderia chegar a dezenas de milhões de dólares. Pacotes maiores, envolvendo bibliotecas inteiras de personagens, poderiam elevar esses contratos para cifras muito maiores.

Para o Google, não se trata apenas de conseguir material para desenvolver modelos melhores.

Imagine abrir uma ferramenta de IA e poder criar legalmente uma imagem ou um vídeo com personagens de Disney, Pixar ou outros grandes universos do entretenimento.

É uma diferença enorme entre gerar “um guerreiro espacial parecido com Darth Vader” e gerar Darth Vader oficialmente licenciado.

O segundo caso transforma um experimento tecnológico em produto cultural reconhecível por bilhões de pessoas.

O Google já está entrando em Hollywood

A aproximação não começou agora.

Em junho, Google DeepMind e A24 anunciaram uma parceria de pesquisa para desenvolver novos processos de produção utilizando inteligência artificial. O Google também realizou um investimento no estúdio, embora oficialmente não tenha divulgado o valor.

A DeepMind mantém ainda colaboração com a Primordial Soup, empresa fundada pelo diretor Darren Aronofsky, para experimentar o Veo na produção audiovisual.

Ao mesmo tempo, concorrentes seguem caminho semelhante.

A Runway aprofundou em 2026 sua parceria com a Lionsgate. As empresas anunciaram um programa conjunto para desenvolver novas propriedades intelectuais e projetos audiovisuais utilizando inteligência artificial. A Lionsgate também adquiriu participação na Runway.

Ou seja: tecnologia e entretenimento estão começando a se misturar institucionalmente.

O problema não é apenas tecnológico

Existe, porém, um obstáculo que nenhum novo modelo resolve sozinho: confiança.

Pesquisa do Pew Research Center publicada em 2026 mostra que 40% dos adultos americanos esperam um impacto negativo da IA sobre a sociedade, contra apenas 16% que enxergam um impacto predominantemente positivo.

Entre pessoas de 18 a 29 anos, o pessimismo é ainda maior: 48% esperam impacto negativo sobre a sociedade.

Em outra medição do Pew, realizada em junho de 2026, 55% dos adultos de 18 a 29 anos disseram estar mais preocupados do que empolgados com o avanço da inteligência artificial.

É aqui que Hollywood se torna particularmente valiosa.

Personagens conhecidos, cineastas respeitados e grandes franquias podem oferecer algo que nenhuma atualização de software consegue fabricar rapidamente:

legitimidade cultural.

Mas Hollywood também corre riscos

Os estúdios têm razões para negociar.

IA pode reduzir custos, acelerar pré-produção, criar efeitos, storyboards, versões, dublagens, publicidade e permitir novas formas de produção.

Mas existe uma diferença enorme entre usar IA como ferramenta de produção e entregar bibliotecas inteiras de propriedade intelectual para empresas de tecnologia.

Hollywood precisa decidir até onde pretende abrir essa porta.

Porque personagens, atores, roteiristas e universos cinematográficos não são simplesmente dados.

São ativos culturais construídos durante décadas.

E esse talvez seja o ponto mais importante dessa nova disputa.

Durante alguns anos, parecia que Hollywood precisava desesperadamente das empresas de inteligência artificial para acompanhar a próxima revolução tecnológica.

Agora começa a aparecer o outro lado da equação:

as empresas de IA também precisam desesperadamente de artistas, personagens, histórias e cultura.

Modelos conseguem gerar bilhões de imagens.

Criar algo que bilhões de pessoas realmente se importem em assistir continua sendo outro problema.

E talvez seja justamente aí que Hollywood ainda tenha a carta mais valiosa na mão.

Fontes: The Verge, Los Angeles Times, Google DeepMind, Runway e Pew Research Center.

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