Opinião
Os Caipiras Contra a IA: A Mesma Briga de Sempre em Novos Formatos
Caipiras: Os autênticos, da roça, das delícias do campo e da simplicidade. Estes nós amamos.
Agora, os caipiras do asfalto, dos centros urbanos, aqueles que acham que sabem de tudo e não precisam aprender mais nada. Que tem orgulho da própria ignorância e vivem regurgitando burrices sem fim. Esse prompt é para os caipiras da música, e não são os sertanejos.
Toda vez que a arte dá um passo adiante, alguém imediatamente cruza os braços, franze a testa e declara:
“Isso aí não é arte!”
A humanidade é tão previsível que dá até para criar um calendário das revoltas tecnológicas. E hoje, quem ocupa o “lugar de inimigo oficial da civilização” é a Inteligência Artificial.
Mas a treta é velha. Muito velha.
Vamos fazer o tour histórico dessa caipiragem atemporal.
1. Quando o artista bom usava… ovo
Antes da tinta a óleo, o artista raiz pintava com têmpera de ovo: gema + pigmento de pedra moída + água. Uma técnica que secava tão rápido que parecia feita para artistas que não piscam.
Um exemplo clássico?
“O Nascimento de Vênus” (1485), de Botticelli — uma obra inteira criada com essa alquimia culinária da Renascença.

Quando surgiu a tinta a óleo, permitindo esfumaçamento, correções, camadas e brilho?
A caipirada medieval gritou:
“Isso facilita demais, isso NÃO é arte!”
Resultado: a tinta a óleo virou o padrão global. A têmpera não morreu, mas virou nicho.
E ninguém morreu também.
2. Retratistas vs. Fotografia: o drama que ninguém supera
Durante séculos, retratistas dominaram o palco visual.
Gente como Ottavio Leoni, mestre italiano do século XVII, era quem transformava reis, burgueses e nobres em pinturas majestosas.

Até que… click.
A fotografia chegou.
Primeiro, com a heliografia de Niépce (1826).
Depois, com o processo daguerreotipo de 1839, popularizado por Daguerre.
A câmera obscura e o pinhole já existiam como auxiliares, mas agora havia imagem fixa, “pintada pela luz”.
E os retratistas reagiram como?
Com o clássico:
“Máquina não é arte!”
“Cadê a mão do artista?”
Resultado: a fotografia virou a nova linguagem do mundo.
Os retratistas ficaram como nota de rodapé da história — e alguns migraram lindamente para a nova tecnologia.
3. O apocalipse analógico: médio formato vs. DSLR
Passamos para o século XX — e aqui a briga ficou cinematográfica.
Os donos de Hasselblads, Mamiyas, Rolleiflex, Pentax 67, fotografando com Tri-X e Ilford HP5, tinham a convicção absoluta de que o mundo funcionava assim:
Sem película, não existe fotografia.
Aí chegam as primeiras DSLRs digitais.
E o caipira analógico rosna:
“Isso é eletrônico!”
“ISO 800 limpo? Bruxaria!”
“Megapixel não é grão!”
Enquanto isso, o mundo inteiro avançava para o digital porque… simplesmente funcionava melhor.
4. Photoshop & RAW: o fim do mundo em camadas
Se a DSLR já doía, veio a segunda paulada:
Photoshop. Arquivos RAW. Máscaras. Camadas. Curvas. Correção de cor.
Era o caos absoluto para a velha guarda.
“Isso não é foto, é design!”
“Quero ver fazer na unha, no filme!”
E o pior: revistas, editoras e publicidades passaram a exigir RAW.
A técnica analógica virou arte cult. A digital virou regra.
5. Instagram: o terremoto definitivo
Depois veio o monstro final.
A besta apocalíptica.
O flagelo que realmente tirou o sono da caipirada fotográfica:
Instagram.
De repente:
- Adolescentes faziam “fotografias estilosas” com o celular.
- Filtros automáticos substituíam horas de laboratório.
- Gente sem Hasselblad ganhava mais likes que profissionais premiados.
Gritos foram ouvidos no planeta inteiro:
“AGORA acabou a fotografia!”
Adivinhe:
Não acabou.
Nunca se fotografou tanto na história da humanidade.
6. IA: o novo capítulo da mesma novela
E chegamos ao presente.
Entre Suno, DALL-E, Runway, Midjourney, Kino, LTX, Udio e companhia, qualquer pessoa tem acesso a ferramentas que antes exigiam 20 anos de estudo.
A reação?
“Isso não é arte!”
“Isso tira emprego!”
“A máquina não sente!”
Sim, é exatamente o mesmo discurso usado contra:
- a tinta a óleo
- a fotografia
- a DSLR
- o Photoshop
- o Instagram
A arte nunca morreu.
O ego de alguns, talvez.
Conclusão: A arte evolui. Os caipiras permanecem.
Hoje, a briga não é sobre técnica.
Não é sobre autenticidade.
Não é sobre pureza.
É sobre medo — o mesmo medo que pintores de têmpera, retratistas, fotógrafos analógicos e profissionais pré-Instagram tiveram na virada das suas eras.
A história nunca muda:
o novo chega, o velho grita, o futuro acontece.
E a IA?
É só o próximo passo inevitável.
Seja no pincel, no filme, no sensor ou no prompt —
a arte é de quem ousa criar, não de quem tem medo do novo.
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