Tecnologia & IA
Suno aposta no velho guardião dos independentes para guiar sua estratégia comercial
Em uma das manobras mais comentadas da interseção entre música e tecnologia neste início de 2026, o executivo Jeremy Sirota, até então CEO da Merlin — agência global de licenciamento que representa mais de 30 000 gravadoras independentes e selos ao redor do mundo — anunciou sua saída e aceitou o convite para se tornar Chief Commercial Officer (diretor comercial) da plataforma de inteligência artificial musical Suno AI.
A mudança, oficializada em fevereiro, chocou parte da comunidade musical porque Sirota vinha liderando posicionamentos firmes contra o uso indiscriminado de repertório independente para treinar algoritmos de IA sem autorização prévia. Em documentos e declarações públicas, ele defendia que “música independente não é matéria-prima para as empresas de tecnologia explorarem sem consentimento” — uma frase que ecoa fortemente à luz da sua nova função.
Suno, empresa de IA generativa focada em criar música por meio de modelos algoritmos, é atualmente avaliada em cerca de US$ 2,45 bi e já admitiu em registros judiciais ter treinado seu sistema com “dezenas de milhões de gravações” obtidas da internet — um conjunto que provavelmente incluía repertórios sob os cuidados da Merlin.
Durante seu tempo na Merlin, Sirota foi uma voz ativa na defesa de direitos autorais em relação ao AI, chegando a publicar políticas que exigiam autorização expressa para que gravadoras & compositoras fossem usadas em datasets de treinamento. Ele também esteve envolvido em negociações com gigantes como Spotify e Apple para avançar modelos de licenciamento digital que valorizassem artistas independentes.
Agora, na Suno, ele terá sob sua responsabilidade as estratégias comerciais, relações com o mercado musical e parcerias com plataformas e gravadoras — um papel que o coloca no epicentro de um dos debates mais espinhosos da indústria: como estruturar economicamente a música gerada por IA de forma que não esvazie direitos autorais nem canibalize o valor do catálogo original.
A jogada levanta questões complexas: até que ponto um defensor histórico da independência artística pode influenciar uma empresa cujo crescimento se apoiou em dados potencialmente não licenciados? E como isso pode recalibrar as relações entre tecnologia e música — especialmente para artistas que historicamente lutam por reconhecimento e remuneração justos num mercado em constante transformação?
Fonte: CMU
Na imagem em destaque Jeremy Sirota . Foto de Ben Benson
Cinema
IA contra Hollywood: Grok divulga sua versão de “A Odisseia”
Projeto produzido com Grok Imagine tem direção de Dev Walker e surge após Elon Musk prometer um longa-metragem baseado no clássico de Homero.
A Grok Imagine, ferramenta de geração de imagens e vídeos por inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, divulgou na sexta-feira (23) os primeiros sete minutos de sua adaptação de A Odisseia, poema épico atribuído ao grego Homero.
Apresentado como o primeiro episódio de uma série, o vídeo foi desenvolvido em colaboração com a Wonder Studios e o diretor Dev Walker, demonstrando como ferramentas generativas já estão sendo utilizadas em produções audiovisuais narrativas.
Em julho, Musk havia prometido produzir até o final de 2026 um longa-metragem baseado na obra, que classificou como uma adaptação historicamente fiel. Por enquanto, o projeto apresentado tem pouco mais de sete minutos, sem calendário divulgado para novos episódios.
IA versus cinema tradicional
O lançamento também acontece em meio às críticas de Musk à adaptação cinematográfica de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan, que estreou em julho e conquistou grande sucesso de bilheteria.
Enquanto Nolan apostou em uma produção de grande escala, com filmagens em diferentes países e uso extensivo de efeitos práticos, a versão do Grok explora a geração de imagens por inteligência artificial.
A recepção inicial foi dividida. O TechCrunch elogiou o realismo visual de algumas cenas, mas criticou a falta de emoção, a rigidez dos diálogos e a fragilidade da narrativa.
Apesar das limitações, o experimento reforça uma transformação no audiovisual: a possibilidade de criar sequências cinematográficas complexas com ferramentas generativas, mantendo profissionais humanos envolvidos na direção e na criação.
Tecnologia & IA
Anthology quer colocar infraestrutura de major nas mãos dos independentes
A inteligência artificial está entrando em uma nova área da indústria musical: os bastidores.
A britânica Absolute Label Services abriu ao mercado independente o Anthology, plataforma que a empresa define como um “Music Operating System”, ou sistema operacional para negócios de música. A ideia é reunir distribuição, direitos, dados, marketing e finanças em um único ambiente, usando IA para automatizar parte do trabalho operacional.
IA para administrar — não para criar música
O ponto mais interessante do projeto é justamente onde a inteligência artificial está sendo aplicada.
Em vez de gerar músicas ou substituir artistas, o Anthology utiliza IA para monitorar dados, identificar anomalias, encontrar possíveis problemas de royalties e detectar oportunidades comerciais.
Segundo Simon Wills, co-diretor da Absolute e responsável pelo projeto, a empresa decidiu concentrar a tecnologia nas tarefas em que a IA pode auxiliar profissionais, e não substituir a razão pela qual a indústria musical existe: a própria música.
No centro do sistema está o Ant, um modelo de IA especializado na indústria musical. Apresentado originalmente em 2025, ele funciona como uma espécie de copiloto empresarial integrado à plataforma. A Absolute afirma que o sistema foi desenvolvido a partir de sua experiência acumulada no setor e que os clientes mantêm controle sobre seus próprios dados.
Tudo em um único sistema
O Anthology reúne ferramentas que normalmente ficam espalhadas por diferentes serviços:
distribuição digital e física, administração de catálogos, direitos conexos, marketing, relatórios financeiros, estoque, fornecedores, faturamento e análise de desempenho.
A fragmentação é um problema real para selos independentes. Matt Bristow, da Cherry Red Records, contou que a empresa já precisou repetir dados de um único lançamento em até 15 plataformas diferentes. Com dezenas de lançamentos por mês, a centralização pode eliminar muitas horas de trabalho administrativo.
Além da Cherry Red, a Blue Raincoat Music, ligada à Reservoir Media, está entre os primeiros clientes anunciados. O sistema também é utilizado por empresas atendidas pela Absolute, como Wise Music Group e The Fuel Music and Management.
Infraestrutura pode ser a próxima democratização da música
A tese da Absolute é simples.
A distribuição digital reduziu uma enorme vantagem estrutural das grandes gravadoras: hoje um artista ou selo independente consegue disponibilizar sua música globalmente sem possuir uma rede física internacional.
Mas distribuir deixou de ser o único problema.
Administrar royalties, dados, direitos, marketing, estoque, plataformas digitais e milhares de informações continua exigindo uma infraestrutura que normalmente favorece organizações maiores.
O Anthology tenta atacar justamente essa diferença.
Se funcionar como prometido, a IA pode assumir parte do trabalho repetitivo dos bastidores enquanto profissionais dedicam mais tempo às decisões estratégicas, aos artistas e à criação.
É uma discussão importante para além do debate sobre “IA fazendo música”.
A próxima transformação da inteligência artificial na indústria talvez não aconteça apenas dentro do estúdio.
Pode acontecer nas planilhas, nos royalties, nos contratos, nos catálogos e em toda a infraestrutura invisível que mantém a música circulando.
Fontes principais: Music Business Worldwide, Absolute Label Services e Record of the Day. A Absolute descreve oficialmente o Anthology como uma plataforma que integra distribuição, direitos, analytics e ferramentas promocionais, enquanto a cobertura da MBW detalha o papel do modelo Ant e a estratégia de levar a infraestrutura a empresas independentes.
Tecnologia & IA
GPT-6 fica mais barato: OpenAI lança os modelos Sol e Luna
A OpenAI ampliou nesta terça-feira (22) a família GPT-6 com o lançamento de dois novos modelos: GPT-6 Sol e GPT-6 Luna. A proposta é levar parte dos avanços do poderoso GPT-6 Astra para versões mais rápidas e, principalmente, mais baratas.
O grande destaque do anúncio está no preço.
Na API, o GPT-6 Sol custa US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 por milhão de tokens de saída. O GPT-6 Luna cai para apenas US$ 0,10 na entrada e US$ 0,50 na saída.
Segundo a OpenAI, os valores representam uma redução de 50% em relação aos preços promocionais dos modelos GPT-5.6 equivalentes.
Astra, Sol ou Luna?
A nova família passa a ocupar três níveis.
O GPT-6 Astra continua sendo o modelo mais poderoso da OpenAI, destinado aos trabalhos que exigem máxima capacidade.
O GPT-6 Sol fica no meio do caminho: foi projetado para tarefas profissionais mais complexas, programação, agentes de IA e uso de computadores, mas com custo muito menor.
Já o GPT-6 Luna é a versão mais econômica, voltada principalmente a tarefas repetitivas e aplicações que precisam processar grandes volumes de informação.
Nos testes divulgados pela própria OpenAI, Sol e Luna também avançaram em programação, execução de tarefas profissionais e precisão factual em relação à geração GPT-5.6. Como os benchmarks fazem parte do material de lançamento da empresa, esses resultados devem ser considerados números apresentados pela própria fabricante.
A inteligência artificial entra na guerra do custo
Talvez esse seja o ponto mais importante do lançamento.
Depois de anos em que a indústria disputou principalmente quem tinha o modelo mais inteligente, a competição começa a acontecer também em torno de quanto custa usar essa inteligência em escala.
A VentureBeat destacou justamente essa mudança ao analisar Sol e Luna como modelos voltados a transformar a tecnologia da geração GPT-6 em uma ferramenta economicamente viável para aplicações empresariais e de grande volume.
Para áreas criativas, isso também importa. Produção de texto, programação, pesquisa, automação, agentes e ferramentas de criação podem utilizar muito mais processamento quando o preço por token despenca.
É uma mudança menos espetacular que simplesmente anunciar “a IA mais poderosa do mundo”, mas potencialmente muito mais importante para sua adoção cotidiana.
Onde estão disponíveis?
No lançamento, GPT-6 Sol e Luna chegaram ao ChatGPT Work e ao Codex para usuários Plus, Pro, Business, Enterprise e Edu. Usuários Free e Go podem acessar o GPT-6 Luna pelo aplicativo desktop.
Os dois modelos também já estão disponíveis para desenvolvedores pela API como gpt-6-sol e gpt-6-luna. A OpenAI informou que a distribuição está sendo feita gradualmente.
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