Cinema
Scorsese leva a IA para o storyboard — e reacende a guerra cultural em Hollywood
Aos 83 anos, Martin Scorsese entrou para a Black Forest Labs, startup de IA generativa por trás do modelo FLUX, e passou a testar a tecnologia na pré-produção de filmes. O gesto é simbólico: um dos maiores defensores da história do cinema agora ajuda a legitimar uma das ferramentas mais controversas do audiovisual contemporâneo.
Martin Scorsese não costuma ser lembrado como um entusiasta ingênuo da tecnologia. Ao contrário: sua imagem pública está ligada à defesa da preservação cinematográfica, à cinefilia quase religiosa e à ideia de que cinema é mais do que conteúdo audiovisual empilhado em plataformas. Justamente por isso, seu novo movimento chamou tanta atenção.
O diretor de Taxi Driver, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, O Lobo de Wall Street e Assassinos da Lua das Flores tornou-se parceiro e conselheiro da Black Forest Labs, empresa de inteligência artificial generativa especializada em modelos de imagem e vídeo. A companhia é conhecida pela família de modelos FLUX, usada para gerar imagens a partir de comandos textuais e referências visuais.
O uso defendido por Scorsese, ao menos por enquanto, é específico: storyboards. Ou seja, a etapa anterior à filmagem, em que diretores e equipes transformam uma ideia visual em quadros, esboços, enquadramentos e sequências que orientam a produção.
Segundo Scorsese, a IA pode ajudá-lo a comunicar com mais clareza o que está imaginando para profissionais como diretor de fotografia, diretor de arte e designers de produção. Em vez de substituir a equipe, o argumento do cineasta é que a ferramenta funcionaria como uma ponte mais rápida entre a visão mental do diretor e a execução coletiva do filme.
É uma distinção importante — e politicamente calculada. Scorsese não está dizendo que quer atores sintéticos, roteiros automatizados ou filmes finalizados por máquinas. Ele está defendendo a IA como instrumento de pré-produção, uma espécie de caderno de rascunhos turbinado. Ainda assim, em Hollywood, esse tipo de nuance raramente passa ileso.
A reação foi imediata. Artistas de storyboard, ilustradores e profissionais de concept art criticaram a iniciativa, argumentando que ferramentas generativas são treinadas sobre grandes volumes de imagens, muitas vezes sem autorização clara dos criadores originais. Para esse grupo, mesmo quando a IA aparece como “assistente”, ela pode acabar comprimindo prazos, reduzindo equipes e desvalorizando um trabalho altamente especializado.
O caso também mexe com uma ferida recente. A indústria audiovisual ainda sente os efeitos das greves de 2023, quando roteiristas e atores colocaram a inteligência artificial no centro das negociações trabalhistas. O medo não era abstrato: sindicatos queriam limites para o uso de IA em roteiros, vozes, imagens, performances e réplicas digitais de atores.
A diferença agora é o peso simbólico do nome envolvido. Não se trata de uma startup tentando vender o futuro para investidores, nem de um executivo prometendo reduzir custos com “eficiência”. É Martin Scorsese, um cineasta associado à autoria, à tradição e à defesa do cinema como arte. Quando ele aceita colocar seu nome ao lado de uma empresa de IA, a conversa muda de patamar.
Também não é a primeira vez que Scorsese dialoga com tecnologias que alteram a linguagem cinematográfica. Em A Invenção de Hugo Cabret, ele explorou o 3D. Em O Irlandês, recorreu a técnicas digitais de rejuvenescimento. Sua trajetória mostra que preservação e experimentação não precisam ser opostos. O ponto delicado é que a IA generativa não é apenas mais uma ferramenta de câmera, lente ou pós-produção. Ela toca diretamente em autoria, treinamento de dados, trabalho criativo e propriedade intelectual.
A defesa mais forte do uso de IA em storyboards é pragmática: pré-produção custa caro, tempo é dinheiro e visualizar cenas antes da filmagem pode evitar desperdício. Para diretores, especialmente em produções grandes, conseguir testar atmosferas, enquadramentos e ritmos visuais rapidamente pode ser uma vantagem real.
A crítica mais forte é igualmente concreta: se a IA passa a produzir imagens de referência em segundos, quem perde espaço são justamente os artistas que antes eram contratados para desenvolver essas visualizações. Mesmo quando a ferramenta não aparece no filme final, ela pode alterar a cadeia de trabalho que torna o filme possível.
No fundo, a entrada de Scorsese na Black Forest Labs revela o ponto exato em que a discussão sobre IA no audiovisual deixou de ser futurismo. Ela agora está na rotina de pré-produção, nas salas de reunião, nos testes de linguagem, nos orçamentos e nos créditos invisíveis da criação.
A pergunta que Hollywood terá de responder não é se a IA vai entrar no cinema. Ela já entrou. A pergunta é em que condições, com quais limites, com qual transparência e com que proteção para os profissionais humanos que constroem a imagem antes de ela chegar à tela.
Scorsese parece apostar que a inteligência artificial pode ampliar a imaginação cinematográfica sem destruir o ofício. Seus críticos temem que essa promessa seja apenas a porta elegante para uma precarização mais profunda.
De todo modo, o recado está dado: quando até Martin Scorsese começa a usar IA para desenhar o filme antes do filme, a indústria já não pode tratar o assunto como experimento lateral. A disputa agora é sobre quem controla a ferramenta — e quem será empurrado para fora do quadro.
Fonte: SFC
Cinema
Diretor de O Rei Leão aposta na IA para revolucionar o cinema
Rob Minkoff prepara Storm Dogs, produção que combina atores reais e personagens gerados por inteligência artificial. A aposta é reduzir custos e abrir espaço para novas histórias em Hollywood.
Rob Minkoff, codiretor do clássico O Rei Leão (1994), está abraçando a inteligência artificial no cinema. Em entrevista ao jornal britânico The Times, publicada em 7 de outubro, o cineasta defendeu o potencial da tecnologia para transformar a produção de filmes, tornando-a mais barata e menos dependente de grandes equipes.
O próximo projeto é Storm Dogs, filme familiar produzido pela Particle6, empresa de Eline van der Velden, também responsável pela criação da personagem virtual Tilly Norwood.
Um filme com atores reais e personagens de IA
Storm Dogs contará a história de animais que ajudam uma criança pequena a encontrar o caminho de casa após uma enchente.
A produção pretende combinar cenas com atores reais e personagens gerados por IA, incluindo cães e uma criança. O início das filmagens está previsto para 2027.
Para Minkoff, ferramentas de inteligência artificial podem reduzir significativamente os custos de produção, especialmente em filmes que dependem de animação e efeitos visuais.
Menos empregos ou mais filmes?
A principal controvérsia está na redução das equipes. Minkoff reconhece o impacto potencial da IA sobre os empregos, mas acredita que produções mais baratas também poderão estimular investimentos em histórias originais.
A discussão já mobiliza Hollywood. A Particle6 foi alvo de críticas após apresentar Tilly Norwood, personagem digital que provocou reação do sindicato dos atores SAG-AFTRA, contrário à substituição de profissionais por intérpretes sintéticos.
Uma nova Hollywood?
A entrada de um diretor consagrado como Rob Minkoff nesse mercado sinaliza uma mudança importante: a inteligência artificial deixa de ser apenas uma experiência tecnológica e passa a integrar projetos cinematográficos comerciais.
A grande questão agora não é apenas quanto custará produzir um filme, mas quem terá acesso a essa tecnologia, quem continuará criando e como os profissionais serão remunerados.
Fonte principal: The Times (7/10/2026). Informações complementares: Particle6, entrevistas de Rob Minkoff e SAG-AFTRA.
Cinema
Para Tom Cruise, o futuro do cinema terá IA — e continuará precisando de humanos
Tom Cruise entrou no debate sobre inteligência artificial em Hollywood com uma posição menos apocalíptica do que pode parecer: para o ator, a chegada da tecnologia ao cinema é inevitável — mas isso não significa o desaparecimento da criação humana.
Durante uma conversa da série BAFTA: A Life in Pictures, em Londres, Cruise afirmou que a IA “está chegando e vai acontecer”, mas ressaltou que o público continuará procurando experiências humanas.
“Não há nada como o ser humano”, disse o ator. “As pessoas querem ver coisas reais.”
IA não significa o fim do cinema
Cruise, conhecido por defender filmagens práticas, realizar grande parte das próprias cenas de ação e promover a experiência das salas de cinema, acredita que novas tecnologias podem coexistir com formas tradicionais de produção.
Ele também afirmou não ser contrário ao streaming, mas considera a experiência coletiva da sala de cinema uma forma artística diferente.
O ator resumiu sua resposta ao avanço da inteligência artificial com um conselho aos profissionais da indústria:
“Continuem criando.”
Um debate que já divide Hollywood
A discussão acontece enquanto estúdios, atores, diretores e sindicatos tentam definir até onde a IA pode entrar na produção cinematográfica — da geração de imagens e efeitos visuais à reprodução digital de rostos e performances.
A própria trajetória recente de Cruise reforça sua posição. Em 2025, ele recebeu um Oscar honorário, e a Academia destacou oficialmente sua contribuição à comunidade cinematográfica e sua defesa da experiência nos cinemas.
Para Cruise, portanto, a questão não parece ser impedir a chegada da inteligência artificial.
É descobrir como continuar fazendo cinema quando ela estiver em toda parte.
Fonte principal: NME.
Fontes adicionais: Variety, Screen Daily, Euronews, TheWrap e Academy of Motion Picture Arts and Sciences.
Cinema
Google quer pagar milhões para colocar Hollywood dentro da IA
O Google está tentando aproximar sua inteligência artificial de alguns dos ativos mais valiosos de Hollywood: seus personagens, filmes e universos culturais.
Segundo reportagens do Los Angeles Times e do The Verge, executivos da empresa vêm conversando com estúdios como Disney, Universal e Warner Bros. Discovery sobre possíveis acordos para licenciar propriedade intelectual e permitir seu uso em modelos e produtos de IA. Nenhum grande acordo deste tipo foi oficialmente anunciado até agora.
A negociação mostra que a próxima guerra da inteligência artificial pode não ser travada apenas em GPUs, benchmarks ou qualidade de geração.
Ela será também uma guerra por cultura.
Quanto vale Darth Vader para uma IA?
De acordo com o The Verge, citando informações do Los Angeles Times, uma negociação envolvendo um único personagem de um grande estúdio poderia chegar a dezenas de milhões de dólares. Pacotes maiores, envolvendo bibliotecas inteiras de personagens, poderiam elevar esses contratos para cifras muito maiores.
Para o Google, não se trata apenas de conseguir material para desenvolver modelos melhores.
Imagine abrir uma ferramenta de IA e poder criar legalmente uma imagem ou um vídeo com personagens de Disney, Pixar ou outros grandes universos do entretenimento.
É uma diferença enorme entre gerar “um guerreiro espacial parecido com Darth Vader” e gerar Darth Vader oficialmente licenciado.
O segundo caso transforma um experimento tecnológico em produto cultural reconhecível por bilhões de pessoas.
O Google já está entrando em Hollywood
A aproximação não começou agora.
Em junho, Google DeepMind e A24 anunciaram uma parceria de pesquisa para desenvolver novos processos de produção utilizando inteligência artificial. O Google também realizou um investimento no estúdio, embora oficialmente não tenha divulgado o valor.
A DeepMind mantém ainda colaboração com a Primordial Soup, empresa fundada pelo diretor Darren Aronofsky, para experimentar o Veo na produção audiovisual.
Ao mesmo tempo, concorrentes seguem caminho semelhante.
A Runway aprofundou em 2026 sua parceria com a Lionsgate. As empresas anunciaram um programa conjunto para desenvolver novas propriedades intelectuais e projetos audiovisuais utilizando inteligência artificial. A Lionsgate também adquiriu participação na Runway.
Ou seja: tecnologia e entretenimento estão começando a se misturar institucionalmente.
O problema não é apenas tecnológico
Existe, porém, um obstáculo que nenhum novo modelo resolve sozinho: confiança.
Pesquisa do Pew Research Center publicada em 2026 mostra que 40% dos adultos americanos esperam um impacto negativo da IA sobre a sociedade, contra apenas 16% que enxergam um impacto predominantemente positivo.
Entre pessoas de 18 a 29 anos, o pessimismo é ainda maior: 48% esperam impacto negativo sobre a sociedade.
Em outra medição do Pew, realizada em junho de 2026, 55% dos adultos de 18 a 29 anos disseram estar mais preocupados do que empolgados com o avanço da inteligência artificial.
É aqui que Hollywood se torna particularmente valiosa.
Personagens conhecidos, cineastas respeitados e grandes franquias podem oferecer algo que nenhuma atualização de software consegue fabricar rapidamente:
legitimidade cultural.
Mas Hollywood também corre riscos
Os estúdios têm razões para negociar.
IA pode reduzir custos, acelerar pré-produção, criar efeitos, storyboards, versões, dublagens, publicidade e permitir novas formas de produção.
Mas existe uma diferença enorme entre usar IA como ferramenta de produção e entregar bibliotecas inteiras de propriedade intelectual para empresas de tecnologia.
Hollywood precisa decidir até onde pretende abrir essa porta.
Porque personagens, atores, roteiristas e universos cinematográficos não são simplesmente dados.
São ativos culturais construídos durante décadas.
E esse talvez seja o ponto mais importante dessa nova disputa.
Durante alguns anos, parecia que Hollywood precisava desesperadamente das empresas de inteligência artificial para acompanhar a próxima revolução tecnológica.
Agora começa a aparecer o outro lado da equação:
as empresas de IA também precisam desesperadamente de artistas, personagens, histórias e cultura.
Modelos conseguem gerar bilhões de imagens.
Criar algo que bilhões de pessoas realmente se importem em assistir continua sendo outro problema.
E talvez seja justamente aí que Hollywood ainda tenha a carta mais valiosa na mão.
Fontes: The Verge, Los Angeles Times, Google DeepMind, Runway e Pew Research Center.