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Carly Rae Jepsen lança “On Wires” e anuncia álbum duplo Day and Night
Carly Rae Jepsen está de volta — e em dose dupla. A cantora canadense lançou “On Wires”, primeiro single de seu próximo álbum, Day and Night, projeto de 24 faixas que chega às plataformas em 18 de setembro pela Interscope Records.
A música inaugura uma nova fase para Jepsen, que vem construindo uma das trajetórias mais consistentes do pop contemporâneo desde que deixou de ser lembrada apenas pelo fenômeno “Call Me Maybe”. Em “On Wires”, ela volta ao território em que se move melhor: o desejo romântico tratado como urgência, indecisão e catarse pop.
A faixa tem uma energia pop-rock, com refrão direto e aquela assinatura emocional que transformou Carly Rae Jepsen em artista de culto para fãs de música pop. O verso central da canção gira em torno da vontade de ultrapassar a fronteira da amizade, mas sem perder o tom leve, dançante e luminoso que marca boa parte de sua obra.
O clipe, dirigido por Caio Vieira, também ganhou um significado inesperado. Segundo a própria Jepsen, a ideia inicial era filmar uma perseguição romântica pelas ruas de Nova York. Mas, quando chegou a hora da gravação, ela estava grávida de seis meses — e a proposta precisou mudar.
A solução visual encontrada foi transformar o cabo do microfone em personagem. No vídeo, Carly aparece em uma espécie de cabo de guerra simbólico com o fio, imagem que passou a representar a tensão entre vida pessoal, maternidade, carreira e performance. O que poderia ser apenas um clipe de sedução pop virou uma metáfora sobre tentar abrir espaço para si mesma no meio da máquina da música.
Day and Night será dividido em duas metades de 12 músicas. O lado “Day” deve trazer influências de pop psicodélico dos anos 1970 e instrumentação mais orgânica. Já o lado “Night” promete mirar a pista, com sonoridade mais sintética, noturna e dançante.
O álbum será o primeiro grande projeto de inéditas de Carly Rae Jepsen desde The Loveliest Time, lançado em 2023 como complemento de The Loneliest Time, de 2022. A nova fase também chega depois de um período pessoal importante para a artista, que se casou com o produtor Cole M.G.N. e deu à luz seu primeiro filho em março de 2026.
A ambição de Day and Night parece dialogar com uma tendência recente do pop: discos mais conceituais, longos e divididos em atmosferas emocionais. No caso de Carly, a proposta combina bem com sua persona artística. Ela sempre foi uma compositora interessada nos instantes de suspensão — a paixão antes de virar relação, a festa antes do amanhecer, a dúvida antes da confissão.
“On Wires” funciona justamente nesse intervalo. É uma canção sobre estar pendurada no desejo, presa entre o impulso e a espera. E, ao transformar esse estado emocional em imagem física, com o cabo do microfone puxando a cantora de um lado para o outro, Carly Rae Jepsen encontra uma boa síntese para sua nova era: um pop que continua brilhante, mas agora atravessado por vida adulta, maternidade e escolhas reais.
Com 24 músicas prometidas, Day and Night chega como um dos lançamentos pop mais aguardados do segundo semestre. E “On Wires” indica que Carly Rae Jepsen segue fazendo aquilo que poucos artistas pop fazem tão bem: transformar pequenas hesitações amorosas em grandes momentos de euforia.
Fonte: PitchFork
Videoclipe
Navy Blue transforma “Sir Render” em fábula medieval de papelão e autoconhecimento
O rapper, produtor e artista visual Navy Blue lançou o videoclipe de “Sir Render”, faixa-título de seu novo álbum, lançado no início de junho. Dirigido por Ahab Mullick, o vídeo aposta em uma linguagem simples, teatral e profundamente simbólica: um menino encontra uma armadura feita de caixas de papelão e parte em uma pequena jornada épica por castelos também construídos com papelão, espadas improvisadas e cenários que parecem nascer mais da imaginação do que da matéria.
A imagem é delicada, mas não é ingênua. Em vez de transformar a infância em nostalgia fácil, o clipe usa o universo do faz de conta para falar de medo, identidade e sobrevivência emocional. O menino-cavaleiro atravessa a cena como se estivesse enfrentando não apenas um castelo, mas as próprias sombras. É uma metáfora direta para o coração de “Sir Render”: a tentativa de olhar para versões passadas de si mesmo, entender as cicatrizes e seguir adiante sem negar a dor.
A escolha do teatro como espaço visual também é importante. No vídeo, há uma plateia pequena, quase solitária, que inicialmente não percebe o espetáculo acontecendo atrás da cortina. Quando Navy Blue abre o pano vermelho, a jornada escondida se revela. A cena funciona como uma imagem bonita para a própria obra do artista: um rap íntimo, cheio de camadas psicológicas, que transforma vulnerabilidade em linguagem.
“Sir Render” dá nome ao álbum mais recente de Navy Blue, também conhecido como Sage Elsesser. O disco aprofunda temas que atravessam sua discografia recente: trauma, luto, espiritualidade, masculinidade sensível, memória e reconstrução. Em vez de tratar a armadura como símbolo de força bruta, Navy Blue parece interessado no momento em que o guerreiro descobre que precisa tirá-la. A batalha, aqui, não é conquistar o mundo; é aprender a existir dentro dele sem ser destruído por aquilo que se carrega.
O álbum conta com participações de Earl Sweatshirt, Armand Hammer, Mike Shabb e Ka, este último em uma contribuição póstuma. A produção reúne nomes como The Alchemist, Jason Wool, Shungu, Mike Shabb e o próprio Navy Blue. Há também a presença narrativa de James Earl Jones, primo de Elsesser, cuja voz adiciona uma dimensão quase mitológica ao projeto.
Dentro da trilogia recente do artista, “Sir Render” funciona como uma espécie de peça anterior a “Memoirs in Armour” e “The Sword & the Soaring”. É como se Navy Blue voltasse ao começo do mito para entender de onde veio a armadura, antes de perguntar o que significa carregá-la. O novo clipe, com seu cavaleiro infantil e seus castelos frágeis, traduz essa ideia com precisão: por trás de toda fantasia heroica, existe uma criança tentando sobreviver aos próprios medos.
No contexto do rap contemporâneo, Navy Blue segue em uma chave rara: menos interessado no espetáculo da vitória do que na arqueologia íntima da queda, da cura e da permanência. “Sir Render” é pequeno em escala visual, mas grande em intenção. Um videoclipe artesanal, quase de escola ou de teatro comunitário, que encontra justamente nessa simplicidade a sua força cinematográfica.
Para um momento em que boa parte da música visual aposta no excesso, Navy Blue faz o caminho inverso. Com papelão, cortina, palco e silêncio, ele cria uma imagem poderosa sobre transformação: a coragem talvez não esteja em vencer o castelo, mas em olhar para ele de frente.
Fonte: PitchFork
Videoclipe
Charli XCX pisca para o caos pop em “Wink Wink”, novo capítulo de Music, Fashion, Film
Charli XCX voltou a apertar aquele botão vermelho que só ela parece saber onde fica. Em “Wink Wink”, seu novo single, a cantora britânica transforma sensualidade, deboche e autoconsciência pop em mais uma peça do quebra-cabeça de Music, Fashion, Film, álbum previsto para 24 de julho pela Atlantic.
A música chega acompanhada de um clipe dirigido por Aidan Zamiri, colaborador frequente de Charli e um dos nomes responsáveis por traduzir visualmente essa fase em que a artista parece menos interessada em “lançar singles” e mais empenhada em criar um ecossistema: música, roupa, corpo, gesto, cinema, meme, rumor e performance.
Na superfície, “Wink Wink” é uma piscadela safada. Mas, como costuma acontecer com Charli, a brincadeira carrega uma camada de estratégia. A letra flerta com a ideia de redenção pop — a cantora insiste que não é mais uma “bad girl” — enquanto o vídeo faz exatamente o oposto: encena a travessura, exagera a provocação e trata o desejo como linguagem visual.
É Charli brincando com a própria personagem pública. Depois do fenômeno Brat, ela poderia seguir pelo caminho mais seguro: repetir a fórmula, congelar o verde-limão, transformar a estética em franquia. Em vez disso, parece preferir o risco de confundir o público de novo. “Wink Wink” não abandona a pista, mas também não mora exatamente nela. A faixa aparece mais inclinada a guitarras, sintetizadores ásperos e uma pulsação pop-rock de meio-tempo, sem perder a inteligência de pista que acompanha Charli desde seus melhores momentos.
O single sucede “Rock Music” e “SS26”, outras duas faixas já lançadas de Music, Fashion, Film. A primeira gerou conversa justamente por sugerir uma guinada para o rock, algo que Charli fez questão de relativizar. A artista tem dito que não pensa gênero musical de forma binária e que o novo disco não deve ser lido como uma conversão literal ao rock, mas como mais uma mutação dentro de sua linguagem.
Essa é talvez a chave para entender a nova era: Charli XCX não está tentando “trocar de estilo”. Está tentando escapar da obrigação de ser uma coisa só.
A própria capa de Music, Fashion, Film reforça esse gesto conceitual. Fotografada em preto e branco por Aidan Zamiri, ela reúne três figuras que funcionam quase como totens culturais: John Cale, do Velvet Underground, o estilista Marc Jacobs e o cineasta Martin Scorsese. Não é só uma capa estrelada. É uma declaração de método. Charli quer que o disco seja lido como cruzamento entre som, imagem, moda, pose e mitologia pop.
Nesse sentido, “Wink Wink” funciona como um trailer. O clipe coloca a cantora em ambientes cotidianos — campo, casa, sofá, quintal, tarefas domésticas — e vai contaminando tudo com erotismo, ironia e descontrole coreografado. O banal vira cena. A pose vira narrativa. A cantora vira atriz de si mesma.
É uma continuação lógica do pós-Brat, mas não uma cópia. Se Brat foi o colapso verde-limão da cultura clubber, “Wink Wink” parece apontar para um pop mais encenado, mais físico e mais cinematográfico. Menos pista de dança, mais set de filmagem. Menos catarse coletiva, mais close-up.
E é aí que Charli continua interessante: ela entende que, em 2026, música pop não é só canção. É contexto, figurino, timing, feed, videoclipe, bastidor, comentário, estética e ruído. “Wink Wink” chega com apenas uma piscadela de aviso e já ocupa esse espaço híbrido entre lançamento musical e performance de personagem.
O resultado é um single que não tenta pedir licença. Charli XCX parece se divertir justamente no intervalo entre prometer bom comportamento e sabotar a promessa diante da câmera. Ela diz que mudou. O clipe pisca de volta e responde: mudou nada.
Fonte: PitchFork
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Aos 65, Boy George lança versão de Karma Chameleon com inteligência artificial
Aos 65 anos, Boy George decidiu revisitar um dos maiores fantasmas — e tesouros — de sua carreira: Karma Chameleon, o megahit lançado pelo Culture Club em 1983. Mas a nova versão da música não é apenas mais uma regravação nostálgica para alimentar playlists retrô. É também uma aposta direta no uso de inteligência artificial como ferramenta de controle artístico, licenciamento e preservação de legado.
A faixa foi relançada em uma versão assistida por IA, com novos vocais gravados em estúdio pelo próprio Boy George. A tecnologia, segundo os envolvidos no projeto, foi usada para aproximar a interpretação atual da sonoridade que o cantor tinha quando registrou a música originalmente, aos 22 anos. A proposta não é apresentar uma voz falsa no lugar do artista, mas usar modelos de áudio para restaurar timbre, textura e nuances de uma performance que continua sendo dele.
A iniciativa marca também a estreia da Artist Included, empresa de música e tecnologia que se apresenta como uma plataforma voltada para artistas, com foco em regravações éticas, consentimento e propriedade criativa. O projeto tem como cofundadores Paul “PK” Kemsley e Jeremy Rosen, e nasce com uma tese bastante clara: se a inteligência artificial já entrou na indústria musical, a pergunta central passa a ser quem se beneficia dela — plataformas, catálogos, marcas ou os próprios artistas.
No caso de Boy George, a motivação é especialmente simbólica. Karma Chameleon não é uma música qualquer. O single chegou ao topo das paradas no Reino Unido e nos Estados Unidos, tornou-se um dos maiores sucessos globais dos anos 1980 e ajudou a fixar o Culture Club como uma das bandas mais reconhecíveis daquela década. Ao mesmo tempo, como acontece com muitos hits gigantescos, a canção passou a existir quase como uma entidade própria, muitas vezes maior que seus criadores.
É aí que a IA entra como ferramenta estratégica. Boy George já havia declarado que não tinha pleno poder de decisão sobre todos os usos comerciais da música e que a nova versão poderia lhe devolver algum grau de escolha sobre onde e como Karma Chameleon aparece. Em tempos de sincronização em filmes, séries, publicidade, games e redes sociais, uma regravação competitiva pode significar mais que vaidade artística: pode significar participação econômica, controle de imagem e poder de negociação.
A nova versão também se insere em uma discussão maior sobre o futuro dos catálogos musicais. Nos últimos anos, a indústria viu artistas relançando obras para recuperar controle sobre masters, enquanto ferramentas de IA passaram a simular vozes, separar faixas, restaurar gravações antigas e recriar performances. A diferença, neste caso, está na tentativa de vender o processo como “IA com consentimento”: o artista participa, aprova e permanece no centro da criação.
A tecnologia usada no projeto foi fornecida pela Syntiant, que descreve sua atuação como apoio à separação, restauração e aprimoramento de áudio. A empresa afirma que a base da gravação continua sendo uma nova performance vocal de Boy George, com a IA atuando no acabamento e na aproximação estética com a gravação clássica.
Essa distinção é importante. A música feita por IA ainda provoca resistência, sobretudo quando envolve imitação de vozes sem autorização, uso opaco de bases de treinamento e diluição de autoria. Mas o caso de Boy George aponta para outro caminho possível: usar IA não para substituir o artista, mas para negociar com o passado, atualizar ativos culturais e reabrir disputas antigas sobre propriedade intelectual.
O resultado é menos uma simples reedição de Karma Chameleon e mais um experimento público sobre o que artistas veteranos podem fazer com seus próprios arquivos, vozes e mitologias. Para alguns, será apenas mais uma versão de um clássico pop. Para outros, pode ser um ensaio de um novo modelo de regravação: autorizado, tecnológico e financeiramente orientado.
Quarenta anos depois de dominar as paradas, Karma Chameleon volta ao mercado com uma pergunta incômoda para a indústria: se a IA vai mexer no passado da música, quem terá o direito de apertar o botão?
Fonte: People
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