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Cultura Pop

Stan Lee volta como ativo de IA em marketplace da ElevenLabs

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O legado de Stan Lee acaba de ganhar uma nova camada — e ela é sintética. A ElevenLabs anunciou a inclusão da voz e da imagem do lendário roteirista e editor da Marvel em seu Iconic Marketplace, plataforma que permite licenciar versões geradas por inteligência artificial de figuras famosas para projetos comerciais.

Morto em 2018, aos 95 anos, Lee passa a integrar um catálogo que já reúne nomes como Judy Garland, Michael Caine, David Hasselhoff, Maya Angelou, Laurence Olivier e J. Robert Oppenheimer. A proposta da empresa é oferecer um caminho “licenciado” para o uso de vozes e personas célebres, conectando marcas, produtoras e criadores aos detentores dos direitos de imagem e propriedade intelectual.

No caso de Stan Lee, o acordo foi feito com a Stan Lee Universe, entidade ligada à gestão de seu legado. A justificativa pública é a de preservar a relação do autor com os fãs, ampliando para a era da IA o hábito de Lee de aparecer em cameos, convenções e conteúdos ligados ao universo dos quadrinhos.

A ElevenLabs divulgou um vídeo promocional narrado por uma versão sintética da voz de Lee. A peça invoca o tom épico associado ao criador e faz referência ao imaginário da Marvel, incluindo a célebre ideia de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, além do bordão “Excelsior!”.

A recriação também será usada em audiobooks. A empresa prepara um clube do livro mensal com narração em voz sintética de Stan Lee, começando por A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Além disso, a plataforma sugere que fãs e criadores poderão solicitar usos autorizados para “cameos” digitais e conteúdos inspirados no estilo do autor.

O movimento reforça uma tendência em aceleração: transformar voz, imagem e performance em ativos digitais negociáveis. A ElevenLabs afirma que seu marketplace opera com aprovação dos titulares de direitos, funcionando como uma alternativa regulada ao uso não autorizado de clones vocais. Ainda assim, a iniciativa reacende uma pergunta inevitável: até que ponto uma pessoa morta pode consentir com novas falas, novos contextos e novas aparições?

Esse dilema não é exclusivo de Stan Lee. O mercado de vozes sintéticas já reúne artistas vivos que aceitaram licenciar sua voz, como Michael Caine, e figuras históricas ou celebridades falecidas cujos direitos são administrados por herdeiros, fundações ou empresas. A diferença é sensível: quando o artista está vivo, há consentimento direto; quando não está, a decisão passa a ser de quem herdou ou controla juridicamente seu legado.

Para defensores da tecnologia, trata-se de uma forma de preservar memórias culturais, criar experiências imersivas e abrir novos formatos narrativos. Para críticos, é mais um passo na transformação de pessoas em propriedades pós-morte, com o risco de distorcer intenções, estilo e contexto histórico.

Stan Lee sempre foi um símbolo da cultura pop justamente por aparecer entre suas criações. Agora, sua presença deixa de depender de arquivos, entrevistas ou cenas antigas. Com IA generativa, ela pode ser recriada, licenciada e adaptada a novos produtos.

A pergunta que fica não é apenas se a tecnologia consegue fazer isso. Ela consegue. A questão é quem deve decidir quando uma voz continua falando depois que seu dono já não pode mais responder.

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Cultura Pop

IA ressuscita Molière e cria peça inédita no estilo do século XVII

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E se Molière não tivesse morrido em 1673? E se uma nova peça dele surgisse hoje?

Foi exatamente essa provocação que deu origem a um dos projetos mais ousados da interseção entre arte e inteligência artificial: a criação de uma peça inédita no estilo do dramaturgo francês — escrita com ajuda de IA.

O resultado é “L’Astrologue ou les Faux Présages” (“O Astrólogo ou os Falsos Presságios”), uma comédia que mistura tecnologia de ponta com rigor acadêmico e tradição teatral.


Um Molière “gerado por máquina” (mas guiado por humanos)

O projeto, batizado de “Molière Ex Machina”, foi desenvolvido ao longo de quase três anos por pesquisadores da Sorbonne University, artistas do coletivo Obvious e especialistas em literatura clássica.

A inteligência artificial foi treinada com textos originais de Molière e obras contemporâneas, aprendendo seu estilo, ritmo e temas recorrentes — como a sátira à credulidade humana, aqui aplicada ao universo da astrologia.

Mas não pense que foi só apertar um botão.

O processo foi um verdadeiro “pingue-pongue criativo”:

  • humanos escreviam prompts
  • a IA gerava versões
  • especialistas revisavam
  • e tudo era refeito — dezenas de vezes por cena

Cada trecho chegou a ter cerca de 20 versões diferentes.


A história: amor, fraude e… astrologia

A trama segue Géronte, um burguês ingênuo manipulado por um falso astrólogo que tenta arranjar o casamento de sua filha com um velho endividado.

Só que, claro — bem no espírito de Molière — há:

  • amante rebelde
  • servo esperto
  • e uma sequência de situações farsescas desmontando a fraude

Uma crítica direta à crença cega — tema clássico do autor, atualizado via IA.


IA também criou figurino, cenário… e até errou feio

A inteligência artificial não parou no roteiro.

Ela também participou de:

  • criação de figurinos
  • concepção de cenários
  • referências visuais do século XVII

Com direito a bugs criativos: em um momento, a IA sugeriu roupas cobertas de sapos — confundindo um termo técnico da moda da época com o animal literal.

Apesar disso, o resultado final dependeu fortemente de artesãos humanos, que produziram tudo manualmente para manter fidelidade histórica.


Limites da IA: música ainda precisa de humanos

Se texto e imagem avançaram, a música ainda mostrou limites.

A equipe precisou recorrer a musicólogos para compor trilhas compatíveis com o período, já que a IA teve dificuldade com a escassez de dados históricos nessa área.


Estreia em Versailles (com turnê global no radar)

A peça estreia em maio de 2026 na Ópera Real de Versailles — um palco carregado de simbolismo, já que Molière teve apoio da corte de Luís XIV.

Depois, a produção deve circular pela França e potencialmente pelo circuito internacional.


IA não substitui artistas — amplifica

Talvez o ponto mais interessante do projeto não seja o resultado final, mas o processo.

A conclusão dos criadores é clara:
a IA não substitui o artista — ela funciona como ferramenta de experimentação, remix e expansão criativa.

No fundo, como o próprio Molière já fazia:
reaproveitar, recombinar e reinventar histórias existentes.

Só que agora… com um copiloto algorítmico.

Fonte: Le Monde

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