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Tecnologia & IA

Kling no topo, Sora fora de cena: a nova guerra do cinema IA

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Há uma cena acontecendo agora no porão luminoso da inteligência artificial: não é exatamente cinema, não é exatamente videoclipe, não é publicidade, não é televisão. É tudo isso passando junto num projetor febril, como se Glauber Rocha tivesse encontrado um servidor cheio de GPUs, Rogério Sganzerla tivesse ganhado uma arena de benchmarks e os Mutantes resolvessem ensaiar dentro de uma timeline de edição.

A página “Best AI for Video Generation in 2026”, publicada pela LLM Stats, chega como um daqueles cartazes de festival que reorganizam a conversa. O site ranqueia os principais modelos de geração de vídeo por IA a partir de votos humanos cegos: pessoas assistem aos vídeos sem saber qual modelo os criou e escolhem os melhores. Nesse baile mascarado dos algoritmos, a grife não entra no palco. O que vale é o plano, o movimento, a física, a permanência dos objetos, a capacidade de não transformar mão em polvo, cadeira em fumaça, rosto em carnaval involuntário.

No topo, segundo a LLM Stats, está o Kling v3, da Kuaishou. O dado chama atenção porque desloca o eixo simbólico da disputa. Durante muito tempo, a conversa pública sobre vídeo por IA foi dominada por nomes ocidentais: Sora, da OpenAI; Veo, do Google; Runway, a startup mais associada ao imaginário profissional de criação audiovisual; Luma, Pika e outros satélites dessa constelação. Mas o ranking aponta outra batida: a China não está apenas correndo atrás. Está puxando o refrão.

A vitória do Kling, no enquadramento da LLM Stats, parece menos um prêmio de beleza e mais um prêmio de corpo. O modelo é destacado por sua física de movimento, pela continuidade dos objetos e pelo custo competitivo. Em vídeo gerado por IA, isso é decisivo. A imagem parada já foi domesticada. O retrato bonito, o pôster fake, a capa de disco inexistente, tudo isso virou feira livre. O problema agora é o tempo. O problema é fazer o personagem atravessar a sala sem derreter. Fazer a câmera girar sem rasgar a anatomia. Fazer uma onda bater sem parecer gelatina sem memória. Fazer o cinema deixar de ser ilustração e começar a respirar.

É aí que a página da LLM Stats entra como termômetro de uma mudança maior. O ranking não mede apenas “qual ferramenta é melhor”. Ele mede uma virada cultural: a geração de vídeo por IA saiu da fase do truque e entrou na fase da linguagem. Antes, a pergunta era: “consegue gerar?”. Agora é: “consegue dirigir?”.

A arena como cineclube selvagem

O método usado pela LLM Stats segue a lógica das arenas de avaliação: prompts são enviados a diferentes modelos, os vídeos são exibidos sem identificação, e os usuários votam. É um cineclube selvagem, sem ficha técnica, sem tapete vermelho, sem assessoria de imprensa cochichando no ouvido. A obra aparece nua. A marca some. O modelo que sobrevive é aquele que convence no olho.

Esse tipo de avaliação tem seus limites. Voto humano não é verdade divina. Pode privilegiar brilho, realismo fácil, impacto imediato. Pode confundir “parece caro” com “é melhor”. Pode premiar estética de trailer, clipe de luxo, publicidade de perfume, enquanto ignora sutilezas narrativas. Mas, para uma tecnologia que pretende fabricar imagens em movimento para humanos, a preferência humana importa. Cinema também sempre viveu disso: sala escura, respiração coletiva, aplauso, vaia, silêncio.

O curioso é que rankings diferentes contam histórias diferentes. Em outros placares especializados, como os da Artificial Analysis, Seedance 2.0, HappyHorse, Kling e outros modelos aparecem alternando posições conforme o recorte: com áudio, sem áudio, texto-para-vídeo, imagem-para-vídeo, preço, velocidade, qualidade percebida. É como comparar escolas de samba: uma ganha bateria, outra ganha comissão de frente, outra leva enredo, outra perde no recuo. O campeão depende da avenida.

A LLM Stats, ao colocar Kling v3 na liderança geral, enfatiza uma combinação de realismo, movimento e custo. A Artificial Analysis, por sua vez, mostra como Seedance 2.0 e HappyHorse também ocupam o centro da disputa. O resultado não é uma tabela pacificada, mas uma cena em ebulição. O ranking é menos sentença e mais fotografia de um incêndio.

O fantasma de Sora e a saída pela esquerda

O nome ausente ou deslocado nessa nova conversa é Sora. Quando a OpenAI apresentou o Sora original, em 2024, a impressão foi de choque. A promessa era quase ontológica: não apenas gerar vídeo, mas simular mundo. Depois veio Sora 2, com som, diálogo, física mais robusta e ambição de aplicativo social. Era a IA tentando virar TikTok, estúdio, brinquedo e espelho ao mesmo tempo.

Mas a trajetória pública do produto Sora virou também uma parábola sobre custo, risco e controle. A OpenAI informa que o produto Sora deixou de estar disponível em abril de 2026. A imagem que fica é de um astro que entrou cedo demais no palco, provocou histeria, abriu caminho, mas deixou o show antes do bis. O modelo pode continuar como tecnologia, mas o produto social, aquele teatro de avatares, cameos e remixes, saiu de cena.

Isso tem peso simbólico. Porque Sora era mais do que ferramenta: era narrativa. Era a promessa de que a OpenAI repetiria no vídeo o que fez no texto com o ChatGPT. Mas vídeo é outra fera. Texto custa pouco, viaja leve. Vídeo pesa. Vídeo queima computação. Vídeo encosta em rosto, corpo, voz, celebridade, direito autoral, deepfake, cinema, televisão, sindicato, estúdio, medo. Cada segundo sintético traz junto uma mala de advogados.

A saída do produto Sora, portanto, não significa derrota técnica. Significa que o vídeo por IA é um território mais inflamável do que o chat. O algoritmo pode até aprender a filmar; o mundo ainda não aprendeu a conviver com o que ele filma.

Seedance, Hollywood e o pânico de quem viu o futuro no feed

Se Kling é o campeão do ranking da LLM Stats, Seedance 2.0 é o personagem que entrou chutando a porta da cultura pop. A ByteDance, dona do TikTok, apresentou um modelo capaz de trabalhar com texto, imagens, vídeo e áudio, criando clipes curtos com som sincronizado e controle multimodal. A repercussão especializada foi imediata porque Seedance toca num nervo que Hollywood conhece bem: a semelhança.

O caso que circulou como sinal de alerta foi um vídeo sintético com Tom Cruise e Brad Pitt em uma cena de luta. A reação de figuras da indústria não foi apenas curiosidade técnica. Foi pânico profissional. A frase “acabou para nós”, dita em tom de assombro por um roteirista de Hollywood, resume o impacto: se uma pessoa com duas linhas de prompt consegue fabricar algo que parece caro, reconhecível e viral, qual é o chão do cinema industrial?

Essa pergunta não deve ser respondida com histeria, mas também não pode ser tratada como frescura de artista. O cinema é trabalho coletivo. É eletricista, câmera, maquiadora, montador, roteirista, ator, compositor, figurinista, continuísta, técnico de som, produtora de elenco. Quando a IA promete condensar esse batalhão num prompt, ela não está apenas lançando uma ferramenta. Está redesenhando relações de trabalho e autoria.

Ao mesmo tempo, há o outro lado: o da invenção pobre, brasileira, gambiarreira, independente. Para quem nunca teve orçamento, diária, autorização, caminhão de luz, travelling, grua ou finalização de luxo, esses modelos soam como uma câmera Super-8 caindo do céu — só que com alucinações, custo variável e termos de uso escritos por corporações. A promessa é sedutora: fazer um clipe, um trailer, uma cena, uma vinheta, um curta-manifesto. O perigo é confundir ferramenta com emancipação. A câmera digital barateou o cinema, mas não aboliu o mercado. A IA pode baratear a imagem, mas não garante liberdade.

Veo e Runway: o cinema como controle

Enquanto Kling e Seedance avançam com força, Google e Runway disputam outro campo: o controle criativo. O Veo 3.1, nas atualizações recentes, aposta em consistência, vídeo vertical, integração com plataformas do Google, referências visuais e upscaling. É o modelo pensado para circular entre Gemini, YouTube Shorts, Flow, API, Vertex AI e Google Vids. Não é apenas uma câmera: é uma infraestrutura.

A Runway, por sua vez, continua tentando ocupar o lugar de suíte profissional. Seu Gen-4.5 é apresentado como avanço em fidelidade visual, aderência a prompts, física, controle e consistência temporal. A empresa fala com o mercado audiovisual como quem diz: “não somos brinquedo, somos set de filmagem”. A mídia especializada reconhece os avanços, mas também registra as limitações: objeto que perde permanência, causalidade que tropeça, efeito que vem antes da causa. A IA já sabe fazer um plano bonito; ainda se atrapalha para entender por que uma porta só abre depois que alguém gira a maçaneta.

Essa é a fronteira real. O futuro do vídeo por IA não será decidido apenas por resolução, textura de pele ou brilho de lente anamórfica. Será decidido por causalidade. Por continuidade. Por direção de atores sintéticos. Por montagem. Por som. Por saber quando a câmera deve parar.

A estética do videoclipe infinito

O ranking da LLM Stats também revela um deslocamento estético. Os modelos estão ficando bons em gerar imagens com cara de publicidade premium, trailer de ficção científica, fashion film, clipe de artista internacional, vinheta de festival. A IA ama néon, chuva, câmera lenta, cidade molhada, rosto dramático, criança olhando para o céu, astronauta melancólico, mulher de cabelo ao vento, robô com alma, ruína bonita. Ela aprendeu o inconsciente visual do streaming.

É por isso que o tom musical é inevitável. A geração de vídeo por IA se parece muito com a história do sampler. Quando o sampler entrou na música, houve pânico: roubo, cópia, fim dos músicos, fim da autoria. Depois veio hip-hop, eletrônica, funk, colagem, remix, novas gramáticas. Mas também vieram processos, cercamentos, bibliotecas licenciadas, indústria reorganizada. O vídeo por IA está nesse momento: entre o baile e o tribunal.

A diferença é que o sampler musical pegava pedaços identificáveis de gravações. Os modelos de vídeo absorvem padrões estatísticos de imensos acervos audiovisuais, muitos deles protegidos, muitos deles arrancados da internet sem negociação clara. A disputa autoral será mais opaca, mais difícil e talvez mais violenta. Não se trata apenas de “copiar um trecho”; trata-se de reproduzir estilos, corpos, gestos, mundos.

E o Brasil nessa história?

Para o audiovisual brasileiro, a pergunta é urgente. O Brasil sempre fez cinema contra a escassez. Cinema Novo, Boca do Lixo, vídeo popular, clipe independente, documentário de guerrilha, produtora de quebrada, canal de YouTube, TikTok de periferia, funk ostentação, sertanejo universitário, tecnobrega, manguebeat, rap, piseiro, trap, brega funk — todos são, de algum modo, tecnologias sociais de produção com pouco recurso e muita linguagem.

A IA de vídeo pode entrar nessa linhagem como ferramenta de invenção. Pode ajudar artista independente a criar teaser, videoclipe, visualizer, animação, cenário impossível, projeção de show, material de campanha, narrativa experimental. Pode permitir que um coletivo faça uma ficção científica sertaneja anarquista sem esperar edital, sem pedir bênção para emissora, sem vender a alma para agência.

Mas também pode reforçar dependências: plataformas estrangeiras, cobrança por créditos, censura algorítmica, bloqueios de conteúdo, modelos treinados com referências que não entendem Brasil profundo, corpos brasileiros tratados como exotismo, periferia convertida em estética genérica. A questão não é usar ou não usar. A questão é disputar a linguagem.

O cinema brasileiro sempre soube que técnica não é neutra. Uma câmera na mão pode ser revolução ou vigilância. Um drone pode ser poesia ou polícia. Um algoritmo pode ser instrumento popular ou máquina de pasteurização. Depende de quem opera, de quem paga, de quem controla, de quem lucra e de quem aparece na imagem.

O ranking como parada musical

No fim, a página da LLM Stats funciona como parada musical de uma cena que muda toda semana. Hoje Kling v3 lidera. Amanhã pode ser Seedance, Veo, Runway, HappyHorse, Wan, LTX, algum modelo aberto saído de laboratório chinês, israelense, americano ou de uma garagem com GPUs alugadas. O ranking importa, mas o mais importante é a tendência: o vídeo por IA deixou de ser curiosidade e virou linguagem competitiva.

A pergunta “qual é o melhor modelo?” talvez seja pequena demais. A pergunta maior é: que tipo de imagem esses modelos estão ensinando o mundo a desejar? Uma imagem rápida, lisa, cara, obediente, infinita? Ou uma imagem estranha, política, errada, brasileira, ruidosa, inventiva?

Kling pode estar no topo da tabela. Seedance pode assustar Hollywood. Veo pode virar infraestrutura do YouTube. Runway pode se vender como estúdio portátil. Sora pode ter deixado a cena como produto, mas permanece como fantasma fundador. No meio disso tudo, criadores olham para a tela como músicos diante do primeiro sintetizador barato: alguns vão fazer jingles, outros vão fazer ruído, outros vão inventar um gênero.

O cinema sintético ainda está em seu primeiro ato. A câmera acendeu. O algoritmo pediu silêncio. Mas, como no melhor cinema brasileiro, a plateia não vai obedecer quieta.

A Redação MVAI reúne jornalistas, pesquisadores e criadores especializados em inteligência artificial, música, cultura digital e inovação. Nossos conteúdos são produzidos com apuração, fontes confiáveis, revisão editorial e atualização constante.

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Música

Universal e Sony pressionam DistroKid por dados de músicas criadas com IA

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Universal e Sony pressionam DistroKid por dados de músicas criadas com IA

Gravadoras negociam com distribuidora acesso a informações sobre faixas geradas por inteligência artificial, incluindo músicas feitas com Suno, reproduções e royalties.

A Universal Music Group e a Sony Music Entertainment estão negociando com a DistroKid uma solução para a disputa judicial envolvendo dados de músicas criadas com inteligência artificial (IA).

Segundo o Music Business Worldwide, as empresas informaram à Justiça dos Estados Unidos que trabalham para resolver o impasse. O acordo, porém, ainda não foi anunciado.

O objetivo das gravadoras é obter informações que possam ser utilizadas no processo por direitos autorais contra a Suno, plataforma de geração musical por IA.

Quais dados Universal e Sony querem?

As gravadoras pedem que a DistroKid apresente informações sobre:

  • Quantas músicas distribuídas foram identificadas como possivelmente geradas por IA.
  • Quantas dessas faixas podem ter sido criadas com a Suno.
  • Quantas reproduções e quanto em royalties essas músicas acumularam.
  • Qual tecnologia a distribuidora utiliza para detectar conteúdos gerados por IA.

Os dados ajudariam a dimensionar a presença comercial da música sintética nas plataformas de streaming.

Por que a Suno está na Justiça?

A disputa começou em junho de 2024, quando grandes gravadoras acusaram a Suno de utilizar gravações protegidas por direitos autorais no treinamento de seus modelos de inteligência artificial sem autorização.

A Suno defende que esse treinamento pode ser protegido pela doutrina americana de fair use (uso justo).

Universal e Sony, por outro lado, argumentam que a música gerada por IA pode competir diretamente com gravações tradicionais e afetar suas receitas.

A Warner Music, que também participava do processo original, fechou um acordo com a Suno em novembro de 2025.

Qual é a situação da DistroKid?

A DistroKid não é ré no processo original contra a Suno, mas passou a ser alvo de uma solicitação judicial para apresentar dados.

Além disso, enfrenta uma ação separada movida pela Universal em setembro de 2026, envolvendo acusações de violação de direitos autorais. A distribuidora contesta as alegações.

Reportagem do The Verge também mostrou que músicas de artistas independentes foram removidas das plataformas após reclamações da Universal, incluindo faixas que seus criadores afirmam não ter sido geradas por IA.

O próximo prazo judicial é 6 de novembro de 2026, data estabelecida para a DistroKid responder ao pedido de apresentação de documentos caso a disputa não seja resolvida antes.

O que está em jogo para o futuro da música?

O caso coloca uma questão importante para a indústria musical: como identificar, licenciar e remunerar músicas produzidas com inteligência artificial?

Para artistas independentes, o desfecho pode influenciar as regras de distribuição, transparência e proteção dos direitos autorais.

A discussão não envolve apenas a tecnologia utilizada para criar uma música, mas também quem controla sua circulação e como o dinheiro gerado pelo streaming será distribuído.

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Cinema

IA contra Hollywood: Grok divulga sua versão de “A Odisseia”

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Projeto produzido com Grok Imagine tem direção de Dev Walker e surge após Elon Musk prometer um longa-metragem baseado no clássico de Homero.

A Grok Imagine, ferramenta de geração de imagens e vídeos por inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, divulgou na sexta-feira (23) os primeiros sete minutos de sua adaptação de A Odisseia, poema épico atribuído ao grego Homero.

Apresentado como o primeiro episódio de uma série, o vídeo foi desenvolvido em colaboração com a Wonder Studios e o diretor Dev Walker, demonstrando como ferramentas generativas já estão sendo utilizadas em produções audiovisuais narrativas.

Em julho, Musk havia prometido produzir até o final de 2026 um longa-metragem baseado na obra, que classificou como uma adaptação historicamente fiel. Por enquanto, o projeto apresentado tem pouco mais de sete minutos, sem calendário divulgado para novos episódios.

IA versus cinema tradicional

O lançamento também acontece em meio às críticas de Musk à adaptação cinematográfica de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan, que estreou em julho e conquistou grande sucesso de bilheteria.

Enquanto Nolan apostou em uma produção de grande escala, com filmagens em diferentes países e uso extensivo de efeitos práticos, a versão do Grok explora a geração de imagens por inteligência artificial.

A recepção inicial foi dividida. O TechCrunch elogiou o realismo visual de algumas cenas, mas criticou a falta de emoção, a rigidez dos diálogos e a fragilidade da narrativa.

Apesar das limitações, o experimento reforça uma transformação no audiovisual: a possibilidade de criar sequências cinematográficas complexas com ferramentas generativas, mantendo profissionais humanos envolvidos na direção e na criação.

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Tecnologia & IA

Anthology quer colocar infraestrutura de major nas mãos dos independentes

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Anthology

A inteligência artificial está entrando em uma nova área da indústria musical: os bastidores.

A britânica Absolute Label Services abriu ao mercado independente o Anthology, plataforma que a empresa define como um “Music Operating System”, ou sistema operacional para negócios de música. A ideia é reunir distribuição, direitos, dados, marketing e finanças em um único ambiente, usando IA para automatizar parte do trabalho operacional.

IA para administrar — não para criar música

O ponto mais interessante do projeto é justamente onde a inteligência artificial está sendo aplicada.

Em vez de gerar músicas ou substituir artistas, o Anthology utiliza IA para monitorar dados, identificar anomalias, encontrar possíveis problemas de royalties e detectar oportunidades comerciais.

Segundo Simon Wills, co-diretor da Absolute e responsável pelo projeto, a empresa decidiu concentrar a tecnologia nas tarefas em que a IA pode auxiliar profissionais, e não substituir a razão pela qual a indústria musical existe: a própria música.

No centro do sistema está o Ant, um modelo de IA especializado na indústria musical. Apresentado originalmente em 2025, ele funciona como uma espécie de copiloto empresarial integrado à plataforma. A Absolute afirma que o sistema foi desenvolvido a partir de sua experiência acumulada no setor e que os clientes mantêm controle sobre seus próprios dados.

Tudo em um único sistema

O Anthology reúne ferramentas que normalmente ficam espalhadas por diferentes serviços:

distribuição digital e física, administração de catálogos, direitos conexos, marketing, relatórios financeiros, estoque, fornecedores, faturamento e análise de desempenho.

A fragmentação é um problema real para selos independentes. Matt Bristow, da Cherry Red Records, contou que a empresa já precisou repetir dados de um único lançamento em até 15 plataformas diferentes. Com dezenas de lançamentos por mês, a centralização pode eliminar muitas horas de trabalho administrativo.

Além da Cherry Red, a Blue Raincoat Music, ligada à Reservoir Media, está entre os primeiros clientes anunciados. O sistema também é utilizado por empresas atendidas pela Absolute, como Wise Music Group e The Fuel Music and Management.

Infraestrutura pode ser a próxima democratização da música

A tese da Absolute é simples.

A distribuição digital reduziu uma enorme vantagem estrutural das grandes gravadoras: hoje um artista ou selo independente consegue disponibilizar sua música globalmente sem possuir uma rede física internacional.

Mas distribuir deixou de ser o único problema.

Administrar royalties, dados, direitos, marketing, estoque, plataformas digitais e milhares de informações continua exigindo uma infraestrutura que normalmente favorece organizações maiores.

O Anthology tenta atacar justamente essa diferença.

Se funcionar como prometido, a IA pode assumir parte do trabalho repetitivo dos bastidores enquanto profissionais dedicam mais tempo às decisões estratégicas, aos artistas e à criação.

É uma discussão importante para além do debate sobre “IA fazendo música”.

A próxima transformação da inteligência artificial na indústria talvez não aconteça apenas dentro do estúdio.

Pode acontecer nas planilhas, nos royalties, nos contratos, nos catálogos e em toda a infraestrutura invisível que mantém a música circulando.

Fontes principais: Music Business Worldwide, Absolute Label Services e Record of the Day. A Absolute descreve oficialmente o Anthology como uma plataforma que integra distribuição, direitos, analytics e ferramentas promocionais, enquanto a cobertura da MBW detalha o papel do modelo Ant e a estratégia de levar a infraestrutura a empresas independentes.

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