Música
A IA pode fazer pelo videoclipe o que o home studio fez pela música
Assim como o computador doméstico permitiu que músicos gravassem fora dos grandes estúdios, a inteligência artificial pode permitir que artistas independentes criem videoclipes, visualizers e universos visuais sem depender de orçamentos milionários.
Durante décadas, fazer música ficou mais barato. Fazer imagem, não.
Um artista independente podia gravar uma faixa no quarto, produzir beats no notebook, mixar em casa, distribuir no streaming e divulgar nas redes sociais. Mas, quando chegava a hora de transformar aquela música em videoclipe, a conversa mudava: câmera, equipe, locação, direção de arte, fotografia, figurino, edição, cor, pós-produção, transporte, alimentação, diária, equipamento.
O home studio democratizou a gravação musical. A inteligência artificial pode democratizar a linguagem visual da música.
Não porque a IA “faz tudo sozinha”. Esse é o erro. A IA importa quando entra como ferramenta de direção, prototipagem, criação de mundos, visualizers, cenários, efeitos, narrativas e experimentação estética. Em outras palavras: a IA pode virar o home studio do videoclipe.
A velha barreira: clipe sempre foi caro
O videoclipe nasceu como uma das linguagens mais livres da cultura pop, mas também como uma das mais caras.
Nos anos 1980 e 1990, quando a MTV ajudou a transformar clipes em uma linguagem global, a produção audiovisual ainda dependia de infraestrutura pesada. Grandes artistas tinham acesso a diretores, produtoras, câmeras, estúdios, coreografias, cenários e pós-produção. Artistas pequenos, em geral, não.
Mesmo depois da internet, do YouTube e das câmeras digitais, a barreira continuou existindo. Ficou mais fácil filmar, mas não necessariamente ficou fácil criar um universo visual consistente. Um bom videoclipe ainda exige direção, conceito, tempo, equipe e dinheiro.
Enquanto isso, a música passou por uma transformação radical. O computador pessoal, os softwares de gravação, os plugins, o MIDI e as DAWs permitiram que músicos gravassem, editassem e mixassem em casa. O home studio abriu caminho para cenas inteiras nascerem fora da indústria tradicional, dos quartos aos pequenos estúdios de bairro.
Agora, a pergunta é inevitável: se o computador doméstico descentralizou a produção musical, a IA pode descentralizar a produção audiovisual da música?
A resposta curta: pode. Mas só se for usada com autoria humana.
O que a IA muda na prática
A IA generativa de vídeo muda o jogo porque reduz a distância entre ideia e imagem.
Antes, um músico independente podia imaginar um clipe em Marte, uma cidade cyberpunk, um romance subaquático, uma perseguição em animação ou um show dentro de um sonho. Mas imaginar era barato. Produzir era caro.
Com ferramentas de IA, esse artista pode começar a transformar referências, letras, emoções e conceitos em imagens. Pode criar um visualizer para uma faixa. Pode testar cenas. Pode gerar frames de direção de arte. Pode experimentar personagens, paletas, texturas, mundos, movimentos de câmera e atmosferas antes de gastar dinheiro com produção tradicional.
O impacto prático aparece em várias frentes:
Um artista pode lançar mais conteúdo visual, em vez de depender de um único clipe caro por ano.
Uma banda pode criar uma identidade estética para um EP inteiro, com capas, teasers, visualizers, lyric videos e vídeos curtos conectados.
Um produtor pode transformar uma música instrumental em uma narrativa visual.
Um rapper independente pode criar um clipe com estética cinematográfica mesmo sem gravar em uma grande locação.
Uma cantora de periferia pode desenvolver um universo visual próprio sem esperar aprovação de gravadora, edital ou agência.
Guias recentes sobre IA para músicos independentes já tratam visualizers, vídeos curtos e geradores de vídeo como parte do novo kit de divulgação musical para TikTok, Instagram e YouTube.
Isso não elimina o videoclipe tradicional. Não elimina filmagem real. Não elimina diretor, fotógrafo, editor, figurinista, motion designer ou artista 3D. Mas amplia a caixa de ferramentas.
A questão deixa de ser: “tenho dinheiro para fazer um clipe?”
E passa a ser: “que linguagem visual eu consigo construir para essa música?”
A diferença entre automação e direção autoral
Aqui está o ponto central: existe uma diferença enorme entre apertar um botão e dirigir uma obra.
Automação é pedir para uma ferramenta gerar imagens genéricas com base em uma música.
Direção autoral é outra coisa.
Direção autoral envolve conceito, escolha estética, narrativa, ritmo, montagem, coerência, intenção e revisão. Envolve decidir o que a música quer dizer visualmente. Envolve saber quando usar IA, quando usar imagem real, quando usar arquivo, quando usar animação, quando usar glitch, quando usar colagem, quando deixar o vídeo respirar.
A IA não substitui a direção. Ela aumenta a capacidade de direção de quem antes não tinha recursos.
Esse é o paralelo com o home studio. O computador não transformou automaticamente qualquer pessoa em grande produtor musical. Ele deu acesso às ferramentas. Quem tinha repertório, escuta, obsessão, linguagem e disciplina conseguiu construir algo novo.
Com vídeo, a lógica é parecida.
A IA pode gerar imagens, mas não cria sozinha uma visão artística consistente. Quem cria a obra é quem seleciona, recusa, edita, combina, reinterpreta e dá sentido.
Por isso, o debate mais importante não é “IA sim ou IA não”. É: quem está dirigindo?
O risco: spam visual, cópia de estilos e apagamento de profissionais
A defesa da IA como ferramenta democrática não pode ignorar seus riscos.
O primeiro risco é o spam visual. A internet já está sendo inundada por vídeos gerados em massa, feitos para capturar atenção rápida, sem linguagem, sem contexto e sem compromisso artístico. O fenômeno tem sido descrito como “AI slop”: conteúdo artificial de baixa qualidade, produzido em escala para ocupar feeds, gerar cliques e explorar algoritmos.
O segundo risco é a cópia de estilos. A IA pode facilitar a imitação de artistas visuais, diretores, animadores, fotógrafos e movimentos estéticos sem crédito, licença ou diálogo. Esse problema aparece tanto no audiovisual quanto na música, especialmente quando modelos são treinados com obras protegidas ou quando usuários tentam reproduzir a identidade de criadores vivos. O U.S. Copyright Office reconhece que o treinamento de modelos com obras protegidas é uma das questões centrais do debate atual sobre IA e direitos autorais.
O terceiro risco é o apagamento de profissionais. Se produtoras, gravadoras e marcas tratarem a IA apenas como substituição barata de equipes, o resultado pode ser precarização. O problema não é a ferramenta. O problema é o modelo de uso.
O quarto risco é a falsa autoria. Já existem casos de projetos musicais criados com IA que geraram controvérsia por parecerem bandas ou artistas reais sem transparência suficiente. Também há preocupação crescente com vozes, rostos, identidades e estilos usados sem autorização.
Por isso, qualquer defesa séria da IA na música precisa incluir limites.
Não basta dizer que a tecnologia democratiza. É preciso perguntar: democratiza para quem? Com quais dados? Com quais créditos? Com qual transparência? Com qual proteção para artistas humanos?
A oportunidade: músicos independentes com linguagem audiovisual própria
Mesmo com todos os riscos, a oportunidade é grande demais para ser ignorada.
A história da música mostra que novas ferramentas baratas não acabam com a arte. Muitas vezes, elas criam novas cenas.
O punk não esperou virtuosismo técnico para existir. O hip hop nasceu da apropriação criativa de toca-discos, samples, colagens e tecnologias disponíveis. A música eletrônica cresceu com drum machines, sintetizadores, samplers e softwares. O funk, o trap, o bedroom pop e várias cenas independentes se fortaleceram quando a produção musical saiu dos grandes estúdios e foi para casas, quartos, pequenos setups e computadores acessíveis.
A IA pode provocar algo parecido na imagem.
Imagine artistas que antes lançavam apenas uma capa estática agora criando universos visuais completos para cada single. Imagine cenas locais criando estéticas próprias: tecnobrega sci-fi, rap amazônico futurista, hyperpop periférico, indie nordestino em animação surreal, metal experimental com visualizers cósmicos, samba eletrônico com colagens de arquivo e futuro.
A grande revolução não é apenas fazer “clipe barato”. É permitir que mais artistas pensem visualmente.
O videoclipe sempre foi mais do que publicidade de música. Ele é território de linguagem. É onde som, corpo, moda, cinema, performance, design, dança, tecnologia e cultura jovem se encontram.
Quando mais artistas podem criar imagem, mais mundos aparecem.
O princípio MVAI: IA com autoria humana
O princípio MVAI é simples: IA com autoria humana.
Isso significa defender o uso de inteligência artificial como ferramenta, não como substituto integral da criação. A IA pode gerar cenas, testar ideias, acelerar processos, baratear produção e abrir caminhos. Mas a obra precisa ter direção humana, intenção humana e responsabilidade humana.
Esse princípio se aproxima do entendimento atual do U.S. Copyright Office, que afirma que obras com material gerado por IA podem ser protegidas quando há contribuição criativa humana suficiente. A orientação também diferencia obras em que a IA funciona como instrumento de assistência daquelas em que os elementos expressivos foram concebidos e executados pela máquina.
Para o MVAI, isso significa:
A música precisa ter artista, contexto e intenção.
O videoclipe precisa ter direção, conceito e curadoria.
A IA precisa ser usada de forma transparente.
Referências devem inspirar, não virar cópia preguiçosa.
Profissionais do audiovisual devem ser incorporados ao processo sempre que possível.
A tecnologia deve ampliar acesso, não apagar pessoas.
A pergunta não é se um clipe usou IA. A pergunta é se existe autoria por trás dele.
IA não é atalho para falta de repertório
Existe uma ilusão comum: achar que a IA resolve a falta de ideia.
Não resolve.
Ela pode até gerar imagens bonitas. Mas imagens bonitas não bastam. Um videoclipe precisa de ritmo, atmosfera, coerência e relação com a música. Precisa entender a letra, o gênero, o público, o artista, a cena e o momento cultural.
Sem repertório, a IA tende ao genérico: neon cyberpunk, astronauta triste, cidade futurista, mulher flutuando, olhos brilhando, explosões cósmicas, glitch sem sentido.
Com repertório, ela pode virar linguagem.
A diferença está no olhar humano. Está na escolha de uma estética. Está na capacidade de dizer “isso serve” e “isso não serve”. Está na montagem. Está na recusa. Está na assinatura.
Foi assim também com o home studio. O acesso ao software não eliminou a necessidade de saber produzir. Apenas permitiu que mais gente aprendesse fazendo.
A IA pode fazer o mesmo pelo videoclipe: transformar tentativa, erro e experimentação em processo acessível.
O futuro: clipe como território de experimentação popular
O futuro do videoclipe talvez não seja apenas o retorno dos grandes clipes de orçamento milionário. Talvez seja também a multiplicação de pequenos mundos visuais.
Clipes feitos por artistas independentes.
Visualizers de EPs inteiros.
Videoclipes híbridos com filmagem real e IA.
Narrativas criadas a partir de letras.
Personagens virtuais com autoria declarada.
Cenas locais criando estéticas próprias.
Fãs colaborando com artistas.
Comunidades transformando músicas em universos visuais.
Festivais e plataformas já começam a reconhecer obras audiovisuais feitas com IA como parte da nova cultura visual. O AI Film Festival da Runway, por exemplo, reúne filmes criados com ferramentas emergentes de IA e se apresenta como uma celebração de artistas que experimentam novas técnicas de cinema.
Mas o futuro mais interessante não está apenas nos festivais. Está na borda. Está no artista que nunca teria dinheiro para filmar um clipe e agora pode construir uma visão. Está na banda que não tinha acesso a uma produtora e agora pode experimentar. Está no beatmaker que cria um mundo visual para cada faixa. Está no cantor independente que entende que imagem também é linguagem musical.
O videoclipe nasceu como laboratório da cultura pop. Com IA, ele pode virar laboratório popular.
O videoclipe depois da IA
A IA não será a salvação automática da música independente. Também não será o fim do audiovisual humano.
Ela será uma disputa.
De um lado, existe o risco de excesso, cópia, precarização e conteúdo descartável.
Do outro, existe a chance de uma geração inteira de artistas criar imagens sem pedir permissão.
O home studio não acabou com os grandes estúdios. Ele mudou a geografia da produção musical. Permitiu que mais gente gravasse, errasse, aprendesse, lançasse e encontrasse público.
A IA pode fazer algo parecido com o videoclipe.
Não para substituir a autoria humana.
Mas para devolver ao artista independente uma pergunta que antes parecia reservada a quem tinha orçamento:
que mundo visual a sua música merece?
Envie seu projeto para o MVAI
O MVAI quer conhecer artistas, bandas, produtores e criadores independentes que estejam explorando novas formas de unir música, imagem e inteligência artificial.
Se você tem uma música, um EP, um visualizer, um videoclipe feito com IA, um projeto em desenvolvimento ou uma ideia de universo visual para sua obra, envie para o MVAI.
A nova fase do videoclipe não precisa nascer apenas nos grandes estúdios.
Ela pode nascer no quarto, no notebook, na quebrada, no fórum, na comunidade, no prompt, na câmera do celular, na ilha de edição caseira e na cabeça de quem ainda acredita que música também é imagem.
MVAI — inteligência artificial com autoria humana.
Música
Universal, Sony e Warner propõem regras para músicas com IA nos rankings
Universal, Sony, Warner e selos independentes propõem novas regras para definir quando uma música criada com inteligência artificial poderá aparecer nos rankings oficiais.
As maiores gravadoras do mundo querem estabelecer uma fronteira entre a música produzida com auxílio da inteligência artificial e as gravações criadas quase inteiramente por máquinas.
Universal Music Group, Sony Music e Warner Music Group se uniram a empresas como BMG, Concord, Believe, HYBE, Glassnote e Mom+Pop para apresentar princípios globais de elegibilidade para músicas desenvolvidas com IA generativa.
Pela proposta, uma gravação que utilize inteligência artificial somente poderia aparecer nas paradas oficiais se fosse “substancialmente criada por humanos”. O sistema utilizado também precisaria ser legal, autorizado e treinado com materiais devidamente licenciados.
IA não está proibida
A proposta não representa uma proibição completa da inteligência artificial na música.
Ferramentas generativas poderiam continuar sendo utilizadas na composição, na produção e na criação de elementos sonoros. O ponto central seria preservar uma participação humana reconhecível no processo artístico.
O problema é que a expressão “substancialmente criada por humanos” ainda não possui uma definição objetiva. Não está claro, por exemplo, quanto de uma voz, instrumento, arranjo ou produção poderia ser gerado antes de uma faixa deixar de ser considerada uma criação humana.
Também não há, por enquanto, confirmação de que organizações como Billboard ou Official Charts adotarão as regras sugeridas pelas gravadoras. Trata-se de uma proposta apresentada à indústria, não de uma norma mundial já em vigor.
Música gerada ou assistida por IA?
O movimento complementa outro projeto anunciado por organizações como IFPI, RIAA, Grammy Awards, SAG-AFTRA e associações de gravadoras independentes.
O sistema propõe dois tipos de identificação:
AI-Generated: quando a IA produziu a totalidade ou a parte principal dos elementos criativos, como a voz principal, os instrumentos centrais ou toda a música a partir de comandos.
AI-Assisted: quando a obra foi criada principalmente por pessoas, mas utilizou IA generativa em determinados elementos.
Pelas regras sugeridas para os rankings, gravações classificadas como totalmente geradas por IA não seriam elegíveis. Já as músicas assistidas por IA poderiam participar, desde que cumprissem as exigências de autoria, licenciamento, transparência e legalidade.
O problema dos streams artificiais
A preocupação das gravadoras não está apenas na autoria.
As novas regras também procuram combater músicas produzidas em grande escala para manipular plataformas, gerar reproduções automáticas e retirar dinheiro do sistema de royalties.
Em julho de 2026, a Deezer informou que recebia aproximadamente 90 mil músicas geradas por IA por dia, o equivalente a mais da metade dos novos arquivos enviados à plataforma. Apesar do volume, esse conteúdo representa entre 1% e 3% das reproduções da empresa. Segundo a Deezer, até 85% dos streams registrados em faixas totalmente geradas por IA podem ser fraudulentos e são retirados do cálculo de royalties.
Uma pesquisa encomendada pela plataforma também mostrou que 80% dos entrevistados defendem a identificação das músicas totalmente geradas por IA. Outros 52% acreditam que essas gravações não deveriam disputar as mesmas paradas das músicas feitas por artistas humanos.
O verdadeiro debate
A discussão já não é simplesmente aceitar ou rejeitar a inteligência artificial.
As próprias grandes gravadoras estão fechando acordos com empresas de IA que utilizam catálogos licenciados. Universal, Sony e Warner, por exemplo, assinaram contratos com a plataforma KLAY, que afirma treinar seu modelo musical exclusivamente com obras autorizadas.
A disputa real envolve autoria, consentimento, licenciamento e transparência.
A IA já faz parte do processo criativo. O desafio será separar a tecnologia usada como instrumento artístico das fábricas automatizadas de conteúdo criadas para ocupar catálogos, manipular rankings e capturar royalties.
A pergunta que a indústria precisará responder agora é mais complexa: onde termina a ferramenta e começa a substituição do artista?
Fontes principais: The Verge, Sony Music, IFPI, RIAA, Deezer e Music Business Worldwide.
Música
Nasi peitou o medo da inteligência artificial — e fez história com “Perigoso”
Em “nAsI – Artificial Intelligence”, o vocalista do Ira! entregou suas próprias canções à transformação algorítmica, atravessou o samba, o trap, a cumbia e o boogaloo e conquistou o maior público de seu canal com um videoclipe político sobre imigração
Nasi poderia ter escondido a inteligência artificial nos créditos. Poderia ter chamado o processo de experimentação digital, programação musical ou pós-produção avançada. Poderia, sobretudo, ter usado a tecnologia silenciosamente, evitando a reação de uma classe artística que ainda discute direitos autorais, substituição de músicos e os limites éticos das plataformas generativas.
Ele fez o contrário.
Colocou a expressão “Artificial Intelligence” no título do trabalho, estampou uma versão cibernética de si próprio na comunicação visual e declarou, antes mesmo do lançamento, que sabia que receberia críticas. “Alguns vão jogar pedras, mas não estou nem aí”, afirmou ao apresentar o projeto.
Mais do que uma provocação, a frase define o espírito de “nAsI – Artificial Intelligence”, trabalho solo de seis faixas lançado em 24 de abril de 2026 pela Ditto Music. Em vez do rock e do blues normalmente associados à sua carreira, Nasi mergulhou em ritmos latino-americanos e caribenhos, utilizando ferramentas de IA para desmontar e reconstruir músicas de seu próprio catálogo.
O resultado ultrapassou o terreno da curiosidade tecnológica. O videoclipe de “Perigoso” chegou à casa de 1 milhão de visualizações, tornando-se, com enorme distância, o maior sucesso do canal oficial do cantor no YouTube.
A última medição pública indexada antes da virada apontava 997.696 reproduções. No mesmo momento, “Polvo en los Ojos” aparecia com cerca de 132 mil, “Alma Nocturna” com 92 mil e “Ogun” com 37 mil. “Perigoso”, portanto, alcançou mais de sete vezes a audiência do segundo videoclipe mais visto do projeto — uma escala inédita para o canal solo do vocalista do Ira!.
Não é apenas um número. É a confirmação de que o público não rejeitou automaticamente a experiência. Ao contrário: foi justamente a obra mais explicitamente atravessada pela estética, pela narrativa e pela controvérsia da IA que encontrou a maior audiência.
A máquina não compôs a história de Nasi
Existe uma distinção importante. “Artificial Intelligence” não é um álbum de músicas compostas do zero por uma máquina, nem utiliza uma imitação artificial da voz de Nasi.
As seis composições já existiam. Pertencem ao repertório solo do cantor e foram escolhidas por ele para sofrer transformações de gênero, harmonia, arranjo, instrumentação e atmosfera. A voz principal continua sendo a de Nasi, gravada em estúdio. A IA entra como ferramenta de reorganização e geração instrumental, trabalhando a partir de decisões, referências e sucessivas seleções humanas.
O processo começou na colaboração com Augusto Junior, músico ligado ao projeto Fake Music. Segundo Nasi, os primeiros testes eram mais limitados, mas a evolução dos programas permitiu alterar não apenas o acompanhamento, como também estruturas harmônicas e melódicas. As versões geradas eram avaliadas, descartadas ou refinadas até que o artista encontrasse uma direção que pudesse assumir como sua.
A ficha técnica revela um trabalho híbrido. Nasi assina a produção; Augusto Junior aparece como programador de IA e responsável pelas artes de capa e singles; Jeff Berg cuidou da engenharia das gravações, mixagem e masterização. Nanda Moura divide os vocais de “Alma Nocturna”; Johnny Boy participa dos vocais de apoio em “Perigoso”; Jonas Moncaio toca violoncelo em “Feitiço na Rua 23”; e Bruno Belasco grava trompete em “Perigoso”.
É justamente aí que o álbum ganha relevância histórica. Nasi não apresentou a inteligência artificial como substituta absoluta do músico. Criou um laboratório no qual repertório humano, voz real, instrumentistas, programação e produção algorítmica ocupam a mesma gravação.
“Foi uma brincadeira que ficou séria”, resumiu o cantor. Embora tenha dito que o projeto não define obrigatoriamente o futuro de sua carreira, Nasi afirmou não ter dúvidas de que o futuro da música passará pela interação entre o humano e o artificial.
Os seis videoclipes de “Artificial Intelligence”
O projeto não termina no áudio. As seis faixas receberam presença audiovisual no canal oficial de Nasi, formando uma espécie de álbum visual no qual a transformação musical encontra diferentes linguagens de animação, colagem, cinema de gênero e imagens geradas ou trabalhadas com inteligência artificial.
“Corpo Fechado”: o rock entra na roda de samba
Lançada originalmente no álbum “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”, de 2006, “Corpo Fechado” possuía uma base de blues e soul ligada à tradição da gravadora Stax. Para o novo projeto, Nasi direcionou a IA a produzir um samba de partido-alto inspirado em nomes como Martinho da Vila, João Nogueira, Agepê e Noriel Vilela.
O primeiro resultado, segundo o cantor, parecia um pagode genérico. Foi descartado. Somente depois que ele passou a fornecer referências mais específicas surgiu a versão definitiva. Essa sequência mostra que a máquina não trouxe uma solução autônoma e perfeita: foi necessário repertório cultural para que Nasi soubesse explicar o que buscava — e discernimento artístico para rejeitar o que não funcionava.
Lançado em 23 de janeiro, quando Nasi completou 64 anos, o single abriu oficialmente o projeto. A arte associada à faixa apresentou uma versão rejuvenescida do cantor na Lapa, aproximando memória musical, cultura popular carioca e fabricação digital. O videoclipe acumulava aproximadamente 8,8 mil visualizações na última medição indexada.
“Feitiço na Rua 23”: trap encontra o cinema de terror
“Feitiço na Rua 23” veio do álbum “Perigoso”, lançado em 2011. Na gravação original, a canção carregava elementos de rockabilly e surf music, além de uma narrativa sombria sobre uma mulher que teria sido afastada do protagonista por meio de um feitiço.
Na nova versão, guitarras e clima retrô cedem espaço ao trap. O violoncelo de Jonas Moncaio acrescenta uma camada humana e dramática à instrumentação predominantemente gerada com IA.
O videoclipe transforma a atmosfera da letra em uma colagem bem-humorada de horror clássico. Imagens e referências a “Drácula”, “Nosferatu” e “A Noite dos Mortos-Vivos” são reorganizadas para acompanhar a atualização sonora. A direção de arte e IA foi creditada a Ruy Araujo, da Motim Underground.
É o vídeo de audiência mais modesta do conjunto, com pouco mais de 360 reproduções na captura consultada. A disparidade, no entanto, ajuda a mostrar como os clipes tiveram trajetórias muito diferentes — e como “Perigoso” rompeu completamente a curva normal do canal.
“Perigoso”: um galo chamado Nasi enfrenta Trump
“Perigoso” é o centro simbólico do álbum.
A composição apareceu originalmente como um country-rock gravado com Renato Teixeira. Na versão de 2026, tornou-se um corrido mexicano, gênero narrativo profundamente ligado à cultura popular do México e que, em uma de suas ramificações, originou os chamados narcocorridos.
Nasi percebeu que o formato permitia aproximar a canção do debate sobre imigração e da tensão na fronteira entre México e Estados Unidos. O videoclipe foi construído como uma animação protagonizada por um galo inspirado no próprio cantor, que entra em confronto com um “galo Trump”.
A fábula denuncia a contradição de uma sociedade que depende historicamente do trabalho de imigrantes, mas passa a apoiar sua perseguição e deportação. É política transformada em desenho animado, corrido digital e sátira — sem esconder a posição de seu autor.
Musicalmente, a gravação preserva elementos humanos importantes: Johnny Boy aparece nos vocais de apoio e Bruno Belasco no trompete. Visualmente, o vídeo trabalha com uma linguagem mais imediatamente comunicativa do que os demais, com personagens reconhecíveis, conflito claro e uma narrativa que pode ser compreendida mesmo fora do contexto do álbum.
Essa combinação ajuda a explicar por que “Perigoso” escapou da bolha habitual do canal. O clipe não depende apenas da novidade de ter sido realizado com IA. Ele possui personagem, antagonista, fronteira geográfica, comentário político e humor visual. A tecnologia é o meio; a história continua sendo o motor.
Ao chegar a 1 milhão de visualizações, “Perigoso” não apenas estabeleceu o recorde do canal solo de Nasi. Também demonstrou que um artista veterano pode usar inteligência artificial sem abandonar sua identidade, sua voz ou sua disposição para o confronto.
“Polvo en los Ojos”: Coltrane atravessa o Caribe
“Polvo en los Ojos” retoma “Poeira nos Olhos”, gravada por Nasi e os Irmãos do Blues em 2001. A composição nasceu como uma adaptação autorizada de “Equinox”, de John Coltrane, e reaparece agora cantada em espanhol e revestida por um arranjo afrocubano próximo do universo do Buena Vista Social Club.
Nasi afirmou ter ficado especialmente impressionado com o naipe de metais produzido para a faixa. O resultado lhe pareceu tão preciso que também revelou uma limitação da tecnologia: a perfeição excessiva pode retirar da música as pequenas oscilações, sujeiras e imperfeições responsáveis pela sensação de presença humana.
Essa tensão — fascínio e desconfiança ao mesmo tempo — é um dos melhores argumentos do álbum. Nasi não se comporta como propagandista ingênuo da IA. Ele se permite admirar a capacidade da ferramenta e, simultaneamente, identificar o ponto em que a execução começa a soar artificial demais.
O videoclipe aparecia como o segundo mais assistido do projeto, com aproximadamente 132 mil visualizações, mostrando que a abertura latino-americana do disco encontrou público para além da faixa viral.
“Alma Nocturna”: tango, cumbia e encontro de vozes
“Alma Noturna” foi lançada em 2015 e nasceu de uma parceria de Nasi e Johnny Boy com Kiko Dinucci, responsável pela letra. A versão original se aproximava dos afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
Em “Artificial Intelligence”, a música é traduzida para o espanhol e passa a combinar a dramaticidade do tango com a pulsação dançante da cumbia colombiana. Nanda Moura divide os vocais com Nasi, garantindo que o centro emocional da faixa permaneça diretamente humano.
O videoclipe amplia a dimensão de dueto e de deslocamento cultural presente na gravação. Entre os vídeos do álbum, aparecia com aproximadamente 92 mil visualizações — audiência bastante superior à média histórica do canal antes do novo projeto.
“Ogun”: do blues-rock ao baile porto-riquenho
Gravada originalmente no álbum “Vivo na Cena”, de 2010, “Ogum” era uma composição de blues-rock pesado. Sua nova encarnação, intitulada “Ogun”, troca a massa das guitarras por um boogaloo porto-riquenho, gênero surgido do contato entre ritmos latinos, soul, jazz e rhythm and blues.
O arranjo remete aos momentos mais festivos de Tito Puente e transforma a canção em música de baile. Não se trata de apenas trocar timbres: a nova levada modifica a postura da voz de Nasi, a circulação rítmica e o significado corporal da faixa.
O videoclipe fecha o arco latino do álbum e somava cerca de 37 mil visualizações na medição consultada. É mais um exemplo de como “Artificial Intelligence” permitiu que um cantor identificado há quatro décadas com o rock paulista experimentasse territórios que dificilmente seriam reunidos em um disco convencional.
A repercussão: curiosidade, resistência e cautela
O anúncio do projeto despertou atenção antes mesmo de o álbum ficar pronto. A Folha de S.Paulo apresentou Nasi como o primeiro artista brasileiro de grande reconhecimento a preparar um álbum desse tipo e descreveu sua atitude como a de alguém disposto a “abraçar o monstro” que boa parte da classe musical teme.
A Rolling Stone Brasil adotou uma distinção importante: as músicas não foram criadas pela IA, já que pertenciam previamente ao repertório de Nasi. A tecnologia foi usada para produzir novas versões e reorganizar o material existente. Essa formulação evita tanto o exagero promocional quanto a falsa ideia de que o cantor apenas apertou um botão e aceitou o primeiro resultado.
Band, Novabrasil, Kiss FM, R7, Blog n’Roll, Sonoridade Underground e outros veículos destacaram a passagem do rock para gêneros como samba, trap, corrido, cumbia, tango e boogaloo. A cobertura foi majoritariamente curiosa e descritiva: reconheceu o caráter experimental, explicou o processo híbrido e reproduziu a defesa de Nasi de que a IA deveria funcionar como ferramenta de interação, não como destino único da música.
A repercussão internacional, porém, ainda não possui a mesma dimensão da cobertura brasileira. O peso histórico do projeto está, por enquanto, menos em uma consagração crítica global e mais na posição ocupada por Nasi: a de um artista popular, com uma carreira consolidada desde a explosão do rock brasileiro, assumindo publicamente uma tecnologia que muitos de seus contemporâneos preferem combater ou ignorar.
Nasi e Timbaland: pioneiros, mas com uma ressalva histórica
Colocar Nasi ao lado de Timbaland é uma comparação pertinente — desde que se explique o recorte.
Em 2025, Timbaland lançou a empresa Stage Zero e apresentou TaTa, uma artista virtual construída com ferramentas de inteligência artificial. O produtor, que também se tornou consultor da plataforma Suno, passou a defender uma nova categoria chamada por ele de “A-Pop”. Sua proposta não é apenas usar IA nos arranjos, mas desenvolver personagens, propriedade intelectual e sistemas inteiros de produção musical artificial.
Nasi segue pelo caminho oposto e complementar. Em vez de fabricar uma artista virtual, parte de uma autoria inequivocamente humana: sua voz, suas composições, sua biografia, sua interpretação e seu posicionamento político. A IA é convocada para fazer o repertório atravessar fronteiras estilísticas que talvez fossem inviáveis em uma produção convencional.
Nesse sentido específico — artistas veteranos, consagrados pela indústria tradicional e dispostos a colocar a IA generativa no centro público de um novo projeto — Nasi e Timbaland realmente formam uma dupla rara.
Mas não seria historicamente correto afirmar que foram os únicos pioneiros mundiais. Em 2018, Taryn Southern lançou “I AM AI”, álbum pop composto com auxílio de sistemas como Amper Music, IBM Watson Beat, NSynth e AIVA. Em 2019, Holly Herndon lançou “PROTO”, trabalhando com Spawn, uma inteligência artificial treinada em sessões com vozes humanas.
A formulação mais forte e defensável é outra: Nasi está entre os primeiros grandes nomes da música popular brasileira e entre os raros veteranos do rock mundial a assumir frontalmente a inteligência artificial generativa como eixo de um álbum e de sua identidade audiovisual. No cenário internacional da música mainstream contemporânea, Timbaland é seu paralelo mais evidente.
Nasi não pediu desculpas por experimentar
O aspecto mais radical de “Artificial Intelligence” talvez não esteja nos instrumentos artificiais, nas animações ou nas traduções para o espanhol.
Está na ausência de pedido de desculpas.
Nasi não apresentou o álbum como uma demonstração tecnológica neutra. Também não fingiu que a ferramenta não levantava problemas. Reconheceu que a perfeição pode desumanizar uma gravação, defendeu a participação de músicos e afirmou que o caminho ideal seria a colaboração entre IA, instrumentistas e arranjadores.
Ao mesmo tempo, recusou o medo como política criativa.
O vocalista do Ira! entregou à máquina canções que já haviam sobrevivido ao blues, ao rock, aos palcos e ao tempo. Depois, escolheu o que permanecia, gravou novamente sua voz e transformou os resultados em uma obra assinada. Não permitiu que a inteligência artificial falasse por ele; obrigou a tecnologia a entrar em seu universo.
“Perigoso” chegar a 1 milhão de visualizações é a consequência mais visível dessa coragem. Um clipe produzido fora da estrutura das grandes gravadoras, publicado em um canal de pouco mais de mil inscritos e protagonizado por uma animação política atravessou a barreira que nenhum outro vídeo solo de Nasi havia alcançado.
Pode-se gostar ou não do resultado. Pode-se questionar a qualidade de determinadas gerações, a procedência dos bancos de treinamento e o impacto econômico dessas ferramentas. São debates necessários.
O que já não pode ser negado é que Nasi esteve lá.
Enquanto boa parte da música brasileira discutia se deveria abrir a porta, ele entrou, observou o monstro de perto, colocou-o para tocar samba, trap, corrido mexicano, cumbia e boogaloo — e saiu do outro lado com o maior videoclipe de seu canal.
Nasi peitou o medo. E, com “Artificial Intelligence”, escreveu um dos primeiros capítulos realmente populares da música generativa brasileira.
Música
Rolling Stones usam IA em videoclipe, mas traçam limite para a música
Vocalista dos Rolling Stones afirma que músicos podem utilizar inteligência artificial, desde que apresentem ideias próprias e não tentem reproduzir artistas sem autorização.
Mick Jagger não declarou guerra à inteligência artificial. Apesar de algumas manchetes sugerirem uma rejeição completa à música criada com IA, a posição do vocalista dos Rolling Stones é mais específica: a tecnologia pode ser utilizada, mas não deveria servir apenas para copiar outros artistas.
“Se alguém quiser fazer música com IA, vá em frente. Mas ela precisa ser original”, afirmou Jagger durante uma entrevista de capa concedida à Billboard. Segundo ele, o criador ainda precisa colocar suas próprias ideias, escolhas e pensamentos no trabalho.
O músico se mostrou especialmente contrário à criação de canções que reproduzam artificialmente sua voz, sua interpretação ou o estilo dos Rolling Stones. Jagger classificou como errado o lançamento de músicas capazes de soar exatamente como a banda sem sua participação ou consentimento.
“Há pessoas que usam IA para criar uma música do zero no estilo dos Rolling Stones. Se você fosse realmente uma pessoa criativa, não faria isso”, declarou.
Os Rolling Stones também utilizaram IA
A posição pode parecer contraditória porque os próprios Rolling Stones recorreram à tecnologia no videoclipe de “In the Stars”, faixa do álbum Foreign Tongues. O vídeo empregou deepfake para colocar versões rejuvenescidas dos rostos de Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood sobre músicos reais.
Jagger explicou que as pessoas, os instrumentos e o ambiente filmado eram reais. A alteração digital aconteceu principalmente nos rostos. Keith Richards também sugeriu que efeitos desse tipo podem encontrar um lugar adequado nos videoclipes, embora tenha dito preferir ouvir algo original a uma criação baseada em cópias.
Jagger ainda reconheceu que a IA pode acelerar trabalhos técnicos e tarefas repetitivas dentro do estúdio. Para ele, porém, as músicas ainda precisam ser escritas, interpretadas e conduzidas por pessoas.
A declaração coloca o cantor em uma posição menos radical do que a manchete inicialmente sugere. Jagger não rejeita necessariamente a música feita com inteligência artificial. Ele rejeita a substituição da autoria por imitação.
É uma distinção que começa a ganhar espaço na indústria: não apenas decidir se a IA deve ser utilizada, mas estabelecer consentimento, licenciamento, transparência e participação humana. A própria IFPI afirma defender modelos nos quais a tecnologia seja empregada para apoiar a criatividade, sem substituir artistas ou desrespeitar seus direitos.
Para Mick Jagger, portanto, a fronteira não está entre música humana e música artificial. Está entre usar uma ferramenta para criar algo próprio e usar uma máquina para se apropriar da identidade de outra pessoa.
-
Tecnologia & IA2 semanas atrásSuno vai marcar músicas feitas por IA para combater spam e fraude no streaming
-
Cinema6 dias atrásCully Hill Boys: o filme de IA que escancara a importância da direção humana
-
Tecnologia & IA6 dias atrásSuno Studio 2.0 quer deixar de ser “gerador de música” — e disputar o território das DAWs
-
Tecnologia & IA6 dias atrásDepois da Warner, Suno fecha acordo de licenciamento com a BMG