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Cinema

Nagpur Film Festival vira laboratório de IA e reinventa o cinema de base

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O segundo ato do Nagpur Film Festival abriu como um bom show ao vivo: casa cheia, público quente e uma curadoria que mistura urgência social com experimentação estética. A edição 2026 chegou com força, ocupando salas com 63 filmes — em sua maioria produções locais — e um fio condutor claro: cinema como linguagem de fricção entre tradição e futuro.

Na prática, o lineup funciona como um setlist temático: histórias sobre abuso de drogas, saúde menstrual e direitos políticos entram em cena como faixas densas, diretas, quase documentais. É cinema de base, de território, com cheiro de rua — e com ambição de dialogar com o mundo.

Mas o ponto de virada do festival não está só na tela. Está no backstage tecnológico.

IA entra no palco — e muda o jogo

Um dos momentos mais comentados da abertura foi o workshop sobre inteligência artificial aplicada ao audiovisual, conduzido por fundadores de startups locais. A promessa é disruptiva: reduzir custos de produção em até 80–90% e democratizar o acesso à criação cinematográfica.

Traduzindo para a lógica musical: é como sair de um estúdio milionário para produzir um álbum inteiro num laptop — sem perder escala de impacto.

A provocação é direta: “você não precisa mais de câmera nem de equipe”. A IA entra como instrumento criativo, não só como ferramenta. E já está encurtando distâncias entre ideia e execução — com exemplos de cenas complexas sendo produzidas em poucos dias e com orçamento mínimo.

Mas nem tudo vira algoritmo.

O humano ainda segura o groove

Se a IA resolve a produção, o storytelling ainda é território humano. A edição e o ritmo emocional continuam dependendo de sensibilidade — aquele timing que nenhuma máquina cravou completamente até agora.

Essa tensão — entre automação e autoria — atravessa o festival inteiro. É quase um subgênero invisível da programação.

Narrativa indiana vs. lógica global

Outro destaque foi a fala da roteirista Manisha Korde, que trouxe uma chave interessante: o cinema indiano ainda é profundamente guiado por diálogos e tradição oral, com raízes em épicos como Ramayana e Mahabharata.

Enquanto Hollywood trabalha mais comportamento e subtexto, a Índia ainda aposta no verbo, na palavra dita, na construção narrativa explícita. Uma diferença estética que também explica por que nem sempre esses filmes atravessam o circuito internacional com facilidade.

Festival como síntese de transição

O Nagpur Film Festival 2026 não é só vitrine — é laboratório. Um espaço onde o cinema regional encontra a inteligência artificial, onde tradição narrativa colide com novas ferramentas, e onde o futuro da criação audiovisual começa a ser prototipado em tempo real.

Se o cinema sempre foi indústria + arte, agora ele vira também software.

E isso muda tudo.

Fonte: The Times of India

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Cinema

Um longa em duas semanas: como a IA da ByteDance provocou Cannes

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Bytedance Cannes

Dona do TikTok usa o Seedance 2.0 para mostrar que a produção audiovisual com IA generativa já não se limita a clipes curtos: curtas selecionados no Marché du Film e um longa de 95 minutos reacendem debate sobre custos, autoria e trabalho criativo.

A inteligência artificial generativa deixou de ser apenas uma curiosidade técnica nos bastidores do audiovisual. Em Cannes, ela apareceu como uma nova força econômica, estética e política. A ByteDance, dona do TikTok, colocou seu modelo de vídeo Seedance 2.0 no centro das discussões ao ver produções feitas com sua tecnologia circularem no entorno do festival e no Marché du Film, o mercado de negócios associado ao Festival de Cannes.

Dois curtas criados pela plataforma chinesa Chushou AI, The Golden Tomb Seeker e Series Tower, usando o Seedance 2.0, estiveram entre os 21 trabalhos selecionados de um universo de mais de mil submissões vindas de 120 países para o Marché du Film, segundo relatos do SCMP reproduzidos por veículos especializados.

Mas o projeto que realmente capturou a atenção da indústria foi Hell Grind, um longa de ação e fantasia de 95 minutos produzido pela startup norte-americana Higgsfield AI. O filme não integrou a seleção oficial de Cannes, mas foi exibido em um evento de cinema com IA realizado em paralelo ao festival. De acordo com a Higgsfield, a produção foi concluída por uma equipe de 15 pessoas em cerca de duas semanas, com orçamento inferior a US$ 500 mil — dos quais aproximadamente US$ 400 mil teriam sido gastos em computação.

A comparação com Hollywood é inevitável. Alex Mashrabov, cofundador e CEO da Higgsfield, afirmou que uma produção tradicional de escala semelhante poderia custar algo em torno de US$ 50 milhões, segundo a cobertura do SCMP citada por veículos internacionais.

De clipes de segundos a longas-metragens

Até recentemente, uma das principais limitações dos geradores de vídeo por IA era a curta duração dos resultados. Muitas ferramentas populares produzem sequências de poucos segundos, o que obriga criadores a montar milhares de fragmentos para construir narrativas mais longas. Esse processo costuma gerar inconsistências de rosto, cenário, iluminação, continuidade e movimento.

O caso de Hell Grind sugere que essa barreira começa a ceder. Segundo a TechNode, a produção chamou atenção justamente por tentar demonstrar que a IA generativa pode sustentar uma narrativa longa, com personagens recorrentes, universo visual coerente e estrutura de longa-metragem.

Isso não significa que a IA já resolveu todos os problemas do cinema. Ao contrário: o uso intensivo de prompts, iterações e controle humano continua sendo central. Relatos sobre a produção indicam que cada trecho exigiu instruções detalhadas, ajustes sucessivos e supervisão para manter consistência visual e narrativa.

O que muda é a escala da ambição. A IA deixa de ser apresentada apenas como ferramenta para teasers, anúncios, videoclipes e experimentos visuais. Agora, passa a disputar espaço no território simbólico do cinema narrativo de longa duração.

O argumento da ByteDance: menos execução, mais direção criativa

A ByteDance tenta posicionar o Seedance 2.0 como uma ferramenta para acelerar fluxos de produção e reduzir o peso das tarefas repetitivas. Tan Dai, presidente da unidade de nuvem Volcano Engine, ligada à ByteDance, afirmou que ferramentas de IA podem permitir que criadores se concentrem mais em história, personagens e direção criativa, em vez de ficarem presos à execução técnica.

Essa visão também aparece em declarações de cineastas que tratam a IA como mais uma etapa da evolução tecnológica do cinema. O diretor chinês Jia Zhangke, que lançou um curta com Seedance 2.0 em fevereiro, descreveu a tecnologia como uma ferramenta, não como substituta do diretor.

Esse é o discurso de venda: a IA como câmera, ilha de edição, estúdio virtual e equipe de pós-produção condensados em uma nova camada de software.

Mas o outro lado da discussão é mais espinhoso.

O choque com Hollywood: direitos autorais, imagem e trabalho

O avanço do Seedance 2.0 não ocorreu em terreno neutro. Meses antes de Cannes, a ferramenta já havia provocado reação de Hollywood por permitir a criação de vídeos hiper-realistas envolvendo personagens protegidos por direitos autorais e imagens de atores sem autorização.

A Motion Picture Association criticou a ByteDance por supostas violações de propriedade intelectual, enquanto o sindicato dos atores SAG-AFTRA condenou o uso não autorizado de vozes e imagens de artistas.

No Brasil, a Exame noticiou que a Disney enviou uma carta de “cessar e desistir” à ByteDance após vídeos feitos com o Seedance circularem com personagens como Mickey, Minnie e Homem-Aranha. A empresa chinesa afirmou estar ciente das preocupações e disse trabalhar no reforço de mecanismos para impedir usos não autorizados de imagens e personagens protegidos.

O jornal espanhol El País também destacou a reação da indústria norte-americana após a viralização de um vídeo gerado por IA que simulava uma luta entre Tom Cruise e Brad Pitt, associado ao debate sobre o Seedance 2.0.

A tensão é clara: para startups e plataformas, a IA promete democratizar a produção audiovisual. Para atores, roteiristas, técnicos, estúdios e titulares de direitos, ela também pode representar apropriação indevida, precarização e deslocamento de trabalho.

Cannes como vitrine e campo de batalha

Cannes sempre funcionou como vitrine de prestígio, mercado de negócios e termômetro das obsessões da indústria. Em 2026, a IA generativa apareceu como uma dessas obsessões centrais.

Segundo a Tubefilter, o Seedance 2.0 esteve associado a produções exibidas no entorno do festival e no Marché du Film, enquanto Hell Grind foi promovido como o primeiro longa-metragem totalmente gerado por IA. A recepção artística pode ter sido dividida, mas o impacto industrial foi evidente: o filme serviu menos como obra definitiva e mais como prova de conceito.

A pergunta que fica não é apenas se a IA consegue fazer filmes. Essa resposta, em algum grau, já começou a ser dada. A questão mais importante é quem controla essa produção, com quais dados, sob quais licenças, com que distribuição de renda e com quais garantias para trabalhadores criativos.

A nova economia do audiovisual

Se um longa de fantasia pode ser produzido em duas semanas por uma equipe pequena e com orçamento inferior a US$ 500 mil, a matemática do setor muda. Não necessariamente para substituir Hollywood no topo da cadeia, onde marca, elenco, distribuição e propriedade intelectual seguem decisivos. Mas certamente para pressionar produções independentes, publicidade, conteúdo para plataformas, pré-visualização, storyboards, animação e entretenimento de nicho.

Ainda há uma contradição importante: embora a IA reduza custos de equipe e produção física, ela transfere parte do orçamento para computação. No caso de Hell Grind, a maior fatia do custo teria sido justamente infraestrutura de processamento.

Isso indica que a “democratização” prometida pela IA pode depender menos da câmera e mais do acesso a poder computacional, modelos proprietários e plataformas fechadas. Em outras palavras: o gargalo sai do set de filmagem e vai para a nuvem.

O cinema depois da IA

O movimento da ByteDance em Cannes aponta para uma nova fase da disputa global por IA generativa. Depois de texto, imagem e música, o vídeo longo se torna a nova fronteira. E, nesse campo, a empresa chinesa tenta se posicionar não apenas como dona de uma rede social, mas como fornecedora de infraestrutura criativa para a próxima geração do audiovisual.

Para Hollywood, o recado é incômodo: os custos, prazos e estruturas tradicionais de produção estão sendo questionados por plataformas que operam com lógica de software, escala e automação.

Para criadores independentes, a promessa é sedutora: fazer com poucos recursos aquilo que antes exigia estúdios, equipes numerosas e milhões de dólares.

Para o público, resta uma pergunta cada vez mais difícil: quando um filme emociona, importa saber se ele foi feito por câmeras, atores e cenários reais — ou por uma pilha de prompts, modelos e servidores?

A resposta talvez não esteja apenas na tecnologia, mas nas regras que a sociedade decidir criar para ela.

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Cinema

IA em Cannes: diretores migram do pânico para a curiosidade — e o debate racha o festival

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Cannes e a IA

Durante muito tempo, a inteligência artificial foi tratada em Hollywood como uma ameaça quase existencial: uma máquina pronta para substituir roteiristas, atores, técnicos, montadores, artistas visuais e, no limite, a própria ideia de autoria. Em Cannes, porém, esse debate começa a mudar de temperatura. O medo não desapareceu, mas já divide espaço com uma pergunta mais prática: como usar a IA sem entregar a ela o comando da criação?

A mudança de tom foi percebida em diferentes conversas na Croisette. A reportagem do The Hollywood Reporter descreve um grupo crescente de cineastas defendendo que a tecnologia deve servir ao artista, não substituí-lo. A mesma leitura aparece em cobertura do TheWrap, segundo a qual a IA deixou de ser vista apenas como ameaça por parte dos profissionais do cinema e passou a despertar curiosidade sobre seu uso para tornar produções mais viáveis economicamente.

O ponto central é menos “cinema feito por IA” e mais “cinema feito com IA”. Essa diferença, aparentemente sutil, é decisiva. Para muitos realizadores, a tecnologia pode acelerar efeitos visuais, pré-visualização, dublagem, restauração, montagem, pesquisa de imagem e processos repetitivos de pós-produção. Mas a concepção estética, a direção de atores, a dramaturgia e o olhar autoral continuam sendo territórios humanos.

Um exemplo citado na cobertura internacional é o do cineasta francês Xavier Gens. Em reportagem da Reuters publicada pelo Deccan Herald, ele afirmou que, com IA, poderia realizar certos efeitos visuais em três meses em vez de um ano, reduzindo custos de 4 milhões para 2 milhões de euros. A frase resume uma das forças que empurram o setor para a adoção: em uma indústria pressionada por orçamentos menores, bilheterias instáveis e competição com plataformas digitais, economia de tempo e dinheiro pesa muito.

Mas Cannes também mostrou que a aceitação da IA não vem sem atrito. Steven Soderbergh levou ao festival o documentário “John Lennon: The Last Interview”, construído a partir de uma entrevista concedida por Lennon e Yoko Ono no dia do assassinato do ex-Beatle, em 8 de dezembro de 1980. Para visualizar trechos mais abstratos da conversa, Soderbergh usou imagens geradas por IA da Meta em cerca de 10% do filme. A decisão provocou reação imediata, inclusive entre críticos, mas o diretor defendeu a transparência: para ele, assumir publicamente o uso da ferramenta é parte essencial do debate.

Esse talvez seja o novo pacto em formação: não fingir que a IA não existe, mas exigir que seu uso seja declarado, limitado e eticamente controlado. O problema não está apenas na ferramenta, mas na opacidade. Quando uma imagem, uma voz, um rosto ou uma performance são sintetizados sem consentimento, o debate deixa de ser tecnológico e passa a ser trabalhista, jurídico e moral.

Peter Jackson, homenageado em Cannes com a Palma de Ouro Honorária, também entrou na discussão. Em masterclass no festival, o diretor de “O Senhor dos Anéis” afirmou não rejeitar a IA em si, comparando-a a outros efeitos especiais. Ao mesmo tempo, destacou que é “absolutamente crítico” proteger atores contra o uso não autorizado de sua imagem. Jackson ainda chamou atenção para um efeito colateral curioso: em um ambiente de suspeita generalizada contra a IA, performances humanas mediadas por tecnologia, como a captura de movimento de Andy Serkis como Gollum, podem ser injustamente confundidas com criações artificiais.

O debate também ultrapassa a seleção oficial. Segundo o El País, o World AI Film Festival, evento paralelo em Cannes dedicado a obras feitas com inteligência artificial generativa, reuniu mais de 5.500 trabalhos de 80 países. A presença desse festival mostra que a produção audiovisual com IA já deixou de ser curiosidade de laboratório e se tornou um campo próprio de experimentação estética, embora ainda marcado por limitações técnicas, problemas de estilo e dúvidas sobre direitos autorais.

No Marché du Film, o mercado de negócios de Cannes, a IA também ganhou protagonismo. Guillaume Esmiol, diretor executivo do mercado, defendeu que a discussão não deve ser sobre substituir criatividade, mas sobre ampliar possibilidades criativas e abrir novas oportunidades de negócio. A programação incluiu debates sobre direitos de propriedade intelectual, usos responsáveis e aplicações reais da IA no processo cinematográfico.

A indústria, portanto, parece entrar em uma fase menos ingênua e menos histérica. De um lado, há entusiasmo com redução de custos, democratização de ferramentas e novas linguagens. De outro, permanecem os riscos: apropriação indevida de imagem e voz, substituição de trabalho humano, homogeneização estética, treinamento de modelos com obras protegidas e perda de controle sobre a autoria.

Para o cinema, a questão decisiva talvez não seja se a IA pode gerar imagens convincentes. Ela já pode. A pergunta mais importante é outra: essas imagens carregam intenção, experiência, conflito, memória, corpo, erro e presença humana? É aí que Cannes, mesmo flertando com algoritmos, ainda parece defender sua velha religião: a de que cinema não é apenas fabricação de imagens, mas uma forma de olhar.

A IA pode acelerar processos, baratear produções e abrir caminhos para realizadores que antes não tinham acesso a certos recursos. Mas, se quiser ser aceita no cinema de autor, terá de aceitar também uma condição: permanecer ferramenta. Quando tenta virar autora, a máquina ainda encontra resistência. Quando ajuda o artista a filmar o que antes era impossível, começa a ser convidada para a conversa.

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Cinema

iQIYI quer transformar streaming em rede social de conteúdo gerado por IA

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A iQIYI lançou o Nadou Pro, uma suíte com dezenas de agentes de IA para roteiro, direção, design visual, edição e renderização. A promessa é ousada: colocar no mercado, ainda em 2026, um filme totalmente gerado por IA com apelo comercial.

A corrida pelo primeiro grande filme comercial gerado por inteligência artificial ganhou um novo protagonista: a iQIYI, uma das maiores plataformas de streaming da China e frequentemente chamada de “Netflix chinesa”. Durante sua conferência anual de conteúdo, a empresa apresentou o Nadou Pro, uma plataforma de produção audiovisual baseada em IA que pretende automatizar praticamente todas as etapas de criação de filmes e séries — do roteiro ao storyboard, da direção visual à edição e renderização final.

A ambição não é pequena. Segundo informações publicadas pela Bloomberg e repercutidas pelo Gizmodo, o CEO da iQIYI, Gong Yu, afirmou que a empresa espera que a IA produza a maior parte de seus novos filmes e séries nos próximos cinco anos. A plataforma já teria uma primeira leva de 16 obras feitas com o Nadou Pro, incluindo ficção científica, fantasia, drama histórico e produções contemporâneas.

O Nadou Pro é apresentado pela própria iQIYI como o primeiro “agente de IA” chinês voltado à produção profissional de cinema e televisão. Na prática, a ferramenta funciona como um estúdio audiovisual sintético: ela integra cerca de 70 agentes de IA responsáveis por tarefas como escrita de roteiro, planejamento de cena, direção, design visual e edição. A empresa afirma que o sistema já vinha sendo testado internamente desde 2025 em projetos de filmes, dramas e animações.

A estratégia da iQIYI não é apenas lançar uma ferramenta. É reorganizar o próprio modelo de streaming. Gong Yu defende uma transição de plataformas centralizadas — onde poucos executivos escolhem o que o público vai assistir — para um ecossistema mais parecido com uma rede social audiovisual, com criadores produzindo e publicando conteúdo com apoio de IA. Em março, o executivo já havia dito que a IA poderia reduzir o custo de produção em uma ordem de grandeza, aumentar o número de criadores em pelo menos uma ordem de grandeza e multiplicar a quantidade de obras disponíveis.

A ideia é simples e brutal: se o audiovisual tradicional é caro, lento e dependente de grandes equipes, a IA entra como linha de montagem. Menos diária de set, menos logística, menos câmera, menos locação, menos espera. Mais renderização. Mais protótipo. Mais volume. É o tipo de discurso que arrepia sindicatos, diretores de fotografia, atores, roteiristas e produtores — mas que faz brilhar os olhos de plataformas pressionadas por custo, concorrência e queda de margem.

E a iQIYI precisa mesmo encontrar uma nova curva de crescimento. Em 2025, a empresa registrou receita anual de RMB 27,29 bilhões, cerca de US$ 3,9 bilhões, uma queda de 7% em relação a 2024. No quarto trimestre, voltou a crescer 3% ano contra ano, mas o cenário ainda é de pressão sobre o velho modelo do streaming: conteúdo caro, disputa feroz por atenção e concorrência direta com vídeos curtos, microdramas e plataformas sociais.

A China, aliás, já entendeu que o audiovisual não será disputado apenas entre Netflix, Disney, Amazon e Tencent Video. A disputa agora passa por quem controla a infraestrutura de geração audiovisual. A iQIYI quer usar modelos de empresas como Alibaba e ByteDance na versão doméstica do Nadou Pro, enquanto a versão internacional deve se conectar ao Google Veo 3.1, segundo a Bloomberg.

O movimento também vem acompanhado de uma estratégia delicada: o uso de atores digitais. A iQIYI afirmou que mais de 100 artistas teriam concordado em participar de um banco de performers para licenciamento de imagem em produções com IA. A reação foi imediata nas redes chinesas. Fãs e profissionais questionaram o risco de substituição de atores reais, enquanto alguns artistas citados tentaram se distanciar da iniciativa.

Gong Yu ainda colocou lenha na fogueira ao sugerir que filmagens com atores reais poderiam se tornar, no futuro, algo cada vez mais raro — quase uma espécie de “patrimônio cultural imaterial”. A frase viralizou na China não apenas por parecer provocação, mas porque toca exatamente no nervo exposto da indústria: a IA não está chegando só para ajudar no acabamento, no VFX ou no storyboard. Ela está chegando para disputar o centro da produção.

O ponto mais importante para o mercado global é que a iQIYI não está falando de clipes experimentais ou vídeos engraçadinhos de feed infinito. A aposta é em longa duração, propriedade intelectual e consumo pago. A empresa quer provar que um filme gerado por IA pode sair do território do “slop” viral e entrar na economia real do entretenimento: assinatura, bilheteria, licenciamento, publicidade e franquia.

Esse é justamente o gargalo que ainda trava o cinema com IA no Ocidente. Vídeos curtos gerados por IA viralizam o tempo todo, mas ainda falta uma obra longa, coerente, emocionalmente potente e comercialmente bem-sucedida. Hollywood experimenta, mas com medo. Netflix já usou IA em cenas finais de produção, Amazon MGM criou uma equipe interna para ferramentas de IA, e cineastas como Darren Aronofsky têm testado séries geradas com IA. Ainda assim, o grande “filme IA” que o público pagaria para ver ainda não apareceu.

O cenário ficou ainda mais simbólico depois da descontinuação do Sora pela OpenAI. Segundo a própria OpenAI, as experiências web e app do Sora foram encerradas em 26 de abril de 2026, enquanto a API deve ser descontinuada em 24 de setembro de 2026. Ou seja: enquanto o produto que inaugurou parte do hype global do vídeo generativo sai de cena, plataformas chinesas tentam ocupar o espaço com ferramentas voltadas diretamente à produção industrial.

A pergunta agora não é mais se a IA vai entrar no cinema. Ela já entrou. A pergunta é quem vai transformar IA em pipeline, pipeline em catálogo e catálogo em audiência pagante.

Para a MVAI, esse movimento confirma uma tese central: o audiovisual com IA não é um brinquedo, nem um filtro, nem uma moda de prompt. É uma nova infraestrutura de produção cultural. A câmera não morreu, o ator não morreu, o diretor não morreu. Mas todos eles entraram numa guerra com uma nova fábrica: uma fábrica que não dorme, não pede diária, não aluga locação e não precisa esperar a luz perfeita do fim da tarde.

A iQIYI está tentando ser a primeira grande plataforma a dizer isso em voz alta. E, goste-se ou não, a China acabou de colocar mais uma peça pesada no tabuleiro da revolução audiovisual.

Fonte: Gizmodo

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