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Aos 65, Boy George lança versão de Karma Chameleon com inteligência artificial

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Boy George

Aos 65 anos, Boy George decidiu revisitar um dos maiores fantasmas — e tesouros — de sua carreira: Karma Chameleon, o megahit lançado pelo Culture Club em 1983. Mas a nova versão da música não é apenas mais uma regravação nostálgica para alimentar playlists retrô. É também uma aposta direta no uso de inteligência artificial como ferramenta de controle artístico, licenciamento e preservação de legado.

A faixa foi relançada em uma versão assistida por IA, com novos vocais gravados em estúdio pelo próprio Boy George. A tecnologia, segundo os envolvidos no projeto, foi usada para aproximar a interpretação atual da sonoridade que o cantor tinha quando registrou a música originalmente, aos 22 anos. A proposta não é apresentar uma voz falsa no lugar do artista, mas usar modelos de áudio para restaurar timbre, textura e nuances de uma performance que continua sendo dele.

A iniciativa marca também a estreia da Artist Included, empresa de música e tecnologia que se apresenta como uma plataforma voltada para artistas, com foco em regravações éticas, consentimento e propriedade criativa. O projeto tem como cofundadores Paul “PK” Kemsley e Jeremy Rosen, e nasce com uma tese bastante clara: se a inteligência artificial já entrou na indústria musical, a pergunta central passa a ser quem se beneficia dela — plataformas, catálogos, marcas ou os próprios artistas.

No caso de Boy George, a motivação é especialmente simbólica. Karma Chameleon não é uma música qualquer. O single chegou ao topo das paradas no Reino Unido e nos Estados Unidos, tornou-se um dos maiores sucessos globais dos anos 1980 e ajudou a fixar o Culture Club como uma das bandas mais reconhecíveis daquela década. Ao mesmo tempo, como acontece com muitos hits gigantescos, a canção passou a existir quase como uma entidade própria, muitas vezes maior que seus criadores.

É aí que a IA entra como ferramenta estratégica. Boy George já havia declarado que não tinha pleno poder de decisão sobre todos os usos comerciais da música e que a nova versão poderia lhe devolver algum grau de escolha sobre onde e como Karma Chameleon aparece. Em tempos de sincronização em filmes, séries, publicidade, games e redes sociais, uma regravação competitiva pode significar mais que vaidade artística: pode significar participação econômica, controle de imagem e poder de negociação.

A nova versão também se insere em uma discussão maior sobre o futuro dos catálogos musicais. Nos últimos anos, a indústria viu artistas relançando obras para recuperar controle sobre masters, enquanto ferramentas de IA passaram a simular vozes, separar faixas, restaurar gravações antigas e recriar performances. A diferença, neste caso, está na tentativa de vender o processo como “IA com consentimento”: o artista participa, aprova e permanece no centro da criação.

A tecnologia usada no projeto foi fornecida pela Syntiant, que descreve sua atuação como apoio à separação, restauração e aprimoramento de áudio. A empresa afirma que a base da gravação continua sendo uma nova performance vocal de Boy George, com a IA atuando no acabamento e na aproximação estética com a gravação clássica.

Essa distinção é importante. A música feita por IA ainda provoca resistência, sobretudo quando envolve imitação de vozes sem autorização, uso opaco de bases de treinamento e diluição de autoria. Mas o caso de Boy George aponta para outro caminho possível: usar IA não para substituir o artista, mas para negociar com o passado, atualizar ativos culturais e reabrir disputas antigas sobre propriedade intelectual.

O resultado é menos uma simples reedição de Karma Chameleon e mais um experimento público sobre o que artistas veteranos podem fazer com seus próprios arquivos, vozes e mitologias. Para alguns, será apenas mais uma versão de um clássico pop. Para outros, pode ser um ensaio de um novo modelo de regravação: autorizado, tecnológico e financeiramente orientado.

Quarenta anos depois de dominar as paradas, Karma Chameleon volta ao mercado com uma pergunta incômoda para a indústria: se a IA vai mexer no passado da música, quem terá o direito de apertar o botão?

Fonte: People

A Redação MVAI reúne jornalistas, pesquisadores e criadores especializados em inteligência artificial, música, cultura digital e inovação. Nossos conteúdos são produzidos com apuração, fontes confiáveis, revisão editorial e atualização constante.

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Rolling Stones desafiam o tempo em “In the Stars”, videoclipe que recria a juventude da banda com IA

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Rolling stones In the stars

Dirigido por François Rousselet, o vídeo combina mais de 100 músicos e dançarinos reais com tecnologia deepfake da Deep Voodoo, empresa criada pelos responsáveis por “South Park”

Os Rolling Stones nunca tiveram uma relação pacífica com o tempo. Desde os anos 1960, a banda transformou juventude, excesso, decadência e sobrevivência em matéria-prima para o rock. No videoclipe de “In the Stars”, o grupo leva essa disputa a um novo território: a inteligência artificial.

Lançado em 14 de maio de 2026, o vídeo apresenta versões rejuvenescidas de Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood, recriadas digitalmente para lembrar os Stones da virada dos anos 1960 para os 1970. A música integra Foreign Tongues, 25º álbum de estúdio da banda, lançado em 10 de julho pela Polydor Records e Universal Music.

Mas chamar “In the Stars” simplesmente de “videoclipe feito por IA” seria reduzir um trabalho muito mais elaborado. A produção foi realizada com atores, músicos, dançarinos, cenários, figurinos e câmeras reais. A inteligência artificial foi empregada principalmente na substituição dos rostos dos músicos que interpretaram fisicamente os integrantes da banda.

Uma festa de rock fora do tempo

Dirigido pelo francês François Rousselet, o clipe imagina um gigantesco estúdio tomado por músicos, cantores e dançarinos de diferentes períodos, culturas e subculturas. As décadas parecem coexistir dentro do mesmo ambiente, como se toda a história atravessada pelos Rolling Stones estivesse sendo convocada para uma única apresentação.

A atriz Odessa A’zion, conhecida por trabalhos como Marty Supreme e I Love LA, funciona como uma espécie de guia em meio ao caos. Ela atravessa a multidão, aproxima o espectador do palco e participa da atmosfera física e provocadora do vídeo — chegando, em um dos momentos mais comentados, a lamber o rosto do jovem Mick Jagger digital.

Rousselet já havia dirigido os Stones nos vídeos de “Ride ’Em On Down”, do álbum Blue & Lonesome, e “Angry”, de Hackney Diamonds. Em “In the Stars”, porém, o cineasta amplia sua escala: mais de 100 músicos e dançarinos foram escolhidos em cerca de uma semana, e os instrumentistas precisaram aprender a faixa rapidamente para que suas performances parecessem convincentes diante das câmeras.

O resultado não é apenas uma reconstrução nostálgica. É uma espécie de colagem viva da cultura do rock, na qual passado e presente se chocam dentro de um espaço propositalmente excessivo.

Os corpos são reais — a IA está nos rostos

Os jovens Stones vistos no clipe foram interpretados pelos integrantes da banda londrina Hot Property. Luca Arshad assumiu os movimentos de Mick Jagger, Jonny Webber interpretou Keith Richards e Tyla Challenger emprestou sua presença física a Ronnie Wood. Sobre essas performances, a Deep Voodoo aplicou digitalmente os rostos rejuvenescidos dos três músicos.

Esse detalhe é fundamental para entender o impacto do vídeo. Os gestos, o modo de segurar os instrumentos, a movimentação corporal, a interação com Odessa e a energia da apresentação foram construídos por artistas humanos. A IA não inventou toda a cena a partir de comandos de texto: ela atuou como uma camada de efeitos visuais sobre uma produção filmada convencionalmente.

Segundo Rousselet, a credibilidade do rejuvenescimento dependia justamente da “fisicalidade” dos intérpretes. O diretor queria que músicos e câmera pudessem se movimentar livremente, sem que a filmagem parecesse engessada pelas exigências da pós-produção. Para ele, a imprevisibilidade de uma performance real era necessária para que os rostos digitais transmitissem alguma verdade emocional.

Em termos práticos, a tecnologia acompanha expressões, movimentos da cabeça, iluminação e ângulos de câmera para reconstruir outra identidade facial sobre o intérprete original. O modelo específico e os detalhes técnicos da ferramenta utilizada em “In the Stars” não foram divulgados publicamente.

Quem é a Deep Voodoo?

A tecnologia ficou a cargo da Deep Voodoo, empresa de mídia sintética fundada em 2020 por Trey Parker e Matt Stone, criadores de South Park. A companhia nasceu depois que os dois reuniram especialistas em deepfake para um projeto cinematográfico interrompido durante a pandemia.

Em 2022, a empresa recebeu um investimento de US$ 20 milhões liderado pela Connect Ventures, parceria da agência Creative Artists Agency com o fundo New Enterprise Associates. A proposta da Deep Voodoo é desenvolver substituição facial e outros efeitos baseados em inteligência artificial de maneira mais rápida e econômica do que determinados processos tradicionais de efeitos visuais.

Antes dos Rolling Stones, a empresa trabalhou em “The Heart Part 5”, de Kendrick Lamar, no qual o rosto do rapper se transforma em personalidades como Kanye West, Kobe Bryant e Nipsey Hussle. Também participou do rejuvenescimento de Billy Joel no vídeo de “Turn the Lights Back On”, lançado em 2024.

“In the Stars” representa, portanto, uma evolução desse tipo de efeito: em vez de uma transformação frontal e controlada, os rostos precisam sobreviver a uma apresentação agitada, com danças, instrumentos, multidões e câmera em movimento.

Quando a IA confundiu Ronnie Wood com Jeff Beck

O processo também produziu um erro curioso. Para reconstruir Mick Jagger e Keith Richards, a equipe utilizou como referência imagens do filme Sympathy for the Devil, realizado por Jean-Luc Godard em 1968. Ronnie Wood, entretanto, ainda não fazia parte dos Rolling Stones naquele período — ele só entraria oficialmente no grupo na década seguinte.

A equipe precisou recorrer a registros anteriores da carreira de Wood, incluindo sua passagem pelo Jeff Beck Group. Em determinado momento, a inteligência artificial misturou as referências e colocou o rosto do próprio Jeff Beck no lugar de Ronnie.

Mick Jagger contou que percebeu o problema durante uma reunião por vídeo e pediu que a imagem fosse congelada no minuto exato. “Esse é Jeff Beck”, alertou o vocalista. A sequência foi posteriormente corrigida, mas o episódio se transformou em uma demonstração quase didática de que sistemas de IA podem reconhecer padrões sem compreender plenamente as relações históricas entre as pessoas presentes nos arquivos.

A repercussão na imprensa especializada

O clipe recebeu avaliações predominantemente positivas por sua escala e pela maneira como a tecnologia foi integrada à direção convencional.

O site especializado em videoclipes Promonews considerou “In the Stars” um dos trabalhos mais ambiciosos de Rousselet e elogiou especialmente o fato de o deepfake ser usado com moderação dentro de uma produção muito maior. Para o veículo, o jovem Mick Jagger digital está particularmente convincente, mas o verdadeiro mérito está na combinação entre efeito tecnológico e performance humana.

A revista SPIN destacou as possibilidades surrealistas dos efeitos assistidos por IA, embora tenha recorrido à expressão “vale da estranheza” para descrever a sensação provocada pelas versões rejuvenescidas. A publicação definiu o vídeo como uma montagem sofisticada situada em uma festa que atravessa diferentes décadas.

O Diário de Notícias, de Portugal, chamou atenção para um problema de linguagem: dizer que o clipe foi simplesmente “fabricado pela IA” apaga a participação dos integrantes da Hot Property e de todos os profissionais envolvidos na filmagem. O texto comparou a operação visual à provocação de René Magritte em “Isto não é um cachimbo”: o que vemos parece ser Mick Jagger, mas é simultaneamente a imagem de Jagger, o corpo de outro músico e uma construção digital autorizada pelo próprio artista.

Já a cobertura da NME, da Rolling Stone e de outros veículos concentrou-se no caráter espetacular da viagem temporal, tratando o vídeo como mais uma demonstração da capacidade dos Stones de incorporar novas linguagens sem abandonar sua identidade histórica.

Uma música nova vestida com o rosto do passado

“In the Stars” funciona como o principal cartão de apresentação de Foreign Tongues. A faixa combina riffs familiares, vocais de apoio expansivos e um refrão concebido para grandes palcos. Algumas críticas enxergaram nela ecos do pop-rock produzido pela banda no início dos anos 1980, enquanto outras destacaram sua capacidade de funcionar como música de estádio.

A revista Pitchfork observou que o riff dialoga com o repertório clássico do grupo, embora o acabamento de Andrew Watt aproxime a canção da precisão estrutural do pop contemporâneo. O contraste é o mesmo que move o videoclipe: a desordem histórica dos Rolling Stones organizada por ferramentas atuais de produção.

O álbum foi gravado em menos de um mês no Metropolis Studios, em Londres, novamente com Andrew Watt, produtor de Hackney Diamonds. O disco reúne 14 faixas e confirma uma fase de produtividade inesperada para uma banda com mais de seis décadas de estrada.

Mick Jagger estabelece um limite para a IA

A utilização de deepfake não significa que os Rolling Stones tenham aderido sem reservas à inteligência artificial. Em entrevista publicada após o lançamento do álbum, Mick Jagger fez questão de separar o uso visual da tecnologia da imitação musical.

O cantor explicou que os músicos, o cenário e a performance de “In the Stars” eram reais e que somente os rostos haviam sido alterados. Keith Richards definiu o vídeo como a “esbarrada” da banda com a IA e sugeriu que esse tipo de ferramenta talvez encontre seu lugar justamente nos videoclipes.

Jagger, porém, rejeitou a ideia de sistemas que imitem a voz, os instrumentos ou o estilo dos Rolling Stones para produzir músicas supostamente novas. Para ele, artistas podem utilizar IA, desde que apresentem ideias e contribuições próprias, em vez de simplesmente solicitar uma canção “no estilo dos Stones”. Richards adotou posição semelhante, afirmando que prefere ouvir algo original a uma tecnologia dedicada a recombinar o passado.

A posição parece contraditória apenas à primeira vista. Em “In the Stars”, a IA não substituiu a composição, a gravação, os instrumentistas, os atores ou o diretor. Foi utilizada como ferramenta de caracterização dentro de uma obra comandada e autorizada pelos próprios artistas retratados.

O passado como efeito especial

Os Rolling Stones passaram décadas sendo descritos como sobreviventes. Em “In the Stars”, eles transformam a própria sobrevivência em linguagem visual. Não tentam convencer o público de que continuam jovens: exibem a juventude como construção, memória e efeito especial.

É justamente essa transparência que torna o clipe mais interessante do que uma simples demonstração tecnológica. Por trás dos rostos artificiais existem corpos reais, músicos reais, uma multidão real e uma direção humana rigorosa. A inteligência artificial devolve à banda sua aparência de cinquenta anos atrás, mas a energia da obra vem de artistas trabalhando no presente.

No fim, “In the Stars” não é apenas uma tentativa de apagar rugas. É um videoclipe sobre a maneira como a cultura pop arquiva, reconstrói e comercializa seus próprios fantasmas. Os Rolling Stones entram na era da IA fazendo aquilo que sempre souberam fazer: utilizando a tecnologia do momento para vender, mais uma vez, a perigosa ilusão de que o rock nunca envelhece.

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Phoebe Bridgers lança “Lost Boys” e anuncia a era de Lost Weekend

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Phoebe Bridgers - Lost Boys

Phoebe Bridgers voltou oficialmente ao centro do indie rock com “Lost Boys”, primeiro single de Lost Weekend, seu novo álbum solo, previsto para 14 de agosto pela Dead Oceans. A faixa marca a retomada de sua carreira individual depois do impacto de Punisher, de 2020, e de um período em que a artista esteve fortemente associada ao fenômeno boygenius, trio formado ao lado de Julien Baker e Lucy Dacus.

“Lost Boys” chega com ares de reintrodução: é uma canção expansiva, melancólica e feita para crescer no refrão, mas sem abandonar o olhar irônico e ferido que transformou Bridgers em uma das compositoras mais influentes de sua geração. O título brinca com a imagem dos “meninos perdidos” de Peter Pan — aqueles que não envelhecem, não amadurecem ou simplesmente se recusam a encarar as consequências da vida adulta. Na mão de Phoebe, porém, a fantasia vira comentário emocional: menos conto infantil, mais retrato de relações marcadas por fuga, repetição e desencanto.

O videoclipe amplia esse jogo simbólico. Dirigido por Lance Oppenheim e Pablo Rochat, o vídeo coloca Bridgers em um universo de fantasia medieval, entre elfos, cavaleiros, LARP, feira renascentista e uma atmosfera de videogame antigo ganhando vida. A estética parece absurda à primeira vista, mas combina com a lógica da música: adultos fantasiados, rituais de escapismo e personagens tentando permanecer em um mundo imaginário enquanto a realidade insiste em atravessar a cena.

A faixa também funciona como um cartão de visitas para a nova fase de Bridgers. “Lost Boys” tem colaborações de peso e traz a presença de suas companheiras de boygenius, Julien Baker e Lucy Dacus, além de nomes como Caroline Shaw, Alex G, Jack Antonoff, Nate Walcott, Blake Mills, Chris Thile e Christian Lee Hutson. A produção envolve a própria Phoebe Bridgers, Tony Berg, Ethan Gruska e Jack Antonoff, com contribuição adicional de Alex G.

O retorno acontece depois de uma sequência de movimentos calculados. Antes do anúncio do álbum, Bridgers realizou apresentações surpresa nos Estados Unidos, incluindo um show sem celulares no Madison Square Garden, em Nova York. A estratégia reforça uma tensão que acompanha a artista desde Punisher: ela é, ao mesmo tempo, uma figura de culto e uma estrela de arena, alguém que construiu sua força em canções íntimas, mas agora precisa lidar com a escala gigantesca de sua própria base de fãs.

Essa mudança de escala também aparece na turnê. A Lost Tour começa em setembro e passa pela América do Norte, Reino Unido e Europa, com shows sem celulares e participações de Alex G na etapa norte-americana e Isaac Wood, ex-Black Country, New Road, na etapa europeia. Parte da renda dos ingressos será destinada a organizações de apoio a sobreviventes de violência sexual, mantendo uma dimensão social que já apareceu em outras iniciativas ligadas à artista.

Musicalmente, “Lost Boys” não abandona os fantasmas tradicionais de Phoebe Bridgers: juventude, memória, abandono, relações quebradas, humor seco e uma tristeza que nunca se entrega totalmente ao drama. Mas há uma diferença importante: a canção parece pensada para ser cantada por multidões. O refrão tem vocação de arena, a produção cresce com mais brilho e a melancolia ganha uma moldura mais cinematográfica.

Depois de anos em que Phoebe Bridgers foi analisada quase como personagem pública — entre o sucesso de boygenius, a idolatria dos fãs e a superexposição típica da música pop contemporânea — “Lost Boys” parece afirmar uma tentativa de retomada narrativa. Ela volta sem explicar demais. Volta com fantasia, distanciamento e uma canção que fala justamente sobre a dificuldade de crescer.

Lost Weekend será o primeiro álbum solo de Phoebe Bridgers em seis anos. Se “Lost Boys” é mesmo a porta de entrada para essa nova fase, o disco promete trabalhar a colisão entre intimidade e espetáculo: a compositora de quarto agora escreve para arenas, mas ainda parece interessada naquilo que sempre fez melhor — observar as ruínas emocionais com beleza, sarcasmo e precisão.

Fonte: PitchFork

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Carly Rae Jepsen lança “On Wires” e anuncia álbum duplo Day and Night

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Carly Rae Jepsen 1

Carly Rae Jepsen está de volta — e em dose dupla. A cantora canadense lançou “On Wires”, primeiro single de seu próximo álbum, Day and Night, projeto de 24 faixas que chega às plataformas em 18 de setembro pela Interscope Records.

A música inaugura uma nova fase para Jepsen, que vem construindo uma das trajetórias mais consistentes do pop contemporâneo desde que deixou de ser lembrada apenas pelo fenômeno “Call Me Maybe”. Em “On Wires”, ela volta ao território em que se move melhor: o desejo romântico tratado como urgência, indecisão e catarse pop.

A faixa tem uma energia pop-rock, com refrão direto e aquela assinatura emocional que transformou Carly Rae Jepsen em artista de culto para fãs de música pop. O verso central da canção gira em torno da vontade de ultrapassar a fronteira da amizade, mas sem perder o tom leve, dançante e luminoso que marca boa parte de sua obra.

O clipe, dirigido por Caio Vieira, também ganhou um significado inesperado. Segundo a própria Jepsen, a ideia inicial era filmar uma perseguição romântica pelas ruas de Nova York. Mas, quando chegou a hora da gravação, ela estava grávida de seis meses — e a proposta precisou mudar.

A solução visual encontrada foi transformar o cabo do microfone em personagem. No vídeo, Carly aparece em uma espécie de cabo de guerra simbólico com o fio, imagem que passou a representar a tensão entre vida pessoal, maternidade, carreira e performance. O que poderia ser apenas um clipe de sedução pop virou uma metáfora sobre tentar abrir espaço para si mesma no meio da máquina da música.

Day and Night será dividido em duas metades de 12 músicas. O lado “Day” deve trazer influências de pop psicodélico dos anos 1970 e instrumentação mais orgânica. Já o lado “Night” promete mirar a pista, com sonoridade mais sintética, noturna e dançante.

O álbum será o primeiro grande projeto de inéditas de Carly Rae Jepsen desde The Loveliest Time, lançado em 2023 como complemento de The Loneliest Time, de 2022. A nova fase também chega depois de um período pessoal importante para a artista, que se casou com o produtor Cole M.G.N. e deu à luz seu primeiro filho em março de 2026.

A ambição de Day and Night parece dialogar com uma tendência recente do pop: discos mais conceituais, longos e divididos em atmosferas emocionais. No caso de Carly, a proposta combina bem com sua persona artística. Ela sempre foi uma compositora interessada nos instantes de suspensão — a paixão antes de virar relação, a festa antes do amanhecer, a dúvida antes da confissão.

“On Wires” funciona justamente nesse intervalo. É uma canção sobre estar pendurada no desejo, presa entre o impulso e a espera. E, ao transformar esse estado emocional em imagem física, com o cabo do microfone puxando a cantora de um lado para o outro, Carly Rae Jepsen encontra uma boa síntese para sua nova era: um pop que continua brilhante, mas agora atravessado por vida adulta, maternidade e escolhas reais.

Com 24 músicas prometidas, Day and Night chega como um dos lançamentos pop mais aguardados do segundo semestre. E “On Wires” indica que Carly Rae Jepsen segue fazendo aquilo que poucos artistas pop fazem tão bem: transformar pequenas hesitações amorosas em grandes momentos de euforia.

Fonte: PitchFork

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