Tecnologia & IA
DeepSeek V4 mostra que a corrida da IA agora é também uma corrida por soberania tecnológica
A corrida global da inteligência artificial entrou em mais uma semana de aceleração brutal. Poucas horas depois da OpenAI apresentar o GPT-5.5, a chinesa DeepSeek anunciou o DeepSeek V4, uma nova geração de modelo de base com versões Pro e Flash, pesos abertos e foco em contexto longo, agentes inteligentes e redução de custos computacionais. Segundo a Caixin, o lançamento ocorreu em 24 de abril e marca uma nova ofensiva chinesa no campo dos modelos de IA de fronteira.
O ponto mais simbólico do anúncio é que o DeepSeek V4 chega como um modelo open weight — isto é, com pesos abertos — em um momento em que boa parte da IA de ponta continua concentrada em empresas americanas de modelos fechados. A versão DeepSeek V4 Pro teria 1,6 trilhão de parâmetros totais e 49 bilhões de parâmetros ativados, enquanto a versão Flash teria 284 bilhões de parâmetros totais e 13 bilhões ativados. Ambas trabalham com uma janela de contexto de até 1 milhão de tokens, o que amplia a capacidade de lidar com documentos longos, bases de código, fluxos complexos de trabalho e aplicações agentivas.
Mais do que uma atualização técnica, o V4 mostra uma mudança estratégica. Segundo a Reuters, o novo modelo da DeepSeek foi adaptado para rodar em chips Huawei Ascend, reforçando a tentativa chinesa de reduzir a dependência de GPUs da Nvidia e de tecnologias sujeitas às restrições de exportação dos Estados Unidos. A Huawei também teria confirmado suporte ao V4 em clusters baseados na linha Ascend 950, um movimento que liga diretamente a evolução dos modelos chineses à disputa por soberania computacional.
A disputa ficou ainda mais quente porque o DeepSeek-V4 chegou praticamente colado ao lançamento do GPT-5.5, apresentado pela OpenAI como seu modelo mais avançado até agora. A OpenAI afirma que o GPT-5.5 melhora desempenho em programação, tarefas profissionais, uso de ferramentas, pesquisa online, raciocínio e segurança, com disponibilidade inicial para planos pagos do ChatGPT e integrações com Codex.
Na prática, a semana mostrou duas filosofias competindo em velocidade máxima. De um lado, empresas como OpenAI continuam apostando em modelos fechados, forte integração com produtos e infraestrutura premium. Do outro, DeepSeek tenta ocupar o espaço simbólico e técnico dos modelos abertos de alta performance, oferecendo à comunidade e às empresas uma alternativa mais flexível — especialmente atraente para desenvolvedores, startups e países que buscam autonomia tecnológica.
Tencent e Xiaomi também entram no jogo
A ofensiva chinesa não veio só da DeepSeek. A Tencent também apresentou uma atualização importante do seu modelo Hunyuan, com o Hy3 preview, considerado o primeiro grande lançamento desde a chegada de Yao Shunyu, ex-pesquisador da OpenAI, para liderar os esforços de modelos fundacionais da companhia. Segundo o South China Morning Post, a Tencent descreve o Hy3 como seu modelo mais poderoso até agora, com avanços em raciocínio complexo e programação.
A Xiaomi, por sua vez, vem ampliando a família MiMo, com modelos voltados a capacidades multimodais e agentivas. Reportagens recentes apontam que a empresa lançou ou vem preparando versões como MiMo-V2.5 e MiMo-V2.5-Pro, combinando texto, imagem, áudio e vídeo em um mesmo sistema, com foco em eficiência, codificação e automação de tarefas.
Esse movimento é importante porque mostra que a IA chinesa não está mais concentrada apenas em chatbots ou modelos de texto. As empresas estão mirando diretamente em agentes, programação, automação empresarial, multimodalidade e infraestrutura própria. Ou seja: a disputa deixou de ser apenas “quem responde melhor a uma pergunta” e passou a ser “quem constrói o sistema operacional da próxima economia digital”.
A camada invisível: falta de computação
Por trás da corrida dos modelos existe um gargalo cada vez mais evidente: computação. A Caixin destaca que fabricantes de modelos enfrentam uma espécie de “escassez de poder computacional”, enquanto a Reuters aponta que a adaptação do DeepSeek aos chips da Huawei faz parte da tentativa chinesa de contornar limitações impostas pelo acesso restrito a hardware americano de ponta.
É aqui que a guerra da IA encontra a geopolítica. Modelos melhores exigem mais dados, mais energia, mais datacenters e chips mais poderosos. A disputa entre Estados Unidos e China, portanto, não é só uma corrida de software. É também uma corrida de semicondutores, nuvem, energia, infraestrutura e talento científico.
O que isso significa para a economia criativa
Para o mercado audiovisual, musical e de conteúdo, essa semana tem um recado claro: a IA está ficando mais barata, mais longa, mais agentiva e mais integrada aos fluxos de produção. Modelos com contexto de 1 milhão de tokens podem analisar roteiros extensos, organizar bibliotecas de cenas, operar bases de conhecimento, auxiliar na edição e coordenar pipelines complexos de produção.
Já os modelos agentivos, como os que estão sendo explorados por OpenAI, DeepSeek, Tencent e Xiaomi, apontam para um futuro em que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de geração e passa a atuar como assistente de produção, programador, editor, pesquisador, roteirista técnico e até coordenador de tarefas.
Para empresas como a MVAI, esse cenário é especialmente relevante. O avanço simultâneo de modelos fechados premium e modelos abertos mais baratos cria um ambiente ideal para montar pipelines híbridos: usar modelos abertos para volume, automação e customização; e modelos fechados para tarefas de maior precisão, raciocínio avançado ou acabamento premium.
A nova fase da corrida
O lançamento do DeepSeek-V4 reforça uma tendência que já vinha se desenhando desde 2025: a IA de ponta está se dividindo entre plataformas fechadas superintegradas e modelos abertos cada vez mais competitivos. A novidade é que agora essa disputa também se apoia em hardware nacional, cadeias de suprimento próprias e estratégias de soberania tecnológica.
A OpenAI tenta consolidar o GPT-5.5 como referência global em produtividade, programação e uso de ferramentas. A DeepSeek tenta provar que modelos abertos podem competir em escala de fronteira. A Tencent quer transformar o Hunyuan em infraestrutura empresarial e agentiva. A Xiaomi começa a conectar IA multimodal ao seu ecossistema de dispositivos, APIs e automação.
A conclusão é simples: a corrida da inteligência artificial não desacelerou. Ela mudou de marcha.
E, daqui para frente, cada novo modelo não será apenas uma atualização técnica. Será um movimento no tabuleiro global da tecnologia, da economia criativa e da soberania digital.
Fonte: Caixin
Tecnologia & IA
Google testa ferramenta que pode transformar o Gemini em estúdio de vídeo com IA
O Google pode estar prestes a dar mais um passo na disputa pelo futuro do vídeo gerado por inteligência artificial. Um novo modelo chamado Gemini Omni apareceu para alguns usuários dentro do Gemini, com uma descrição que promete criação de vídeos, remixagem, edição direta no chat e uso de templates. A descoberta foi relatada pela 9to5Google nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, e reforçada por publicações especializadas que acompanham testes e vazamentos de produtos de IA.
A frase exibida na interface era direta: “Create with Gemini Omni”. Segundo os relatos, o Google descreve o recurso como um novo modelo de geração de vídeo capaz de remixar vídeos, editar conteúdos por conversa e partir de modelos prontos. Ainda não está claro se o Omni será um modelo totalmente novo, uma camada de produto sobre o Veo ou uma evolução integrada da estratégia multimodal do Gemini.
As primeiras demos chamaram atenção por dois motivos. A primeira mostrava um professor escrevendo uma prova matemática em um quadro, um tipo de cena difícil para modelos de vídeo porque exige coerência visual, texto legível e continuidade de movimento. A segunda brincava com um teste clássico de IA generativa: pessoas comendo espaguete, referência ao famoso meme dos primeiros vídeos gerados artificialmente, quando mãos, bocas, talheres e comida viravam um pequeno carnaval de horrores digitais. Segundo a 9to5Google, os resultados ainda têm sinais visíveis de geração por IA, mas já mostram avanço considerável em realismo e aderência ao prompt.
O ponto mais importante para criadores, videomakers e produtores independentes não é apenas a geração de vídeo a partir de texto. O diferencial sugerido pelo vazamento está na edição conversacional: trocar objetos, remixar cenas, editar vídeos diretamente no chat e trabalhar a partir de templates. O TestingCatalog afirma que os testes iniciais indicam desempenho especialmente forte em tarefas de edição, incluindo substituição de elementos e reescrita de cenas por instruções em linguagem natural.
Esse detalhe é estratégico. A geração bruta de vídeo já virou território disputado por Google, OpenAI, ByteDance, Runway, Luma e outras empresas. Mas a próxima fronteira pode ser menos “crie um vídeo do zero” e mais “pegue este material e transforme em outra coisa”. Para a indústria criativa, isso muda o jogo: o modelo deixa de ser apenas um gerador de clipes e começa a se comportar como um assistente de pós-produção.
Também apareceu para alguns usuários uma aba de uso, indicando que a criação de vídeos com Omni pode consumir rapidamente os limites diários de planos pagos. A própria página de suporte do Google já trata geração de vídeo como recurso sujeito a limites por plano e afirma que os limites podem mudar com frequência por demanda e capacidade.
O vazamento chega poucos dias antes do Google I/O 2026, marcado oficialmente para 19 e 20 de maio. A página do evento promete keynotes, sessões e novidades com foco em IA, Gemini, Android, Chrome e Cloud. O blog de desenvolvedores do Google também afirma que a conferência trará avanços de IA e atualizações de modelos Gemini, o que torna o evento o palco mais provável para uma explicação oficial sobre o Omni, caso o produto esteja realmente pronto para anúncio.
Por enquanto, convém tratar o Gemini Omni como um vazamento forte, não como lançamento oficial. O Google ainda não apresentou publicamente o produto nem explicou como ele se encaixará na família Veo. Mas a direção é clara: a Big Tech quer que o Gemini deixe de ser apenas um chatbot multimodal e se torne um ambiente completo de criação — texto, imagem, vídeo, edição e talvez, em breve, fluxo de produção audiovisual.
Para creators, artistas visuais, diretores de clipes, agências pequenas e produtores independentes, a promessa é sedutora: um estúdio criativo dentro de uma conversa. Para o mercado, o recado é menos poético e mais brutal: a guerra do vídeo com IA ainda nem começou direito, e o Google parece disposto a colocar seu exército dentro do Gemini.
Fonte: 9to5Google
Tecnologia & IA
Suno dobra de tamanho em seis meses e expõe o novo racha da indústria musical
A Suno, uma das startups mais controversas e influentes da música gerada por inteligência artificial, estaria próxima de fechar uma nova rodada de investimento Série D acima de US$ 250 milhões, com valuation superior a US$ 5 bilhões. A informação foi publicada pela Music Business Worldwide, com base em reportagens da Billboard e da Axios divulgadas na segunda-feira, 4 de maio.
O número impressiona porque, apenas seis meses antes, a empresa havia anunciado uma Série C de US$ 250 milhões, com valuation pós-money de US$ 2,45 bilhões. Ou seja: se a nova rodada se confirmar nesses termos, a Suno terá mais que dobrado seu valor de mercado privado em menos de um ano, no meio de uma guerra jurídica e cultural com parte da indústria fonográfica.
A própria Suno confirmou em novembro de 2025 que sua Série C foi liderada pela Menlo Ventures e contou com participação da NVentures, braço de venture capital da Nvidia, além de Hallwood Media, Lightspeed e Matrix. No comunicado, a empresa afirmou que quase 100 milhões de pessoas já haviam criado música usando a plataforma.
Uma empresa processada — e desejada
O caso Suno virou um dos símbolos mais fortes do novo conflito entre IA generativa e copyright. A empresa permite que usuários criem músicas completas a partir de comandos de texto, com voz, arranjo, letra, estilo e produção em poucos minutos. Para seus defensores, trata-se de uma ferramenta de democratização criativa. Para seus críticos, é uma máquina treinada sobre trabalho humano sem autorização.
Em junho de 2024, a RIAA anunciou ações judiciais contra Suno e Udio, acusando as plataformas de infração massiva de direitos autorais por supostamente copiarem e explorarem gravações protegidas sem permissão para treinar seus modelos de IA.
A Reuters também registrou que Suno estava envolvida em disputas de copyright com Warner Music Group, Universal Music Group e Sony Music Group quando anunciou sua Série C de US$ 250 milhões em novembro de 2025.
Desde então, a situação ficou ainda mais complexa. A Warner fechou acordo com a Suno em novembro de 2025, encerrando sua disputa e abrindo caminho para modelos treinados com música licenciada. No próprio blog da Suno, a empresa afirmou que a parceria permitiria criar uma nova geração de modelos usando música licenciada de alta qualidade, além de exigir conta paga para download de músicas geradas na plataforma.
Universal e Sony, porém, seguem em litígio. Em abril de 2026, Digital Music News reportou que as duas majors tentavam obter acesso aos termos do acordo entre Suno e Warner, argumentando que o próprio acordo poderia enfraquecer a tese da Suno de que não existe um mercado viável para licenciamento de gravações como dados de treinamento para IA generativa.
O dinheiro segue a máquina
A pergunta central é: por que investidores continuam colocando dinheiro numa empresa cercada por processos?
A resposta passa por escala, receita recorrente e velocidade de adoção. Em fevereiro de 2026, o CEO e cofundador da Suno, Mikey Shulman, afirmou que a plataforma havia alcançado 2 milhões de assinantes pagos e US$ 300 milhões em receita anual recorrente. A TechCrunch registrou que, apenas três meses antes, a empresa havia informado receita anual de US$ 200 milhões, o que indicaria crescimento muito rápido em curto espaço de tempo.
A Digital Music News também destacou que os números de US$ 300 milhões em receita anual e mais de 2 milhões de usuários pagos colocam a Suno entre as maiores — talvez a maior — plataformas de geração musical por IA em operação hoje.
Esse é o ponto que muda a leitura do jogo. A Suno não é apenas uma ferramenta curiosa de prompt musical. Ela já opera como uma plataforma de assinatura, com milhões de pagantes, receita recorrente robusta e potencial de se tornar infraestrutura criativa para músicos amadores, produtores, criadores de conteúdo, agências, marcas e artistas independentes.
O novo campo de batalha: licenciamento, download e controle
A parceria com a Warner dá pistas sobre o futuro possível da música IA. A Suno afirmou que artistas da WMG que optarem pelo uso de seus nomes, imagens, vozes e composições poderão participar de novas experiências de criação, com compensação. A empresa também disse que downloads passarão a exigir conta paga, com limites específicos por plano.
Esse detalhe é importante. A batalha não é apenas sobre “pode ou não pode gerar música com IA?”. A disputa real está migrando para outro lugar: quem controla o modelo, quem controla os dados, quem autoriza o uso da voz, quem recebe quando uma música sintética circula e quem fica com a plataforma que intermedia tudo isso.
Para as gravadoras, o risco é perder o controle da cadeia de valor. Para startups como a Suno, o desafio é transformar uma tecnologia de ruptura em negócio licenciado, escalável e juridicamente defensável. Para artistas, a pergunta é brutal: a IA será ferramenta, concorrente, fantasma digital ou nova fonte de royalties?
O paradoxo Suno
A Suno encarna um paradoxo moderno da indústria cultural. Quanto mais atacada, mais valiosa parece ficar. Quanto mais polêmica, mais investidores prestam atenção. Quanto mais a indústria tenta cercar juridicamente a IA musical, mais fica evidente que a demanda por música gerada, remixada, customizada e interativa não vai desaparecer.
O valuation de US$ 5 bilhões, se confirmado, não significa que a Suno venceu a guerra. Significa que o mercado acredita que a guerra vale bilhões.
E talvez esse seja o dado mais importante para a indústria musical: a música por IA deixou de ser uma ameaça abstrata, meme de internet ou brinquedo de criador solitário. Ela virou uma tese de venture capital, uma frente de disputa jurídica, uma plataforma de assinatura e um experimento de reorganização econômica da música.
A pergunta agora não é mais se a IA vai entrar na música. Ela já entrou. A pergunta é quem vai cobrar ingresso na porta.
Fonte: Music Business
Tecnologia & IA
Suno agora controla dados do Songkick — e quer transformar descoberta de shows com IA
Cinco meses após adquirir o Songkick da Warner Music Group, a Suno passa a ser a controladora dos dados da plataforma de descoberta de shows e já busca um executivo para integrar o “grafo” de música ao vivo ao seu ecossistema de criação por IA.
A Suno está começando a mostrar por que comprou o Songkick.
Cinco meses depois de adquirir a plataforma de descoberta de shows da Warner Music Group, a empresa de música generativa por IA assumiu formalmente o controle dos dados dos usuários do Songkick. Segundo o Music Business Worldwide, usuários receberam um e-mail na quinta-feira, 30 de abril, informando que os dados pessoais mantidos pela plataforma seriam transferidos para a Suno, que passaria a ser a “controladora” responsável por essas informações.
O pacote inclui dados de conta, preferências de artistas, localização e configurações de alertas. Na prática, isso significa que a Suno passa a ter acesso a uma camada valiosa de comportamento musical: quais artistas os fãs seguem, quais shows acompanham, onde estão localizados e como se relacionam com eventos ao vivo. Parte desse histórico foi construída ao longo de anos de integração do Songkick com plataformas como o Spotify.
A movimentação vem acompanhada de outro sinal claro: a Suno abriu uma vaga para General Manager do Songkick. A descrição do cargo fala em uma oportunidade “massiva” para reimaginar a descoberta de música ao vivo com IA e em criar um roteiro de integração entre o “grafo de música ao vivo” do Songkick e o ecossistema de artistas e criação da Suno.
Traduzindo do corporativês para o português brutal: a Suno não quer ser apenas uma ferramenta onde o usuário digita um prompt e gera uma música. Ela quer conectar criação, descoberta, comportamento de fã e experiência ao vivo. A frase mais reveladora da vaga é a ideia de levar um fã “da criação de música na Suno” para “experiências ao vivo no Songkick”.
Essa é uma virada importante. Até agora, a grande guerra em torno da música por IA estava concentrada no treinamento dos modelos, nos direitos autorais e na distribuição de faixas geradas por usuários. Com o Songkick, a Suno passa a olhar para outro território: dados de fãs, shows, localização, intenção de consumo e relação artista-público.
O Songkick, isoladamente, não parecia ser o ativo mais óbvio para uma empresa de geração musical. Mas, dentro da estratégia da Suno, ele pode funcionar como uma camada de inteligência de mercado. Enquanto a Suno sabe o que as pessoas querem criar, o Songkick sabe o que as pessoas querem ver ao vivo. A combinação dessas duas bases cria uma ponte entre desejo criativo, gosto musical e comportamento de fã.
A aquisição do Songkick aconteceu em novembro de 2025, como parte do acordo entre Suno e Warner Music Group que encerrou o processo de copyright movido pela major contra a startup. Na ocasião, a Reuters informou que a Warner havia resolvido sua disputa com a Suno, abrindo caminho para modelos licenciados de IA musical em 2026. O acordo também previa restrições de download: músicas criadas no plano gratuito ficariam limitadas à reprodução e ao compartilhamento, enquanto usuários pagos teriam limites mensais de download.
Esse acordo colocou a Warner em posição diferente de Universal Music Group e Sony Music Entertainment. Segundo o Financial Times, citado por MBW e The Verge, as negociações da Suno com Universal e Sony travaram justamente em torno da distribuição das músicas criadas por IA. As majors querem limitar a circulação ampla desses conteúdos; a Suno quer que os usuários possam compartilhar e distribuir suas criações de forma mais aberta.
É nesse contexto que o Songkick ganha peso estratégico. Se a indústria fonográfica tradicional tenta controlar a circulação das músicas geradas por IA, a Suno parece construir uma rota paralela: transformar criação em engajamento, engajamento em descoberta e descoberta em experiência ao vivo. O palco, nesse caso, vira uma nova interface da IA.
A empresa também chega a essa fase com números agressivos. Segundo MBW, a Suno reportou em fevereiro 2 milhões de assinantes pagos, US$ 300 milhões em receita recorrente anual e mais de 100 milhões de usuários totais. Em novembro de 2025, a startup havia levantado US$ 250 milhões em uma rodada Série C, alcançando avaliação pós-money de US$ 2,45 bilhões.
Mas a pressão contra a empresa continua forte. O CEO da Believe, Denis Ladegaillerie, disse ao MBW que Believe e TuneCore estão bloqueando a distribuição de faixas feitas em plataformas de IA não licenciadas, chamando a Suno de “estúdio pirata”. A crítica reflete uma disputa maior: para parte da indústria, a Suno representa inovação; para outra, representa uma máquina construída sobre obras humanas sem autorização.
A questão agora é menos se a IA vai entrar na música. Ela já entrou. A pergunta é quem vai controlar as pontes: entre criação e distribuição, entre fã e artista, entre dados e palco, entre obra sintética e mercado real.
Com o Songkick, a Suno parece estar dizendo que música IA não termina no arquivo gerado. Ela pode começar no prompt, passar pelo dado do fã e terminar no ingresso, no show, na comunidade e na experiência ao vivo.
Para a indústria musical, é uma provocação séria. Para a Suno, é uma tentativa de sair da posição defensiva no debate de copyright e ocupar uma camada mais ampla do ecossistema musical.
A IA não quer apenas compor. Ela quer mapear o público, prever desejo e organizar o próximo passo da música.
Fonte: Music Business
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