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A Próxima Internet: por que a IA pode ser maior que a web

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A Próxima Internet: por que a IA pode ser maior que a web

Do computador pessoal à inteligência artificial — a história das três grandes revoluções digitais

Nos últimos quarenta anos, três ondas tecnológicas mudaram radicalmente a forma como a humanidade cria, trabalha, se comunica e produz cultura: o computador pessoal, a internet e agora a inteligência artificial.

Cada uma delas não apenas introduziu novas ferramentas — elas criaram novas camadas da realidade digital.

O computador pessoal colocou o poder de cálculo nas mãos das pessoas.
A internet conectou esses computadores em uma rede global.
E a inteligência artificial promete algo ainda mais radical: dar cognição à própria rede.

Em outras palavras: se o computador foi a máquina, e a internet foi o sistema nervoso, a IA pode se tornar o cérebro da infraestrutura digital do planeta.


A primeira revolução: o computador pessoal

Durante décadas, computadores eram máquinas gigantescas utilizadas apenas por governos, universidades e grandes corporações.

Isso começou a mudar nos anos 1970 e 1980 com a popularização do computador pessoal (PC). Pela primeira vez, indivíduos passaram a ter acesso direto ao poder de processamento digital.

Segundo historiadores da computação, a evolução das “máquinas de informação” — de projetos como o motor analítico de Charles Babbage até os computadores eletrônicos modernos — criou a base tecnológica para essa revolução.

O PC transformou atividades cotidianas:

  • edição de texto
  • planilhas
  • design gráfico
  • produção musical digital
  • programação

De repente, qualquer pessoa podia criar informação digital.

Essa mudança cultural é comparável ao surgimento da imprensa. O computador pessoal foi o primeiro passo para a democratização da computação.

Mas ele ainda era uma ilha.


A segunda revolução: a internet

Nos anos 1990, o que antes eram máquinas isoladas passaram a se conectar.

A internet transformou computadores individuais em nós de uma rede global. Surgiu um novo ecossistema digital baseado em comunicação, compartilhamento e colaboração.

A explosão da web criou fenômenos culturais completamente novos:

  • email
  • redes sociais
  • streaming
  • e-commerce
  • cultura de memes
  • produção colaborativa de conhecimento

A escala dessa transformação pode ser medida pela quantidade de dados gerados globalmente. O planeta entrou na chamada “Era do Zettabyte”, quando o tráfego digital passou a ultrapassar um zettabyte por ano — algo equivalente a trilhões de gigabytes circulando na rede.

A internet se tornou a infraestrutura invisível da economia moderna.

Mas mesmo com bilhões de páginas e serviços, havia um limite:
a web conectava informação — mas não pensava sobre ela.


A terceira revolução: inteligência artificial

É aqui que a história muda de escala.

A inteligência artificial não é apenas uma nova tecnologia — ela é uma meta-tecnologia. Um sistema capaz de processar, interpretar e gerar conhecimento.

Relatórios recentes mostram que a adoção da IA está acontecendo mais rápido que qualquer tecnologia anterior. O chatbot ChatGPT, por exemplo, alcançou 100 milhões de usuários em menos de dois meses, algo que levou anos para plataformas como redes sociais atingirem.

Para alguns líderes da indústria, essa transformação pode ser ainda maior que a própria internet. Executivos da indústria de tecnologia já afirmam que a IA pode representar uma mudança mais profunda que a web ou os smartphones.

Não se trata apenas de automação.

A IA cria algo novo: computação cognitiva em escala global.


A ideia da “camada cognitiva”

Para entender a magnitude da mudança, imagine a internet como uma biblioteca infinita.

Hoje, bilhões de páginas, vídeos e bancos de dados existem online. Mas navegar por esse oceano de informação sempre exigiu uma coisa: inteligência humana.

A IA muda essa lógica.

Ela funciona como uma camada cognitiva universal, capaz de:

  • interpretar dados
  • escrever textos
  • compor música
  • gerar imagens
  • programar software
  • analisar pesquisas científicas

Em vez de apenas acessar informação, passamos a conversar com o conhecimento acumulado da humanidade.

Essa ideia remete a uma visão antiga da ciência da computação. Em 1960, o pesquisador J. C. R. Licklider descreveu o conceito de “simbi ose homem-computador”, prevendo um futuro onde humanos e máquinas trabalhariam juntos em processos cognitivos.

Hoje, essa simbiose está começando a acontecer.


A internet que pensa

Se essa tendência continuar, a IA pode transformar a própria arquitetura da rede.

No modelo tradicional da web:

humano → busca → página → informação

No modelo emergente da IA:

humano → pergunta → modelo → resposta sintetizada

Isso significa que a interface da internet deixa de ser o navegador e passa a ser o diálogo.

A rede se torna algo próximo de um organismo cognitivo.


O conceito de “noosfera digital”

Alguns pensadores veem esse processo como o surgimento de uma nova camada evolutiva da civilização.

Filósofos e cientistas já discutiam desde o século XX a ideia da “noosfera”, uma esfera de pensamento coletivo formada pela soma do conhecimento humano.

Durante décadas, a internet foi vista como a materialização dessa ideia.

Mas a inteligência artificial pode levar esse conceito adiante:

não apenas uma rede de informação,
mas uma rede capaz de raciocinar.


Por que a IA pode ser maior que a internet

Existem três razões principais para isso.

1. A IA não é uma indústria — é uma camada

A internet criou empresas digitais.

A IA está sendo integrada em todas as indústrias ao mesmo tempo:

  • medicina
  • ciência
  • cinema
  • música
  • educação
  • programação
  • design

Ela não é um setor.

É uma infraestrutura cognitiva.


2. A IA aprende e melhora

A web cresce adicionando páginas.

A IA cresce aprendendo com dados.

Isso cria um efeito exponencial. Quanto mais dados existem, melhor os modelos ficam — e quanto melhores os modelos, mais conteúdo é produzido.


3. A IA substitui tarefas cognitivas

A internet conectou pessoas.

A IA pode executar tarefas intelectuais:

  • escrever
  • traduzir
  • compor
  • programar
  • analisar

Isso significa que a revolução da IA não atinge apenas a comunicação.

Ela atinge o próprio trabalho intelectual humano.


A explosão cultural da inteligência artificial

Talvez o impacto mais visível esteja na cultura.

Assim como o computador pessoal democratizou a produção musical com softwares de áudio e a internet democratizou a distribuição via streaming, a IA está criando um novo momento criativo.

Hoje já existem:

  • videoclipes gerados por IA
  • trilhas sonoras sintéticas
  • vozes artificiais hiper-realistas
  • roteiros assistidos por modelos generativos

A cultura digital está entrando na era da criatividade algorítmica.

Algo que lembra a revolução dos sintetizadores na música eletrônica — só que em escala muito maior.


A pergunta que ninguém sabe responder

A história da tecnologia mostra que cada revolução cria a base para a próxima.

computador → possibilitou a internet
internet → possibilitou a inteligência artificial

Mas a pergunta que paira sobre o futuro é outra:

o que vem depois da IA?

Alguns futuristas, como o inventor e pesquisador Ray Kurzweil, defendem que a evolução tecnológica pode levar à chamada singularidade tecnológica, um ponto em que máquinas superinteligentes acelerariam o progresso de forma imprevisível.

Se isso acontecer, a IA não seria apenas a próxima internet.

Ela poderia ser a última grande plataforma tecnológica criada pela humanidade.


O cérebro da rede

Durante décadas, a humanidade construiu três camadas digitais:

computadores → a infraestrutura
internet → a conexão
inteligência artificial → a cognição

Se a tese estiver correta, estamos testemunhando o nascimento de algo inédito na história da civilização.

Não apenas uma nova tecnologia.

Mas o primeiro sistema cognitivo planetário.

A internet conectou o mundo.

A inteligência artificial pode fazê-lo pensar.

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Suno dobra de tamanho em seis meses e expõe o novo racha da indústria musical

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Suno

A Suno, uma das startups mais controversas e influentes da música gerada por inteligência artificial, estaria próxima de fechar uma nova rodada de investimento Série D acima de US$ 250 milhões, com valuation superior a US$ 5 bilhões. A informação foi publicada pela Music Business Worldwide, com base em reportagens da Billboard e da Axios divulgadas na segunda-feira, 4 de maio.

O número impressiona porque, apenas seis meses antes, a empresa havia anunciado uma Série C de US$ 250 milhões, com valuation pós-money de US$ 2,45 bilhões. Ou seja: se a nova rodada se confirmar nesses termos, a Suno terá mais que dobrado seu valor de mercado privado em menos de um ano, no meio de uma guerra jurídica e cultural com parte da indústria fonográfica.

A própria Suno confirmou em novembro de 2025 que sua Série C foi liderada pela Menlo Ventures e contou com participação da NVentures, braço de venture capital da Nvidia, além de Hallwood Media, Lightspeed e Matrix. No comunicado, a empresa afirmou que quase 100 milhões de pessoas já haviam criado música usando a plataforma.

Uma empresa processada — e desejada

O caso Suno virou um dos símbolos mais fortes do novo conflito entre IA generativa e copyright. A empresa permite que usuários criem músicas completas a partir de comandos de texto, com voz, arranjo, letra, estilo e produção em poucos minutos. Para seus defensores, trata-se de uma ferramenta de democratização criativa. Para seus críticos, é uma máquina treinada sobre trabalho humano sem autorização.

Em junho de 2024, a RIAA anunciou ações judiciais contra Suno e Udio, acusando as plataformas de infração massiva de direitos autorais por supostamente copiarem e explorarem gravações protegidas sem permissão para treinar seus modelos de IA.

A Reuters também registrou que Suno estava envolvida em disputas de copyright com Warner Music Group, Universal Music Group e Sony Music Group quando anunciou sua Série C de US$ 250 milhões em novembro de 2025.

Desde então, a situação ficou ainda mais complexa. A Warner fechou acordo com a Suno em novembro de 2025, encerrando sua disputa e abrindo caminho para modelos treinados com música licenciada. No próprio blog da Suno, a empresa afirmou que a parceria permitiria criar uma nova geração de modelos usando música licenciada de alta qualidade, além de exigir conta paga para download de músicas geradas na plataforma.

Universal e Sony, porém, seguem em litígio. Em abril de 2026, Digital Music News reportou que as duas majors tentavam obter acesso aos termos do acordo entre Suno e Warner, argumentando que o próprio acordo poderia enfraquecer a tese da Suno de que não existe um mercado viável para licenciamento de gravações como dados de treinamento para IA generativa.

O dinheiro segue a máquina

A pergunta central é: por que investidores continuam colocando dinheiro numa empresa cercada por processos?

A resposta passa por escala, receita recorrente e velocidade de adoção. Em fevereiro de 2026, o CEO e cofundador da Suno, Mikey Shulman, afirmou que a plataforma havia alcançado 2 milhões de assinantes pagos e US$ 300 milhões em receita anual recorrente. A TechCrunch registrou que, apenas três meses antes, a empresa havia informado receita anual de US$ 200 milhões, o que indicaria crescimento muito rápido em curto espaço de tempo.

A Digital Music News também destacou que os números de US$ 300 milhões em receita anual e mais de 2 milhões de usuários pagos colocam a Suno entre as maiores — talvez a maior — plataformas de geração musical por IA em operação hoje.

Esse é o ponto que muda a leitura do jogo. A Suno não é apenas uma ferramenta curiosa de prompt musical. Ela já opera como uma plataforma de assinatura, com milhões de pagantes, receita recorrente robusta e potencial de se tornar infraestrutura criativa para músicos amadores, produtores, criadores de conteúdo, agências, marcas e artistas independentes.

O novo campo de batalha: licenciamento, download e controle

A parceria com a Warner dá pistas sobre o futuro possível da música IA. A Suno afirmou que artistas da WMG que optarem pelo uso de seus nomes, imagens, vozes e composições poderão participar de novas experiências de criação, com compensação. A empresa também disse que downloads passarão a exigir conta paga, com limites específicos por plano.

Esse detalhe é importante. A batalha não é apenas sobre “pode ou não pode gerar música com IA?”. A disputa real está migrando para outro lugar: quem controla o modelo, quem controla os dados, quem autoriza o uso da voz, quem recebe quando uma música sintética circula e quem fica com a plataforma que intermedia tudo isso.

Para as gravadoras, o risco é perder o controle da cadeia de valor. Para startups como a Suno, o desafio é transformar uma tecnologia de ruptura em negócio licenciado, escalável e juridicamente defensável. Para artistas, a pergunta é brutal: a IA será ferramenta, concorrente, fantasma digital ou nova fonte de royalties?

O paradoxo Suno

A Suno encarna um paradoxo moderno da indústria cultural. Quanto mais atacada, mais valiosa parece ficar. Quanto mais polêmica, mais investidores prestam atenção. Quanto mais a indústria tenta cercar juridicamente a IA musical, mais fica evidente que a demanda por música gerada, remixada, customizada e interativa não vai desaparecer.

O valuation de US$ 5 bilhões, se confirmado, não significa que a Suno venceu a guerra. Significa que o mercado acredita que a guerra vale bilhões.

E talvez esse seja o dado mais importante para a indústria musical: a música por IA deixou de ser uma ameaça abstrata, meme de internet ou brinquedo de criador solitário. Ela virou uma tese de venture capital, uma frente de disputa jurídica, uma plataforma de assinatura e um experimento de reorganização econômica da música.

A pergunta agora não é mais se a IA vai entrar na música. Ela já entrou. A pergunta é quem vai cobrar ingresso na porta.

Fonte: Music Business

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Tecnologia & IA

Suno agora controla dados do Songkick — e quer transformar descoberta de shows com IA

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SongKick

Cinco meses após adquirir o Songkick da Warner Music Group, a Suno passa a ser a controladora dos dados da plataforma de descoberta de shows e já busca um executivo para integrar o “grafo” de música ao vivo ao seu ecossistema de criação por IA.

A Suno está começando a mostrar por que comprou o Songkick.

Cinco meses depois de adquirir a plataforma de descoberta de shows da Warner Music Group, a empresa de música generativa por IA assumiu formalmente o controle dos dados dos usuários do Songkick. Segundo o Music Business Worldwide, usuários receberam um e-mail na quinta-feira, 30 de abril, informando que os dados pessoais mantidos pela plataforma seriam transferidos para a Suno, que passaria a ser a “controladora” responsável por essas informações.

O pacote inclui dados de conta, preferências de artistas, localização e configurações de alertas. Na prática, isso significa que a Suno passa a ter acesso a uma camada valiosa de comportamento musical: quais artistas os fãs seguem, quais shows acompanham, onde estão localizados e como se relacionam com eventos ao vivo. Parte desse histórico foi construída ao longo de anos de integração do Songkick com plataformas como o Spotify.

A movimentação vem acompanhada de outro sinal claro: a Suno abriu uma vaga para General Manager do Songkick. A descrição do cargo fala em uma oportunidade “massiva” para reimaginar a descoberta de música ao vivo com IA e em criar um roteiro de integração entre o “grafo de música ao vivo” do Songkick e o ecossistema de artistas e criação da Suno.

Traduzindo do corporativês para o português brutal: a Suno não quer ser apenas uma ferramenta onde o usuário digita um prompt e gera uma música. Ela quer conectar criação, descoberta, comportamento de fã e experiência ao vivo. A frase mais reveladora da vaga é a ideia de levar um fã “da criação de música na Suno” para “experiências ao vivo no Songkick”.

Essa é uma virada importante. Até agora, a grande guerra em torno da música por IA estava concentrada no treinamento dos modelos, nos direitos autorais e na distribuição de faixas geradas por usuários. Com o Songkick, a Suno passa a olhar para outro território: dados de fãs, shows, localização, intenção de consumo e relação artista-público.

O Songkick, isoladamente, não parecia ser o ativo mais óbvio para uma empresa de geração musical. Mas, dentro da estratégia da Suno, ele pode funcionar como uma camada de inteligência de mercado. Enquanto a Suno sabe o que as pessoas querem criar, o Songkick sabe o que as pessoas querem ver ao vivo. A combinação dessas duas bases cria uma ponte entre desejo criativo, gosto musical e comportamento de fã.

A aquisição do Songkick aconteceu em novembro de 2025, como parte do acordo entre Suno e Warner Music Group que encerrou o processo de copyright movido pela major contra a startup. Na ocasião, a Reuters informou que a Warner havia resolvido sua disputa com a Suno, abrindo caminho para modelos licenciados de IA musical em 2026. O acordo também previa restrições de download: músicas criadas no plano gratuito ficariam limitadas à reprodução e ao compartilhamento, enquanto usuários pagos teriam limites mensais de download.

Esse acordo colocou a Warner em posição diferente de Universal Music Group e Sony Music Entertainment. Segundo o Financial Times, citado por MBW e The Verge, as negociações da Suno com Universal e Sony travaram justamente em torno da distribuição das músicas criadas por IA. As majors querem limitar a circulação ampla desses conteúdos; a Suno quer que os usuários possam compartilhar e distribuir suas criações de forma mais aberta.

É nesse contexto que o Songkick ganha peso estratégico. Se a indústria fonográfica tradicional tenta controlar a circulação das músicas geradas por IA, a Suno parece construir uma rota paralela: transformar criação em engajamento, engajamento em descoberta e descoberta em experiência ao vivo. O palco, nesse caso, vira uma nova interface da IA.

A empresa também chega a essa fase com números agressivos. Segundo MBW, a Suno reportou em fevereiro 2 milhões de assinantes pagos, US$ 300 milhões em receita recorrente anual e mais de 100 milhões de usuários totais. Em novembro de 2025, a startup havia levantado US$ 250 milhões em uma rodada Série C, alcançando avaliação pós-money de US$ 2,45 bilhões.

Mas a pressão contra a empresa continua forte. O CEO da Believe, Denis Ladegaillerie, disse ao MBW que Believe e TuneCore estão bloqueando a distribuição de faixas feitas em plataformas de IA não licenciadas, chamando a Suno de “estúdio pirata”. A crítica reflete uma disputa maior: para parte da indústria, a Suno representa inovação; para outra, representa uma máquina construída sobre obras humanas sem autorização.

A questão agora é menos se a IA vai entrar na música. Ela já entrou. A pergunta é quem vai controlar as pontes: entre criação e distribuição, entre fã e artista, entre dados e palco, entre obra sintética e mercado real.

Com o Songkick, a Suno parece estar dizendo que música IA não termina no arquivo gerado. Ela pode começar no prompt, passar pelo dado do fã e terminar no ingresso, no show, na comunidade e na experiência ao vivo.

Para a indústria musical, é uma provocação séria. Para a Suno, é uma tentativa de sair da posição defensiva no debate de copyright e ocupar uma camada mais ampla do ecossistema musical.

A IA não quer apenas compor. Ela quer mapear o público, prever desejo e organizar o próximo passo da música.

Fonte: Music Business

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Cinema

iQIYI quer transformar streaming em rede social de conteúdo gerado por IA

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A iQIYI lançou o Nadou Pro, uma suíte com dezenas de agentes de IA para roteiro, direção, design visual, edição e renderização. A promessa é ousada: colocar no mercado, ainda em 2026, um filme totalmente gerado por IA com apelo comercial.

A corrida pelo primeiro grande filme comercial gerado por inteligência artificial ganhou um novo protagonista: a iQIYI, uma das maiores plataformas de streaming da China e frequentemente chamada de “Netflix chinesa”. Durante sua conferência anual de conteúdo, a empresa apresentou o Nadou Pro, uma plataforma de produção audiovisual baseada em IA que pretende automatizar praticamente todas as etapas de criação de filmes e séries — do roteiro ao storyboard, da direção visual à edição e renderização final.

A ambição não é pequena. Segundo informações publicadas pela Bloomberg e repercutidas pelo Gizmodo, o CEO da iQIYI, Gong Yu, afirmou que a empresa espera que a IA produza a maior parte de seus novos filmes e séries nos próximos cinco anos. A plataforma já teria uma primeira leva de 16 obras feitas com o Nadou Pro, incluindo ficção científica, fantasia, drama histórico e produções contemporâneas.

O Nadou Pro é apresentado pela própria iQIYI como o primeiro “agente de IA” chinês voltado à produção profissional de cinema e televisão. Na prática, a ferramenta funciona como um estúdio audiovisual sintético: ela integra cerca de 70 agentes de IA responsáveis por tarefas como escrita de roteiro, planejamento de cena, direção, design visual e edição. A empresa afirma que o sistema já vinha sendo testado internamente desde 2025 em projetos de filmes, dramas e animações.

A estratégia da iQIYI não é apenas lançar uma ferramenta. É reorganizar o próprio modelo de streaming. Gong Yu defende uma transição de plataformas centralizadas — onde poucos executivos escolhem o que o público vai assistir — para um ecossistema mais parecido com uma rede social audiovisual, com criadores produzindo e publicando conteúdo com apoio de IA. Em março, o executivo já havia dito que a IA poderia reduzir o custo de produção em uma ordem de grandeza, aumentar o número de criadores em pelo menos uma ordem de grandeza e multiplicar a quantidade de obras disponíveis.

A ideia é simples e brutal: se o audiovisual tradicional é caro, lento e dependente de grandes equipes, a IA entra como linha de montagem. Menos diária de set, menos logística, menos câmera, menos locação, menos espera. Mais renderização. Mais protótipo. Mais volume. É o tipo de discurso que arrepia sindicatos, diretores de fotografia, atores, roteiristas e produtores — mas que faz brilhar os olhos de plataformas pressionadas por custo, concorrência e queda de margem.

E a iQIYI precisa mesmo encontrar uma nova curva de crescimento. Em 2025, a empresa registrou receita anual de RMB 27,29 bilhões, cerca de US$ 3,9 bilhões, uma queda de 7% em relação a 2024. No quarto trimestre, voltou a crescer 3% ano contra ano, mas o cenário ainda é de pressão sobre o velho modelo do streaming: conteúdo caro, disputa feroz por atenção e concorrência direta com vídeos curtos, microdramas e plataformas sociais.

A China, aliás, já entendeu que o audiovisual não será disputado apenas entre Netflix, Disney, Amazon e Tencent Video. A disputa agora passa por quem controla a infraestrutura de geração audiovisual. A iQIYI quer usar modelos de empresas como Alibaba e ByteDance na versão doméstica do Nadou Pro, enquanto a versão internacional deve se conectar ao Google Veo 3.1, segundo a Bloomberg.

O movimento também vem acompanhado de uma estratégia delicada: o uso de atores digitais. A iQIYI afirmou que mais de 100 artistas teriam concordado em participar de um banco de performers para licenciamento de imagem em produções com IA. A reação foi imediata nas redes chinesas. Fãs e profissionais questionaram o risco de substituição de atores reais, enquanto alguns artistas citados tentaram se distanciar da iniciativa.

Gong Yu ainda colocou lenha na fogueira ao sugerir que filmagens com atores reais poderiam se tornar, no futuro, algo cada vez mais raro — quase uma espécie de “patrimônio cultural imaterial”. A frase viralizou na China não apenas por parecer provocação, mas porque toca exatamente no nervo exposto da indústria: a IA não está chegando só para ajudar no acabamento, no VFX ou no storyboard. Ela está chegando para disputar o centro da produção.

O ponto mais importante para o mercado global é que a iQIYI não está falando de clipes experimentais ou vídeos engraçadinhos de feed infinito. A aposta é em longa duração, propriedade intelectual e consumo pago. A empresa quer provar que um filme gerado por IA pode sair do território do “slop” viral e entrar na economia real do entretenimento: assinatura, bilheteria, licenciamento, publicidade e franquia.

Esse é justamente o gargalo que ainda trava o cinema com IA no Ocidente. Vídeos curtos gerados por IA viralizam o tempo todo, mas ainda falta uma obra longa, coerente, emocionalmente potente e comercialmente bem-sucedida. Hollywood experimenta, mas com medo. Netflix já usou IA em cenas finais de produção, Amazon MGM criou uma equipe interna para ferramentas de IA, e cineastas como Darren Aronofsky têm testado séries geradas com IA. Ainda assim, o grande “filme IA” que o público pagaria para ver ainda não apareceu.

O cenário ficou ainda mais simbólico depois da descontinuação do Sora pela OpenAI. Segundo a própria OpenAI, as experiências web e app do Sora foram encerradas em 26 de abril de 2026, enquanto a API deve ser descontinuada em 24 de setembro de 2026. Ou seja: enquanto o produto que inaugurou parte do hype global do vídeo generativo sai de cena, plataformas chinesas tentam ocupar o espaço com ferramentas voltadas diretamente à produção industrial.

A pergunta agora não é mais se a IA vai entrar no cinema. Ela já entrou. A pergunta é quem vai transformar IA em pipeline, pipeline em catálogo e catálogo em audiência pagante.

Para a MVAI, esse movimento confirma uma tese central: o audiovisual com IA não é um brinquedo, nem um filtro, nem uma moda de prompt. É uma nova infraestrutura de produção cultural. A câmera não morreu, o ator não morreu, o diretor não morreu. Mas todos eles entraram numa guerra com uma nova fábrica: uma fábrica que não dorme, não pede diária, não aluga locação e não precisa esperar a luz perfeita do fim da tarde.

A iQIYI está tentando ser a primeira grande plataforma a dizer isso em voz alta. E, goste-se ou não, a China acabou de colocar mais uma peça pesada no tabuleiro da revolução audiovisual.

Fonte: Gizmodo

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