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Tecnologia & IA

“Say No to Suno” ou Say No à mudança? O velho medo tecnológico reaparece

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Toda vez que a tecnologia muda o jogo, a indústria musical reage do mesmo jeito: primeiro com medo, depois com resistência, e só muito mais tarde com adaptação. Foi assim com o MP3, foi assim com o streaming, foi assim com o YouTube — e agora, previsivelmente, é assim com a inteligência artificial generativa.

A campanha “Say No to Suno”, impulsionada por representantes de artistas e entidades do setor, surge como mais um capítulo desse roteiro conhecido. Embalada por termos dramáticos e retórica alarmista, a iniciativa pinta plataformas de IA musical como uma ameaça existencial à criatividade humana, à economia dos royalties e, em alguns trechos mais exaltados, quase à própria cultura.

Mas sob o ruído emocional, o debate real é bem mais complexo — e menos apocalíptico.

O argumento central que escorrega

Grande parte das críticas gira em torno da ideia de que modelos generativos seriam essencialmente parasitários: sistemas treinados em obras existentes que “explorariam” a produção de artistas humanos. A narrativa é poderosa. O problema é que, tecnicamente e juridicamente, ela não é tão simples quanto parece.

Treinamento de modelos não equivale automaticamente a cópia, redistribuição ou plágio direto — distinção que está no coração de múltiplas disputas legais em andamento. Afirmar dano econômico estrutural sem decisões judiciais consolidadas ou métricas objetivas ainda verificáveis é, no mínimo, uma aposta retórica ousada.

Há uma diferença importante entre risco percebido e dano demonstrado — e o debate público frequentemente mistura os dois como se fossem a mesma coisa.

Diluição de royalties: hipótese ou fato?

Outro ponto recorrente é o medo da chamada “diluição de royalties”: a ideia de que um volume massivo de faixas geradas por IA drenaria receitas de artistas tradicionais. O cenário é plausível em teoria, mas ainda carece de evidências empíricas robustas em escala de mercado.

Streaming já convive há anos com superabundância de conteúdo, fazendas de plays, ruído algorítmico e catálogos inflados. A IA não cria o problema da saturação — ela potencialmente o intensifica. São fenômenos relacionados, mas não idênticos.

Além disso, plataformas não remuneram “por existência de música”, e sim por consumo, retenção, comportamento do usuário e regras internas de distribuição. A equação econômica é mais sofisticada do que a lógica intuitiva sugere.

O desconforto que raramente é dito em voz alta

Existe um incômodo menos explícito, porém central: controle criativo e barreiras de entrada.

Ferramentas de IA reduzem drasticamente fricções técnicas. O que antes exigia estúdio, equipe, orçamento e tempo agora pode emergir de um laptop. Isso não elimina talento, mas altera profundamente quem pode produzir, experimentar e competir.

Historicamente, rupturas que democratizam produção raramente são recebidas com aplausos pelos agentes já estabelecidos. Não é um fenômeno novo, nem exclusivo da música.

A tensão real: autoria vs. infraestrutura

O embate em torno da Suno não é apenas sobre direitos autorais ou ética de treinamento de modelos. É uma disputa maior sobre quem detém poder na próxima camada da indústria musical:

  • Criadores humanos
  • Plataformas tecnológicas
  • Detentores de catálogo
  • Infraestruturas algorítmicas

A pergunta incômoda não é apenas “IA prejudica artistas?”, mas também “quem captura valor quando a criação vira software?”

Tecnologia como vilã recorrente

Há um padrão curioso na história da música: tecnologias inicialmente tratadas como ameaça acabam, mais tarde, integradas ao ecossistema. Sintetizadores, samplers, DAWs, autotune — todos enfrentaram resistência feroz antes de virarem linguagem dominante.

Isso não significa que todas as preocupações atuais sejam infundadas. Questões sobre consentimento, remuneração e transparência são legítimas. O ponto crítico é outro: retórica inflamada não substitui demonstração técnica, econômica ou jurídica.

Entre o medo e a realidade

A IA musical certamente provoca tensões reais — mas também abre possibilidades criativas inéditas. Reduzir o debate a uma dicotomia simplista entre “arte humana” e “máquina predatória” empobrece uma discussão que deveria ser estrutural, não emocional.

No fundo, a controvérsia em torno da Suno talvez revele menos sobre tecnologia e mais sobre algo bem humano: a dificuldade histórica de indústrias criativas em lidar com mudanças de paradigma.

Porque, no fim das contas, a pergunta que permanece não é se a IA fará parte da música.

Isso já aconteceu.

A questão é quem aprenderá a usá-la como instrumento — e quem insistirá em tratá-la apenas como inimiga.

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Google compra ProducerAI (ex-Riffusion) e avança na música por IA

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O Google anunciou a integração da plataforma de criação musical assistida por inteligência artificial ProducerAI ao seu projeto experimental Google Labs, em um movimento que sinaliza uma investida direta no universo da AI aplicada à música. A ferramenta, que já vem ganhando tração entre artistas e produtores, promete ir além das simples “gerações automáticas” de sons e abrir fluxo criativo colaborativo entre humanos e máquinas.

Lançada em julho de 2025 como sucessora da ferramenta Riffusion, a ProducerAI permite que usuários não apenas gerem ideias, mas também remisturem faixas, experimentem arranjos, esbocem letras e criem até instrumentos virtuais. Diferente de muitos sistemas que operam como caixas-pretas de prompts e respostas, a plataforma enfatiza uma interação conversacional: o usuário conversa com o “produtor” de IA, ajusta, repele ou refina ideias à medida que cria.

No coração dessa transição está o novo modelo musical do Google, o Lyria 3 — um gerador de som de alta fidelidade que entende ritmo, harmonia e até letras. Integrado ao assistente de conversa Gemini, ao modelo de arte visual Nano Banana (para capas de álbuns) e à ferramenta de vídeos Veo, o pacote visa transformar o processo criativo em algo mais próximo do estúdio real do que de um algoritmo misterioso. Todo conteúdo gerado por ProducerAI agora inclui uma marca digital invisível (SynthID), destinada a identificar que aquela música foi produzida com inteligência artificial — uma resposta às preocupações crescentes do setor sobre clonagem não autorizada e uso indevido de criações alheias.

Artistas como The Chainsmokers e Lecrae, que colaboraram no desenvolvimento da plataforma, aparecem entre os defensores da ferramenta, destacando seu potencial como parceiro criativo em lugar de mero gerador de conteúdo automático.

Embora o Google mantenha uma postura de que ferramentas como essa não substituirão músicos humanos, a chegada de ProducerAI ao seu ecossistema coloca a empresa numa posição central numa corrida em que rivais como Suno, ElevenLabs e Udio já buscam um lugar de destaque. A tecnologia, disponível em mais de 250 países em planos gratuitos e por assinatura, sugere um futuro em que compositores, beatmakers e criadores de todo tipo poderão dialogar com inteligências artificiais que já “pensam em som”.

Fonte: The Verge

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Suno aposta no velho guardião dos independentes para guiar sua estratégia comercial

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Jeremy Sirota

Em uma das manobras mais comentadas da interseção entre música e tecnologia neste início de 2026, o executivo Jeremy Sirota, até então CEO da Merlin — agência global de licenciamento que representa mais de 30 000 gravadoras independentes e selos ao redor do mundo — anunciou sua saída e aceitou o convite para se tornar Chief Commercial Officer (diretor comercial) da plataforma de inteligência artificial musical Suno AI.

A mudança, oficializada em fevereiro, chocou parte da comunidade musical porque Sirota vinha liderando posicionamentos firmes contra o uso indiscriminado de repertório independente para treinar algoritmos de IA sem autorização prévia. Em documentos e declarações públicas, ele defendia que “música independente não é matéria-prima para as empresas de tecnologia explorarem sem consentimento” — uma frase que ecoa fortemente à luz da sua nova função.

Suno, empresa de IA generativa focada em criar música por meio de modelos algoritmos, é atualmente avaliada em cerca de US$ 2,45 bi e já admitiu em registros judiciais ter treinado seu sistema com “dezenas de milhões de gravações” obtidas da internet — um conjunto que provavelmente incluía repertórios sob os cuidados da Merlin.

Durante seu tempo na Merlin, Sirota foi uma voz ativa na defesa de direitos autorais em relação ao AI, chegando a publicar políticas que exigiam autorização expressa para que gravadoras & compositoras fossem usadas em datasets de treinamento. Ele também esteve envolvido em negociações com gigantes como Spotify e Apple para avançar modelos de licenciamento digital que valorizassem artistas independentes.

Agora, na Suno, ele terá sob sua responsabilidade as estratégias comerciais, relações com o mercado musical e parcerias com plataformas e gravadoras — um papel que o coloca no epicentro de um dos debates mais espinhosos da indústria: como estruturar economicamente a música gerada por IA de forma que não esvazie direitos autorais nem canibalize o valor do catálogo original.

A jogada levanta questões complexas: até que ponto um defensor histórico da independência artística pode influenciar uma empresa cujo crescimento se apoiou em dados potencialmente não licenciados? E como isso pode recalibrar as relações entre tecnologia e música — especialmente para artistas que historicamente lutam por reconhecimento e remuneração justos num mercado em constante transformação?

Fonte: CMU

Na imagem em destaque Jeremy Sirota . Foto de Ben Benson

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Google Lyria 3 no Gemini: IA transforma ideias em músicas de 30 segundos

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Lyria 3

O universo das ferramentas musicais de inteligência artificial acaba de ganhar um novo protagonista digital. O app Gemini, assistente de IA do Google, incorporou em sua interface o modelo de geração musical Lyria 3, transformando qualquer inspiração — seja um texto, uma foto ou até um vídeo — em uma faixa sonora de até 30 segundos com instrumentação, voz e letras originais.

Desenvolvido pela equipe da Google DeepMind, o Lyria 3 representa a evolução mais recente da tecnologia de criação automática de música: agora, além de produzir instrumentais coerentes com o clima pedido, o sistema também escreve letras, oferece maior controle de estilo, vocais e andamento, e projeta capas personalizadas para os resultados.

A promessa é simples — e ambiciosa: derrubar a distância entre a ideia crua de um usuário e um trecho musical pronto para compartilhar com amigos e nas redes sociais. Basta digitar um comando como “quero uma balada lo-fi sobre acordar num domingo chuvoso” ou subir uma foto do pôr do sol como referência visual, e o Gemini devolve um clipe sonoro embalado por arranjos e composição automática.

Apesar de limitado a 30 segundos neste estágio beta, o Lyria 3 já está disponível globalmente para usuários maiores de 18 anos em vários idiomas, incluindo português, inglês, espanhol, francês, alemão, hindi, japonês e coreano — e pode ser usado tanto em dispositivos móveis quanto na web.

Além de servir como um gerador criativo para momentos casuais, a ferramenta chega integrada também ao Dream Track do YouTube, ampliando potencialmente a paleta sonora de criadores de conteúdo, especialmente para trilhas de vídeos e Shorts.

Para garantir transparência sobre o uso de inteligência artificial na música, todas as composições geradas exibem uma marca d’água invisível chamada SynthID, que permite a detecção de conteúdo criado pela IA — um movimento que dialoga com as preocupações crescentes sobre autoria, direitos e propriedade intelectual na era digital.

O Google afirma que o foco do Lyria 3 não é competir diretamente com estúdios ou produtores profissionais, mas sim democratizar a experimentação musical, abrindo portas para que qualquer pessoa possa brincar de compositor com alguns toques — mesmo sem saber acordes ou teorias musicais.

Seja gerando um refrão instantâneo para uma mensagem de bom dia ou explorando texturas sonoras inéditas com base em imagens e memórias, o Lyria 3 promete ser uma nova paleta na caixa de ferramentas da criação musical digital — um laboratório onde pop, vanguarda e experimentação se encontram no espaço limítrofe entre arte e algoritmo.

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