Música
Entre fascínio e desconforto, Joe Perry comenta o impacto da IA na criação musical
No vórtice entre tradição e revolução tecnológica, Joe Perry — lendário guitarrista do Aerosmith — soou o alarme sobre o avanço da inteligência artificial no universo musical. Em entrevista recente ao MusicRadar, Perry não mediu palavras ao qualificar como “estranho” e até “assustador” o que a IA já é capaz de fazer na criação e reprodução de música.
O músico, cofundador do Aerosmith em Boston em 1970 e autor de riffs que marcaram gerações, distanciou-se do discurso entusiasta que cerca muitos usos de IA em música. Para ele, mais do que ferramentas — que sempre existiram em diferentes formas — o atual estágio da IA levanta questões profundas sobre autenticidade artística e valor emocional.
“Se você pensar no que a IA pode fazer… é simplesmente muito estranho”, diz Perry, repetindo o adjetivo várias vezes ao longo da conversa.
Segundo o guitarrista, a tecnologia que hoje analisa milhares de canções e extrai padrões de sucesso é algo que, na sua época, artistas como Edgar Winter tentavam com lápis e papel — uma diferença que Perry descreveu como “fora de escala”.
Perry se mostra cético quanto à ideia de que um dia veremos um álbum completo do Aerosmith gerado totalmente por inteligência artificial — mesmo que nomes como Kiss já explorem experiências digitais e projetos híbridos entre performance humana e IA.
Para o veterano, o cerne da questão não está apenas em poder criar com IA, mas em sentir a música: para ele, a emoção e a imperfeição humana ainda são insubstituíveis, apesar da máquina estar “além de tudo que imaginávamos”.
Enquanto o debate se intensifica no setor — entre puristas que veem ameaça e inovadores que enxergam novas possibilidades — a voz de Perry ressalta a tensão entre tradição e revolução tecnológica, lembrando que a história da música sempre caminhou — com cautela — junto às invenções que moldam o som.
Fonte: MusicRadar
Música
Editoras independentes criam 7 regras para licenciar música à inteligência artificial
A inteligência artificial está criando um novo mercado para a música — e as editoras independentes querem definir as regras antes que ele se consolide.
As organizações IMPEL e IMPF, que representam editoras musicais independentes, apresentaram em 30 de setembro um conjunto de sete princípios para o licenciamento de músicas por sistemas de IA generativa. O argumento central é simples: se músicas, letras e melodias ajudam a treinar e alimentar modelos de inteligência artificial, seus autores e titulares precisam participar do valor criado.
A composição não pode valer menos
Um dos pontos mais importantes da proposta é a divisão entre dois direitos diferentes existentes numa música: a gravação, ou master, e a composição, que envolve letra e melodia.
IMPEL e IMPF defendem que, no licenciamento para IA, a composição seja valorizada pelo menos no mesmo nível da gravação, salvo situações específicas que justifiquem outra divisão.
Para as entidades, levar automaticamente para a inteligência artificial as antigas divisões econômicas da indústria fonográfica poderia repetir desequilíbrios já discutidos durante décadas no mercado de streaming.
As 7 regras propostas
O framework estabelece que:
- músicas e composições precisam receber uma remuneração compatível com seu valor;
- a divisão entre direitos de gravação e publicação musical deve ser equilibrada;
- pagamentos por uso anterior, treinamento, outputs e usos futuros precisam ser separados;
- taxas, descontos e cálculos de receita devem ser transparentes;
- cada licença deve definir exatamente quais usos da obra estão autorizados;
- sistemas de atribuição e rastreamento precisam permitir identificar obras utilizadas pela IA;
- usos comerciais posteriores de músicas geradas por IA também devem gerar remuneração quando forem baseados em obras utilizadas no treinamento.
O problema do rastreamento
Esse último ponto depende de uma das questões técnicas mais difíceis da música generativa: descobrir qual obra participou do treinamento de um modelo e quanto ela contribuiu para determinado resultado.
IMPEL e IMPF afirmam estar testando tecnologias de atribuição capazes de identificar e rastrear obras durante treinamento, geração e output de sistemas de IA. Um dos experimentos já divulgados envolve a empresa de tecnologia Sureel AI.
Sem esse tipo de infraestrutura, calcular royalties individualmente pode se tornar extremamente difícil.
Não é uma proposta contra a IA
As organizações deixam claro que não pretendem bloquear a tecnologia. Elas afirmam apoiar inovação, experimentação responsável e acordos com empresas de IA — desde que existam regras claras de remuneração e transparência.
Essa discussão também está acontecendo em outras partes da indústria criativa. A CISAC, que reúne sociedades de autores ao redor do mundo, vem defendendo três princípios semelhantes para inteligência artificial: autorização, remuneração e transparência.
A questão começa, portanto, a mudar de forma.
Já não é apenas “a IA pode usar música?”.
A pergunta que deve dominar os próximos anos será:
quando a IA usar música para aprender, criar e gerar receita, como esse dinheiro volta para quem criou a obra original?
Essa resposta pode definir boa parte da economia da música na era da inteligência artificial.
Fontes utilizadas no copydesk: Music Business Worldwide como fonte principal, comunicado oficial de IMPF/IMPEL, Music Week, Digital Music News e documentação da CISAC. A fonte primária confirma que o framework foi anunciado em 30 de setembro de 2026 e que o princípio central é valorizar adequadamente a composição dentro dos novos modelos de licenciamento.
Música
Dr. Dre abraça a IA na música: “É uma nova ferramenta para a criatividade”
Um dos produtores mais influentes da história do hip-hop já está usando inteligência artificial dentro do estúdio.
Dr. Dre afirmou que não considera a IA uma ameaça à música e comparou a resistência atual à tecnologia com a desconfiança que cercou, décadas atrás, a chegada dos sintetizadores e das baterias eletrônicas.
“É uma nova ferramenta para a criatividade”, declarou o produtor em entrevista ao The New York Times ao lado do empresário Jimmy Iovine, segundo a Billboard.
Dre revelou também que já utiliza IA em seu processo de produção. A ideia, segundo ele, não é simplesmente pedir que uma máquina faça uma música, mas usar a tecnologia para experimentar novas possibilidades a partir de algo que ele próprio criou.
Em outras palavras: humano primeiro, IA depois.
O produtor afirmou que usa a ferramenta para observar o que a inteligência artificial consegue fazer com um material que acabou de produzir. E foi além: disse que está abraçando a tecnologia e quer descobrir até onde ela poderá chegar.
Jimmy Iovine: artistas talentosos poderão fazer discos melhores
Jimmy Iovine, parceiro histórico de Dre e cofundador da Beats, também adotou uma posição claramente favorável.
Para ele, a existência de IA não eliminará música ruim — porque música ruim sempre existiu. Mas produtores e artistas talentosos poderão usar essas novas ferramentas para criar trabalhos melhores.
A dupla conhece bem esse tipo de transformação tecnológica. Dre e Iovine criaram a Beats Electronics e a Beats Music, negócios vendidos à Apple em 2014 por mais de US$ 3 bilhões.
A discussão já mudou
A questão que começa a dominar a indústria talvez já não seja simplesmente “usar ou não usar IA?”, mas como ela será usada, identificada e remunerada.
Em julho de 2026, IFPI, RIAA, Grammy Awards, SAG-AFTRA e outras organizações anunciaram uma proposta internacional de identificação das gravações que separa duas categorias: “AI-Generated”, para músicas cuja parte criativa principal foi produzida por IA, e “AI-Assisted”, para obras essencialmente humanas que utilizaram IA em determinados elementos.
A própria Apple já acrescentou à especificação técnica do Apple Music campos de transparência para informar quando IA foi utilizada de maneira relevante em gravações, composições, artes ou videoclipes.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre direitos autorais continua aberta. Gravadoras, músicos e empresas de tecnologia negociam quem pode autorizar o treinamento de modelos, quem recebe e como artistas devem ser creditados e remunerados. Alguns acordos de licenciamento já começam a substituir a fase inicial de confronto judicial por modelos comerciais envolvendo catálogos e ferramentas de IA.
Ferramenta ou substituição?
A declaração de Dr. Dre toca justamente no ponto central dessa nova fase.
Baterias eletrônicas não eliminaram bateristas. Sintetizadores não acabaram com instrumentos acústicos. Computadores não acabaram com produtores musicais.
Eles mudaram quem podia produzir, quanto custava produzir e quais sons podiam existir.
A inteligência artificial pode representar uma transformação ainda maior.
A diferença estará na maneira como artistas e produtores decidirem utilizá-la — e nas regras que a indústria estabelecer para garantir autoria, consentimento, crédito e remuneração.
Para Dr. Dre, pelo menos, a escolha já foi feita:
a IA entrou no estúdio.
Música
Universal, Sony e Warner propõem regras para músicas com IA nos rankings
Universal, Sony, Warner e selos independentes propõem novas regras para definir quando uma música criada com inteligência artificial poderá aparecer nos rankings oficiais.
As maiores gravadoras do mundo querem estabelecer uma fronteira entre a música produzida com auxílio da inteligência artificial e as gravações criadas quase inteiramente por máquinas.
Universal Music Group, Sony Music e Warner Music Group se uniram a empresas como BMG, Concord, Believe, HYBE, Glassnote e Mom+Pop para apresentar princípios globais de elegibilidade para músicas desenvolvidas com IA generativa.
Pela proposta, uma gravação que utilize inteligência artificial somente poderia aparecer nas paradas oficiais se fosse “substancialmente criada por humanos”. O sistema utilizado também precisaria ser legal, autorizado e treinado com materiais devidamente licenciados.
IA não está proibida
A proposta não representa uma proibição completa da inteligência artificial na música.
Ferramentas generativas poderiam continuar sendo utilizadas na composição, na produção e na criação de elementos sonoros. O ponto central seria preservar uma participação humana reconhecível no processo artístico.
O problema é que a expressão “substancialmente criada por humanos” ainda não possui uma definição objetiva. Não está claro, por exemplo, quanto de uma voz, instrumento, arranjo ou produção poderia ser gerado antes de uma faixa deixar de ser considerada uma criação humana.
Também não há, por enquanto, confirmação de que organizações como Billboard ou Official Charts adotarão as regras sugeridas pelas gravadoras. Trata-se de uma proposta apresentada à indústria, não de uma norma mundial já em vigor.
Música gerada ou assistida por IA?
O movimento complementa outro projeto anunciado por organizações como IFPI, RIAA, Grammy Awards, SAG-AFTRA e associações de gravadoras independentes.
O sistema propõe dois tipos de identificação:
AI-Generated: quando a IA produziu a totalidade ou a parte principal dos elementos criativos, como a voz principal, os instrumentos centrais ou toda a música a partir de comandos.
AI-Assisted: quando a obra foi criada principalmente por pessoas, mas utilizou IA generativa em determinados elementos.
Pelas regras sugeridas para os rankings, gravações classificadas como totalmente geradas por IA não seriam elegíveis. Já as músicas assistidas por IA poderiam participar, desde que cumprissem as exigências de autoria, licenciamento, transparência e legalidade.
O problema dos streams artificiais
A preocupação das gravadoras não está apenas na autoria.
As novas regras também procuram combater músicas produzidas em grande escala para manipular plataformas, gerar reproduções automáticas e retirar dinheiro do sistema de royalties.
Em julho de 2026, a Deezer informou que recebia aproximadamente 90 mil músicas geradas por IA por dia, o equivalente a mais da metade dos novos arquivos enviados à plataforma. Apesar do volume, esse conteúdo representa entre 1% e 3% das reproduções da empresa. Segundo a Deezer, até 85% dos streams registrados em faixas totalmente geradas por IA podem ser fraudulentos e são retirados do cálculo de royalties.
Uma pesquisa encomendada pela plataforma também mostrou que 80% dos entrevistados defendem a identificação das músicas totalmente geradas por IA. Outros 52% acreditam que essas gravações não deveriam disputar as mesmas paradas das músicas feitas por artistas humanos.
O verdadeiro debate
A discussão já não é simplesmente aceitar ou rejeitar a inteligência artificial.
As próprias grandes gravadoras estão fechando acordos com empresas de IA que utilizam catálogos licenciados. Universal, Sony e Warner, por exemplo, assinaram contratos com a plataforma KLAY, que afirma treinar seu modelo musical exclusivamente com obras autorizadas.
A disputa real envolve autoria, consentimento, licenciamento e transparência.
A IA já faz parte do processo criativo. O desafio será separar a tecnologia usada como instrumento artístico das fábricas automatizadas de conteúdo criadas para ocupar catálogos, manipular rankings e capturar royalties.
A pergunta que a indústria precisará responder agora é mais complexa: onde termina a ferramenta e começa a substituição do artista?
Fontes principais: The Verge, Sony Music, IFPI, RIAA, Deezer e Music Business Worldwide.