Música
Entre fascínio e desconforto, Joe Perry comenta o impacto da IA na criação musical
No vórtice entre tradição e revolução tecnológica, Joe Perry — lendário guitarrista do Aerosmith — soou o alarme sobre o avanço da inteligência artificial no universo musical. Em entrevista recente ao MusicRadar, Perry não mediu palavras ao qualificar como “estranho” e até “assustador” o que a IA já é capaz de fazer na criação e reprodução de música.
O músico, cofundador do Aerosmith em Boston em 1970 e autor de riffs que marcaram gerações, distanciou-se do discurso entusiasta que cerca muitos usos de IA em música. Para ele, mais do que ferramentas — que sempre existiram em diferentes formas — o atual estágio da IA levanta questões profundas sobre autenticidade artística e valor emocional.
“Se você pensar no que a IA pode fazer… é simplesmente muito estranho”, diz Perry, repetindo o adjetivo várias vezes ao longo da conversa.
Segundo o guitarrista, a tecnologia que hoje analisa milhares de canções e extrai padrões de sucesso é algo que, na sua época, artistas como Edgar Winter tentavam com lápis e papel — uma diferença que Perry descreveu como “fora de escala”.
Perry se mostra cético quanto à ideia de que um dia veremos um álbum completo do Aerosmith gerado totalmente por inteligência artificial — mesmo que nomes como Kiss já explorem experiências digitais e projetos híbridos entre performance humana e IA.
Para o veterano, o cerne da questão não está apenas em poder criar com IA, mas em sentir a música: para ele, a emoção e a imperfeição humana ainda são insubstituíveis, apesar da máquina estar “além de tudo que imaginávamos”.
Enquanto o debate se intensifica no setor — entre puristas que veem ameaça e inovadores que enxergam novas possibilidades — a voz de Perry ressalta a tensão entre tradição e revolução tecnológica, lembrando que a história da música sempre caminhou — com cautela — junto às invenções que moldam o som.
Fonte: MusicRadar
Música
Scorpio Era e a nova fronteira criativa da música com inteligência artificial
Em 2026, a música pop brasileira se encontra em uma encruzilhada criativa: onde a máquina não é mais apenas ferramenta, mas parte da própria linguagem sonora. Esse cenário ganha um marco simbólico com Scorpio Era, o primeiro álbum brasileiro concebido com o apoio sistemático de inteligência artificial — sem, no entanto, renegar a autoria humana.
Lançado em 1º de janeiro com 13 faixas construídas ao longo de 14 meses, Scorpio Era é projeto do músico e produtor Bruno Mendonça de Menezes, carioca de Petrópolis e CEO da Mendonça X, casa de produção que transita entre música, audiovisual e estratégias digitais.
Mais do que curiosidade tecnológica, o álbum propõe uma reflexão sobre como algoritmos, modelos generativos e fluxos automatizados podem dialogar com as pulsões mais íntimas da criação humana. As letras, narrativas e conceitos partem de relatos de vida — identidade, transformação, superação — e só depois recebem a intervenção algorítmica para refinamento estrutural e exploração sonora. “A IA foi utilizada como instrumento de apoio ao processo criativo, não como fonte de autoria”, afirma Menezes.
Um dos traços mais instigantes de Scorpio Era é a figura de Mënez, um intérprete digital gerado a partir de um clone virtual do próprio autor. Longe de substituir o artista, essa persona funciona como extensão narrativa e estética, projetando a presença criativa para além do físico — um gesto que retoma debates globais sobre identidade, performance e autoria na era digital.
Sonoramente, o álbum navega por marés pop latino contemporâneo, misturando funk, elementos gypsy e bases eletrônicas. No terreno audiovisual, os clipes de “Vira Página” e “I’m Scorpio” — ambos concebidos com o auxílio de IA sob direção humana — somam mais de 2 milhões de visualizações nas redes sociais, provando que a experimentação pode encontrar público mesmo fora das bolhas tecnológicas.
O uso de inteligência artificial na criação musical já não é um aviso distante: no mercado internacional, projetos como Breaking Rust e artistas virtuais como Xania Monet ganharam espaço nas paradas e contratos significativos, indicando que a tecnologia não é apenas repertório experimental, mas força ativa no pop global.
Para Menezes, Scorpio Era não é um ponto final, mas um começo. A proposta inclui ampliar o universo narrativo do álbum para um espetáculo teatral multimídia e aprofundar o uso de clones autorais e ferramentas híbridas que combinam algoritmos e direção artística humana.
Seja vista como tendência ou provocação estética, a incursão de IA na música questiona fronteiras e abre uma pergunta que já reverbera no meio artístico: até que ponto a tecnologia expande — ou redefine — a própria noção de expressão criativa?
Notícias
Liah Soares transforma IA em poesia visual no clipe de “Amor pela Metade”, trilha de Três Graças
A veterana da música brasileira Liah Soares inaugura um novo capítulo na sua carreira com o lançamento do videoclipe de Amor pela Metade, single que integra a trilha sonora da novela Três Graças (TV Globo), tema amoroso dos personagens Viviane (Gabriela Loran) e Leonardo (Pedro Novaes).
Dirigido por Rafael Almeida e produzido pela RA7 Content, o clipe se destaca por um elemento que vem dominando conversas na cultura pop e no universo audiovisual: a inteligência artificial como ferramenta criativa. A produção abraça a IA não como substituta, mas como parceira na construção de um universo imagético onírico que dialoga com as camadas emocionais da canção e os dilemas dos personagens da trama.
A canção — lançada como single em plataformas digitais — explora a fragilidade e ambiguidade de um amor incompleto, e se beneficia do uso da IA para traduzir visualmente esse clima de sonho e metáfora. Segundo relatos sobre o processo, Liah passou por uma captura detalhada de expressões e movimentos, permitindo que a versão digital da artista mantivesse uma fidelidade sensível à performance real.
Para a paraense com mais de duas décadas de estrada, cujo repertório já foi gravado por gigantes da música popular brasileira e cuja voz já integrou diversas trilhas de novela, essa experiência com tecnologia representa mais um ponto de inflexão em uma carreira marcada pela mistura de tradição e invenção.
O videoclipe — visualmente ousado e tecnologicamente concebido — convida o público a repensar não apenas a forma como se constrói um vídeo musical, mas a própria relação entre sentimento e imagem na era digital. A música, já amplamente exibida nas cenas da novela, ganha agora sua extensão visual, reforçando a presença de Liah no centro das conversas sobre inovação artística no Brasil.
Assista:
Música
Ilaiyaraaja diz que “inteligência humana é artificial” e provoca reflexão sobre criatividade
Ícone da música indiana, o compositor Ilaiyaraaja voltou a desafiar nossos clichês sobre criatividade e tecnologia ao afirmar que “a própria inteligência humana é artificial” durante um encontro com a imprensa em Bengaluru. A declaração surgiu no anúncio do Music for Meals, um concerto beneficente agendado para 10 de janeiro, que celebra 50 anos de carreira do maestro e terá parte da renda revertida para a Fundação Akshaya Patra, que alimenta milhões de crianças na Índia.
Para Ilaiyaraaja — produtor de uma obra que atravessa décadas e gêneros, misturando tradição indiana com sofisticadas orquestrações — a noção de inteligência natural é uma miragem: tudo o que aprendemos é moldado por aquilo que nos foi pré-alimentado por educação, cultura e referências externas. “Não existe nada que aprendamos por conta própria”, disse ele aos jornalistas no templo ISKCON de Rajajinagar, reafirmando sua visão crítica sobre o impacto e o significado de sistemas como a inteligência artificial no fazer artístico.
Essa reflexão coloca Ilaiyaraaja — cuja discografia inclui milhares de canções e scores que reverberaram não apenas no cinema Tamil, mas em toda a música popular do subcontinente — na linha de artistas que não apenas dominam a técnica, mas provocam debates sobre o que realmente significa criar. Sua posição ressoa com discussões contemporâneas de filósofos e tecnólogos que questionam se a inteligência — humana ou sintética — não é simplesmente uma colcha de retalhos de experiências e aprendizagens prévias.
O concerto Music for Meals promete celebrar não apenas o legado musical de Ilaiyaraaja, mas também levantar questões fundamentais sobre arte, ensino e tecnologia — um debate que ecoa da música clássica ao código das máquinas.
Fonte: The Times of India