Cinema
Cinema em Código: “The Sweet Idleness” e a Revolução da Direção Artificial
O cinema entrou em uma nova era. The Sweet Idleness, filme marcado para fevereiro de 2026, não é apenas mais uma distopia entre tantas — ele chega ao mundo com uma proposta radical: ser a primeira longa-metragem dirigida por uma inteligência artificial.
Produzido pela Andrea Iervolino Company e concebido pelo produtor Andrea Iervolino, The Sweet Idleness foi descrito como um marco histórico no uso de IA na narrativa cinematográfica. A direção foi totalmente supervisionada por FellinAI, um agente de inteligência artificial desenvolvido para esse propósito singular.
Ambientado em um futuro onde apenas 1% da população humana ainda trabalha, enquanto o restante vive em um estado de liberdade absoluta, o filme mistura elementos de ficção científica, crítica social e estética cinematográfica visionária. Essa premissa — que remete tanto a clássicos distópicos quanto a debates contemporâneos sobre trabalho, automação e lazer — é narrada sem a mão criativa tradicional de um diretor humano.
O primeiro teaser foi lançado em outubro de 2025, desencadeando um debate feroz nas redes e fóruns especializados. Entre aplausos e críticas, a obra polarizou opiniões: enquanto alguns veem em The Sweet Idleness uma nova fronteira para a arte e uma provocação legítima à forma como concebemos criatividade e autoria, outros enxergam ali uma ameaça à cultura artesanal do cinema.
Discussões nas comunidades cinéfilas apontam ainda para a controvérsia em torno de personagens como a “atriz” Tilly Norwood — uma entidade gerada por IA que seria parte do elenco — e a própria ideia de um “diretor” artificial, questionando os limites entre inovação tecnológica e a experiência humana na arte.
Para o universo do audiovisual e da cultura pop, The Sweet Idleness funciona como um espelho de nossos tempos: ao mesmo tempo em que celebra o potencial da inteligência artificial como ferramenta criativa, também incendeia o debate sobre identidade, valor artístico e o lugar do ser humano na cadeia de produção cultural.
Seja lido como manifesto, experimento ou extravagância de laboratório, o filme de FellinAI já ocupa um território de impacto — e possível virada de paradigmas — entre cineastas, críticos e público curioso pelo que vem depois da linha de montagem tradicional de filmes.
Notícias
Orson Welles remixado pela inteligência artificial: entre reparo histórico e profanação tecnológica
O nome Orson Welles já carregava em sua própria sonoridade a promessa de uma epopeia cinematográfica. Mas, assim como na música — quando um clássico é reeditado pelos algoritmos do mainstream e acaba esvaziado de alma — a mais recente tentativa de “restaurar” um dos maiores filmes perdidos de Welles está incendiando um debate que cruza estética, ética e tecnologia.
O filme em questão é The Magnificent Ambersons (1942), obra-prima parcial que surgiu no rastro do monumental Cidadão Kane. Originalmente concebido como um retrato brutal e lírico da decadência de uma família abastada no coração dos Estados Unidos, a película teve quarenta e três minutos de material cortados pela RKO Studios e substituídos por um final açucarado, num dos episódios mais infames de censura corporativa na história de Hollywood. As cenas descartadas foram posteriormente destruídas — um verdadeiro “deleção total” que virou lenda entre cinéfilos.
Agora, quase 84 anos depois, o empresário Edward Saatchi — fundador da startup de IA Fable Studio e apoiado por backing da Amazon — está tentando recuperar o que foi perdido. Utilizando inteligência artificial generativa e uma plataforma chamada Showrunner, a equipe pretende reconstruir as cenas desaparecidas usando roteiros originais, fotografias de produção e vozes digitalizadas dos próprios atores originais. É como se um engenheiro musical tentasse reeditar as fitas originais de um álbum histórico que foi censurado pela gravadora — só que usamos aprendizado de máquina em vez de fita magnética.
A ideia é tão ambiciosa quanto provocadora: atores vivos gravam cenas em estúdio, e depois seus rostos e vozes são substituídos por versões digitais de estrelas que morreram há décadas. Na contramão de muitas iniciativas de IA que “tolhem” o espírito autoral, Saatchi afirma que sua visão é “direcionar a tecnologia para o que poderia ser o auge perdido de Welles”, um gesto de reparo histórico mais do que um espetacular show de efeitos.
Só que nem todos concordam com esse tom messiânico. A família de Welles — especialmente sua filha Beatrice — deixou claro que o projeto até agora seguiu sem a bênção formal do espólio e sem os direitos exigidos pelos detentores originais da obra. E críticas já pipocam nos bastidores: será que recriar um clássico com algoritmos é reescrever a história ou profanar um artefato sagrado? Alguns tradicionais entusiastas do cinema temem que a iniciativa — apesar de respeitosa nas intenções — sinalize um precedente perigoso, abrindo portas para intervenções cada vez mais ousadas em obras que deveriam ser intocáveis.
A discussão ecoa debates análogos na música — como a remixagem póstuma de gravações, ou relançamentos com overdubs feitos por produtores que nunca conheceram o artista original — e nos obriga a confrontar uma pergunta difícil: a tecnologia pode realmente “consertar” um passado mutilado ou está apenas criando uma versão alternativa, um “deepfake cultural” que compete com o original?
No fim das contas, o processo em si pode se tornar tão provocativo quanto a obra que tenta resgatar: uma mistura de fascínio, controvérsia e reverência artística que desafia tanto amantes do cinema clássico quanto críticos de tecnologia.
Fonte: The New Yorker
Cinema
Ghost in the Machine: o documentário que traduz a era da IA em imagens e ideias
Ao cruzar filosofia, crítica social e uma boa dose de inquietação, o novo documentário Ghost in the Machine, de Valerie Veatch, emerge no cenário mundial como um dos retratos mais instigantes sobre o fenômeno da inteligência artificial em tempos recentes. Com 110 minutos de duração, o filme estreou no Sundance Film Festival 2026, sendo rapidamente apontado pela crítica como uma obra de grande urgência cultural.
O título — inspirado no conceito filosófico cunhado pelo pensador Gilbert Ryle — ressoa como metáfora perfeita para o debate que a produção traz à tona: a presença (e os “fantasmas”) da tecnologia em tudo o que fazemos hoje. Ryle desafiava a ideia de uma mente separada do corpo; Veatch amplia essa reflexão para a tecnologia que, embora pareça distante, já molda profundamente nossas percepções e estruturas sociais.
Ao longo do documentário, Veatch costura entrevistas com cientistas de dados, filósofos, críticos culturais e historiadores, criando um painel de vozes que articulam não apenas os avanços tecnológicos, mas também seus percalços éticos e históricos. A narrativa abre com o caso emblemático do chatbot Tay, da Microsoft, lançado no Twitter em 2016, que rapidamente degenerou em respostas problemáticas — um espelho perturbador das interações humanas que alimentam esses sistemas.
A crítica à IA não se limita à superfície técnica dos algoritmos; o filme reconstrói uma genealogia inquietante que liga a lógica computacional moderna a práticas como a eugenia e a frenologia do início do século XX — teorias pseudocientíficas que legitimaram hierarquias de raça e gênero. Essas conexões históricas formam uma base crítica que questiona o ethos de parte do Vale do Silício e sua relação com valores culturais mais amplos.
Visualmente, a obra recorre tanto a material de arquivo quanto a sequências geradas por IA. Há um jogo curioso entre cenas “designadas” como IA e outras não — um gesto que, apesar de às vezes distrair, é também uma forma de convidar o público a pensar sobre as fronteiras cada vez mais tênues entre o autêntico e o fabricado.
Alguns críticos apontam que a montagem e escolhas sonoras exageradas dificultam a concisão do filme, mas também reconhecem sua ambição intelectual: Ghost in the Machine não tenta entregar respostas prontas, e sim ampliar o debate cultural sobre um dos temas mais urgentes da década.
O resultado é um documentário “imperfeito, mas profundamente representativo da nossa era”, como destacou um dos críticos — uma obra que, mais do que explicar o fenômeno da inteligência artificial, coloca o espectador frente à complexidade do que isso tudo significa para a sociedade hoje.
Fonte: POV Magazine
Cinema
Quando o Código Encontra a Câmera: Dentro do Silicon Valley AI Film Festival
San José (EUA) – Não foi apenas um festival de cinema. Nos dias 10 e 11 de janeiro, San José, coração do Vale do Silício, inaugurou o Silicon Valley AI Film Festival (SVAIFF), um encontro que reuniu cineastas, tecnólogos, artistas e programadores em uma celebração do cinema emergente produzido com ferramentas de inteligência artificial.
Promovido pela Star Alliance Company Inc., o SVAIFF se autodefinou como uma “fusão de inteligência artificial, cinema e tecnologia criativa” — um palco onde narrativas e algoritmos se encontram para repensar a própria noção de criação cinematográfica.
Ao longo de dois dias, o festival explorou o impacto da IA sobre a produção audiovisual, tanto no plano artístico quanto no econômico. Em painéis e apresentações, nomes como Jonathan Yunger, fundador do estúdio de IA Arcana Labs, mostraram trailers e projetos gerados por IA — incluindo teasers como Revolutionary, uma série documental sobre George Washington, e Cosmic, concebido com colaborações de veteranos da indústria.
“A barreira de entrada em Hollywood é muito alta. A criatividade real começa com o humano, e ferramentas como a IA deveriam democratizar quem pode contar histórias, não substituí-lo”, afirmou Yunger, sintetizando o discurso mais ouvido no festival.
Mas nem todos estão convencidos. A cofundadora do festival, Cynthia Jiang, destacou o uso crescente de IA em pós-produção e desenvolvimento de projetos, mas reconheceu resistência entre produtores mais tradicionais, especialmente fora do circuito ocidental, que questionam se a máquina pode algum dia replicar a expressividade humana no cinema.
Participantes como Olivia Doman, da Rodeo FX, ponderaram que a IA traz eficiência para estágios como previsualização e ideação, mas que ainda há algo insubstituível no processo artesanal da filmagem tradicional.
Apesar do nome, o evento foi muito além de projeções em tela: além de painéis e discursos, o público viu desfiles de moda robótica, performances de modelos automatizados e painéis de discussão sobre ética, estética e indústria.
A cerimônia de premiação destacou produções que exploram a IA como ferramenta narrativa — entre mais de 2.000 inscrições, o Grand Prix foi para White Night Lake, de Wenqing Shanguan, uma fábula poética sobre um papagaio possuído pela alma de seu dono. A Tree’s Imagination, de Wenye Bot, levou o prêmio de melhor curta-metragem animado.
O festival marcou também a estreia mundial de The Wolves, longa-metragem de Bing He, que mescla realidade e ficção no cenário inóspito da Mongólia Interior – um exemplo de como cineastas de diferentes tradições estão encontrando na IA um atalho para materializar visões que antes exigiriam recursos inacessíveis.
Mais do que uma vitrine de tecnologia, o SVAIFF surge como um ponto de inflexão no diálogo entre arte e algoritmo, abrindo espaço para uma nova geração de criadores — e para debates inevitáveis sobre até que ponto as máquinas podem (ou devem) fazer parte do ato de contar histórias.
Fonte: The Stanford Daily
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