Cultura Pop
Netflix recria voz de Gene Wilder com IA para novo reality de Willy Wonka
A Netflix vai usar inteligência artificial para recriar a voz de Gene Wilder no reality show Wonka’s The Golden Ticket, nova competição inspirada no universo de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Wilder, que viveu Willy Wonka no clássico filme de 1971, morreu em 2016, aos 83 anos.
Segundo a Netflix, a recriação da voz foi feita com autorização do espólio do ator. A tecnologia envolve a ElevenLabs, empresa especializada em geração e clonagem de voz por IA.
O programa estreia em 23 de setembro na Netflix e terá final em duas partes no dia 30 de setembro. A competição acompanha 12 vencedores de “Bilhetes Dourados”, cada um acompanhado por uma pessoa convidada, enfrentando jogos, desafios e tentações dentro de uma versão televisiva da fábrica de Wonka.
A produção também terá a participação de Rusty Goffe, ator que interpretou um Oompa Loompa no filme original de 1971. A proposta da Netflix é misturar reality show, nostalgia e o imaginário criado por Roald Dahl em Charlie and the Chocolate Factory.
Karen B. Wilder, viúva de Gene Wilder, apoiou o uso da voz recriada e afirmou que o programa celebra o humor, a imaginação e o carinho que o ator levou ao personagem.
A decisão, porém, já abriu debate. Parte do público vê a recriação como uma homenagem autorizada; outra parte critica o uso de IA para simular artistas mortos, mesmo quando há permissão dos herdeiros. A própria reportagem do TheWrap destacou que o trailer provocou reação negativa nas redes sociais, com comentários questionando se a Netflix deveria ter contratado um ator em vez de recriar digitalmente a voz de Wilder.
O caso entra em uma discussão cada vez mais comum em Hollywood: até onde vai a homenagem e onde começa a exploração comercial da imagem, da voz e da memória de artistas que já morreram? Com Wonka’s The Golden Ticket, a Netflix transforma essa pergunta em parte do próprio espetáculo.
Cultura Pop
Stan Lee volta como ativo de IA em marketplace da ElevenLabs
O legado de Stan Lee acaba de ganhar uma nova camada — e ela é sintética. A ElevenLabs anunciou a inclusão da voz e da imagem do lendário roteirista e editor da Marvel em seu Iconic Marketplace, plataforma que permite licenciar versões geradas por inteligência artificial de figuras famosas para projetos comerciais.
Morto em 2018, aos 95 anos, Lee passa a integrar um catálogo que já reúne nomes como Judy Garland, Michael Caine, David Hasselhoff, Maya Angelou, Laurence Olivier e J. Robert Oppenheimer. A proposta da empresa é oferecer um caminho “licenciado” para o uso de vozes e personas célebres, conectando marcas, produtoras e criadores aos detentores dos direitos de imagem e propriedade intelectual.
No caso de Stan Lee, o acordo foi feito com a Stan Lee Universe, entidade ligada à gestão de seu legado. A justificativa pública é a de preservar a relação do autor com os fãs, ampliando para a era da IA o hábito de Lee de aparecer em cameos, convenções e conteúdos ligados ao universo dos quadrinhos.
A ElevenLabs divulgou um vídeo promocional narrado por uma versão sintética da voz de Lee. A peça invoca o tom épico associado ao criador e faz referência ao imaginário da Marvel, incluindo a célebre ideia de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, além do bordão “Excelsior!”.
A recriação também será usada em audiobooks. A empresa prepara um clube do livro mensal com narração em voz sintética de Stan Lee, começando por A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Além disso, a plataforma sugere que fãs e criadores poderão solicitar usos autorizados para “cameos” digitais e conteúdos inspirados no estilo do autor.
O movimento reforça uma tendência em aceleração: transformar voz, imagem e performance em ativos digitais negociáveis. A ElevenLabs afirma que seu marketplace opera com aprovação dos titulares de direitos, funcionando como uma alternativa regulada ao uso não autorizado de clones vocais. Ainda assim, a iniciativa reacende uma pergunta inevitável: até que ponto uma pessoa morta pode consentir com novas falas, novos contextos e novas aparições?
Esse dilema não é exclusivo de Stan Lee. O mercado de vozes sintéticas já reúne artistas vivos que aceitaram licenciar sua voz, como Michael Caine, e figuras históricas ou celebridades falecidas cujos direitos são administrados por herdeiros, fundações ou empresas. A diferença é sensível: quando o artista está vivo, há consentimento direto; quando não está, a decisão passa a ser de quem herdou ou controla juridicamente seu legado.
Para defensores da tecnologia, trata-se de uma forma de preservar memórias culturais, criar experiências imersivas e abrir novos formatos narrativos. Para críticos, é mais um passo na transformação de pessoas em propriedades pós-morte, com o risco de distorcer intenções, estilo e contexto histórico.
Stan Lee sempre foi um símbolo da cultura pop justamente por aparecer entre suas criações. Agora, sua presença deixa de depender de arquivos, entrevistas ou cenas antigas. Com IA generativa, ela pode ser recriada, licenciada e adaptada a novos produtos.
A pergunta que fica não é apenas se a tecnologia consegue fazer isso. Ela consegue. A questão é quem deve decidir quando uma voz continua falando depois que seu dono já não pode mais responder.
Cultura Pop
Videoclipe: do cinema mudo à inteligência artificial
Falar em videoclipe é falar sobre muito mais do que música ilustrada por imagens. O videoclipe é uma linguagem própria, um território em que cinema, performance, moda, tecnologia, publicidade, televisão e imaginação pop se fundem em poucos minutos para criar impacto, desejo, memória e identidade cultural. Em sua forma mais simples, ele parece apenas um vídeo musical. Na prática, porém, o videoclipe sempre foi um laboratório de linguagem visual, um lugar em que o futuro costuma aparecer antes de chegar ao resto da indústria.
O antepassado mais antigo de um videoclipe, aí o nome importante é “The Dickson Experimental Sound Film”, filmado em 1894/1895. Ele é apontado como o filme mais antigo conhecido com música associada à imagem, feito no contexto do Kinetophone de Edison. Não é “videoclipe” no sentido pop moderno, mas é uma espécie de ancestral histórico do formato.
No sentido moderno, feito como peça promocional para uma música pop, o título mais citado vai para “Bohemian Rhapsody”, do Queen, lançado em 1975. Ele é frequentemente tratado como o clipe que consolidou o formato de vídeo promocional pensado para televisão e divulgação de single.
A História do Videoclipe
A história do videoclipe não começa na MTV, embora a emissora tenha sido decisiva para transformá-lo em produto de massa e em motor da indústria fonográfica durante décadas. Também não começa nos anos 1980, como muita gente supõe. As raízes do videoclipe são bem mais profundas e remontam ao próprio nascimento da imagem em movimento, quando o cinema ainda era mudo, a sincronização entre som e imagem era um desafio técnico e artistas, inventores e exibidores já buscavam formas de unir música, presença cênica e narrativa visual.
Os 5 videoclipes mais icônicos da história
Dos experimentos visuais analógicos às superproduções cinematográficas, alguns clipes não apenas marcaram época — eles redefiniram o que é possível fazer com som e imagem. E, curiosamente, continuam sendo referência direta para a nova geração de criadores que hoje trabalham com inteligência artificial.
Abaixo, cinco obras que ajudaram a construir o DNA do videoclipe moderno
“Thriller” — Michael Jackson (1983)
Se hoje falamos em “conteúdo audiovisual expandido”, Thriller fez isso antes de existir o termo. Dirigido como um curta-metragem, o clipe elevou o videoclipe ao status de cinema, com narrativa, direção de arte e coreografia icônicas.
Mais do que um sucesso musical, foi uma virada de chave: mostrou que um clipe podia ser evento global, produto cultural e peça de storytelling ao mesmo tempo. Na lógica atual, seria um “universo audiovisual” completo — algo que a IA agora recria em escala.
“Take On Me” — a-ha (1985)
Muito antes do termo “híbrido”, esse clipe já fundia mundos. A mistura de rotoscopia com live-action criou uma estética única — meio sonho, meio realidade — que até hoje inspira motion designers e artistas de IA.
É praticamente um protótipo analógico do que hoje vemos com geração de imagem: transições fluidas entre dimensões visuais. Um lembrete de que a experimentação estética sempre veio antes da tecnologia.
“Video Killed the Radio Star” — The Buggles (1979)
Não é só um clipe — é um manifesto. Primeiro vídeo exibido na MTV, ele simboliza a virada definitiva da música para a imagem.
A ironia? Hoje vivemos outra transição semelhante, onde a IA começa a redefinir o próprio conceito de criação audiovisual. Se o vídeo matou o rádio, o que a IA vai transformar agora?
“Vogue” — Madonna (1990)
Minimalista e sofisticado, Vogue provou que impacto não depende de orçamento explosivo, mas de conceito forte. A estética inspirada no cinema clássico e na cultura ballroom redefiniu moda, dança e linguagem visual.
Hoje, essa lógica é central na criação com IA: direção criativa e repertório cultural valem mais do que qualquer equipamento. Ideia ainda é o verdadeiro motor.
“Smells Like Teen Spirit” — Nirvana (1991)
Cru, caótico e visceral, esse clipe capturou o espírito de uma geração inteira. Sem polish, sem glamour — só energia bruta.
Ele provou que autenticidade também é estética. E essa lógica volta com força na era da IA: quanto mais conteúdo gerado, mais valor tem aquilo que parece real, humano e imperfeito.
O Videoclipe e a Inteligência Artificial
Hoje, quando vemos um videoclipe criado com inteligência artificial, talvez a tentação seja tratá-lo como ruptura absoluta. Mas a verdade é outra: a IA não destrói a história do videoclipe. Ela leva essa história adiante. O que muda são as ferramentas, os custos, a velocidade, a escala e o grau de autonomia criativa disponível para artistas e diretores. Nesse sentido, o videoclipe feito com IA não é um desvio. É continuação radical de uma vocação antiga: experimentar antes de todo mundo.
A evolução estética dos videoclipes
A evolução estética dos videoclipes é basicamente a história de como a música aprendeu a “se vestir” visualmente — e, ao longo das décadas, virou linguagem própria, quase um cinema paralelo. Bora dar essa geral:
Anos 80: teatralidade, cor e performance
Nos anos 80, com a explosão da MTV, o videoclipe virou vitrine principal da música pop.
Características:
- Estética teatral e performática
- Cores fortes e figurinos marcantes
- Narrativas simples (ou quase inexistentes)
- Forte influência do palco e da TV
Exemplos:
- Thriller – praticamente um curta de terror pop
- Take On Me – mistura pioneira de live-action com animação
- Like a Virgin – estética icônica e provocativa
👉 Aqui, o clipe ainda era “performance filmada”, mas já começava a ganhar identidade própria.
Anos 90: linguagem cinematográfica e experimental
Nos anos 90, o negócio ficou sério: diretores começaram a tratar clipe como arte audiovisual experimental.
Características:
- Influência forte do cinema e publicidade
- Narrativas mais complexas
- Uso criativo de edição, câmera e conceito
- Surgimento de diretores-autor
Exemplos:
- Smells Like Teen Spirit – estética crua e geração grunge
- All Is Full of Love – arte + tecnologia + conceito
- Paranoid Android – narrativa fragmentada e animada
👉 Aqui nasce o “diretor de videoclipe” como artista — tipo Spike Jonze e Michel Gondry.
Anos 2000: superprodução estilo Hollywood
Com dinheiro pesado das gravadoras, os clipes viraram verdadeiros blockbusters.
Características:
- Orçamentos milionários
- Estética polida e hiperproduzida
- Efeitos especiais avançados
- Coreografias e direção de arte gigantes
Exemplos:
- Toxic – estética futurista + narrativa de espionagem
- Bad Romance – visual icônico e exagerado
- In da Club – estética de luxo e poder
👉 Aqui o clipe vira produto premium — quase trailer de filme.
Anos 2020+: estética digital, internet e IA
Agora a coisa virou outro jogo
Características:
- Estética digital, glitch, hiper-real
- Produção descentralizada (menos equipe, mais software)
- Mistura de real + virtual
- Uso crescente de IA generativa
Exemplos / tendências:
- Clipes com estética hiperpop e colagem digital
- Avatares virtuais e artistas inexistentes
- Produções feitas com ferramentas como Runway, Kling, etc.
- Projetos como a banda Nami e o clipe Particularmente
👉 Aqui o videoclipe deixa de ser “filmado” e passa a ser gerado.
Diretores que revolucionaram o videoclipe
Se o videoclipe nasceu como ferramenta de divulgação musical, foram os diretores que o transformaram em arte. Ao longo das décadas, alguns nomes não apenas acompanharam tendências — eles criaram novas linguagens visuais, redefiniram padrões estéticos e influenciaram tanto a música quanto o cinema.
A seguir, uma seleção de diretores que mudaram o jogo.
Michel Gondry – O artesão do impossível
O francês Michel Gondry trouxe para o videoclipe uma estética artesanal, criativa e profundamente autoral. Em vez de depender apenas de tecnologia, ele explorava truques visuais feitos “na mão”, criando um charme único e reconhecível.
Seus clipes parecem sonhos construídos com objetos simples, loops visuais e ilusões práticas — uma espécie de poesia visual analógica.
Exemplos de videoclipes:
- “Around the World” – Daft Punk
- “Fell in Love with a Girl” – The White Stripes
- “Come Into My World” – Kylie Minogue
Gondry mostrou que criatividade pode ser mais poderosa que orçamento — uma lição que ressoa ainda mais forte na era da IA.
Spike Jonze – O caos criativo com alma humana
Spike Jonze levou o videoclipe para um território onde humor, emoção e estranheza convivem sem esforço. Seus trabalhos muitas vezes parecem simples à primeira vista, mas carregam conceitos profundos e execução impecável.
Ele é mestre em transformar ideias aparentemente banais em experiências memoráveis.
Exemplos de videoclipes:
- “Weapon of Choice” – Fatboy Slim
- “Sabotage” – Beastie Boys
- “Praise You” – Fatboy Slim
Jonze ajudou a provar que o videoclipe pode ser divertido, estranho e profundamente humano ao mesmo tempo.
David Fincher – O perfeccionismo cinematográfico
Antes de se tornar um dos maiores diretores de Hollywood, David Fincher foi um dos responsáveis por elevar o padrão técnico dos videoclipes.
Sua abordagem trouxe uma estética sombria, sofisticada e altamente controlada, aproximando o videoclipe da linguagem cinematográfica moderna.
Exemplos de videoclipes:
- “Vogue” – Madonna
- “Freedom! ’90” – George Michael
- “Express Yourself” – Madonna
Fincher ajudou a consolidar o videoclipe como um produto de alto valor estético — praticamente mini-filmes.
Chris Cunningham – O lado perturbador da tecnologia
Chris Cunningham levou o videoclipe para territórios inquietantes, explorando a relação entre corpo humano, máquinas e distorção.
Seus trabalhos são intensos, desconfortáveis e inesquecíveis — antecipando debates sobre tecnologia, identidade e artificialidade.
Exemplos de videoclipes:
- “Come to Daddy” – Aphex Twin
- “All Is Full of Love” – Björk
Cunningham praticamente criou uma estética “cyberpunk emocional” no videoclipe — algo que hoje conversa diretamente com a estética da IA generativa.
Hype Williams – A estética do hip-hop moderno
Hype Williams redefiniu o visual do hip-hop nos anos 90 e 2000. Ele trouxe cores vibrantes, lentes olho-de-peixe, cenários grandiosos e uma estética de luxo que se tornou padrão na indústria.
Seu estilo não só influenciou videoclipes, mas toda a cultura visual do rap e da música pop.
Exemplos de videoclipes:
- “California Love” – 2Pac
- “Mo Money Mo Problems” – The Notorious B.I.G.
- “Gold Digger” – Kanye West
Hype criou o imaginário visual do sucesso no hip-hop — algo que ainda dita tendências hoje.
Jonas Åkerlund – O caos pop elevado ao extremo
Jonas Åkerlund mistura agressividade visual, edição frenética e narrativa provocativa. Seus clipes são intensos, rápidos e muitas vezes chocantes.
Ele entende como poucos a energia da música pop e rock — e transforma isso em impacto visual direto.
Exemplos de videoclipes:
- “Smack My Bitch Up” – The Prodigy
- “Ray of Light” – Madonna
- “Telephone” – Lady Gaga
Åkerlund ajudou a consolidar o videoclipe como experiência sensorial extrema.
Mark Romanek – A estética da contemplação
Mark Romanek trouxe uma abordagem mais artística e contemplativa, com forte influência das artes visuais e do cinema autoral.
Seus clipes são elegantes, simbólicos e muitas vezes minimalistas — criando impacto sem excesso.
Exemplos de videoclipes:
- “Scream” – Michael Jackson e Janet Jackson
- “Hurt” – Johnny Cash
- “Closer” – Nine Inch Nails
Romanek elevou o videoclipe ao território da arte contemporânea.Mark Romanek – A estética da contemplação
Dave Meyers – O espetáculo pop contemporâneo
Dave Meyers representa a evolução moderna do videoclipe como espetáculo visual hiperproduzido, colorido e altamente dinâmico.
Ele trabalha com narrativas fragmentadas, humor e estética digital — muito alinhado com a era do streaming e redes sociais.
Exemplos de videoclipes:
- “HUMBLE.” – Kendrick Lamar
- “Firework” – Katy Perry
- “No Tears Left to Cry” – Ariana Grande
Meyers traduz o videoclipe para a linguagem do século XXI: rápido, impactante e altamente compartilhável.
Conclusão: do autor ao algoritmo
Esses diretores provaram que o videoclipe é muito mais do que um complemento da música — ele é um campo de experimentação estética.
Hoje, com a chegada da inteligência artificial, surge uma nova geração de “diretores híbridos”, onde a criatividade humana se mistura com ferramentas generativas. Mas a essência continua a mesma: visão, linguagem e capacidade de transformar som em imagem.
Se antes o videoclipe dependia de câmeras e grandes equipes, agora ele pode nascer de prompts. Ainda assim, a pergunta central permanece:
quem está por trás da ideia?
E é exatamente aí que nasce o próximo grande diretor.
Cultura Pop
IA ressuscita Molière e cria peça inédita no estilo do século XVII
E se Molière não tivesse morrido em 1673? E se uma nova peça dele surgisse hoje?
Foi exatamente essa provocação que deu origem a um dos projetos mais ousados da interseção entre arte e inteligência artificial: a criação de uma peça inédita no estilo do dramaturgo francês — escrita com ajuda de IA.
O resultado é “L’Astrologue ou les Faux Présages” (“O Astrólogo ou os Falsos Presságios”), uma comédia que mistura tecnologia de ponta com rigor acadêmico e tradição teatral.
Um Molière “gerado por máquina” (mas guiado por humanos)
O projeto, batizado de “Molière Ex Machina”, foi desenvolvido ao longo de quase três anos por pesquisadores da Sorbonne University, artistas do coletivo Obvious e especialistas em literatura clássica.
A inteligência artificial foi treinada com textos originais de Molière e obras contemporâneas, aprendendo seu estilo, ritmo e temas recorrentes — como a sátira à credulidade humana, aqui aplicada ao universo da astrologia.
Mas não pense que foi só apertar um botão.
O processo foi um verdadeiro “pingue-pongue criativo”:
- humanos escreviam prompts
- a IA gerava versões
- especialistas revisavam
- e tudo era refeito — dezenas de vezes por cena
Cada trecho chegou a ter cerca de 20 versões diferentes.
A história: amor, fraude e… astrologia
A trama segue Géronte, um burguês ingênuo manipulado por um falso astrólogo que tenta arranjar o casamento de sua filha com um velho endividado.
Só que, claro — bem no espírito de Molière — há:
- amante rebelde
- servo esperto
- e uma sequência de situações farsescas desmontando a fraude
Uma crítica direta à crença cega — tema clássico do autor, atualizado via IA.
IA também criou figurino, cenário… e até errou feio
A inteligência artificial não parou no roteiro.
Ela também participou de:
- criação de figurinos
- concepção de cenários
- referências visuais do século XVII
Com direito a bugs criativos: em um momento, a IA sugeriu roupas cobertas de sapos — confundindo um termo técnico da moda da época com o animal literal.
Apesar disso, o resultado final dependeu fortemente de artesãos humanos, que produziram tudo manualmente para manter fidelidade histórica.
Limites da IA: música ainda precisa de humanos
Se texto e imagem avançaram, a música ainda mostrou limites.
A equipe precisou recorrer a musicólogos para compor trilhas compatíveis com o período, já que a IA teve dificuldade com a escassez de dados históricos nessa área.
Estreia em Versailles (com turnê global no radar)
A peça estreia em maio de 2026 na Ópera Real de Versailles — um palco carregado de simbolismo, já que Molière teve apoio da corte de Luís XIV.
Depois, a produção deve circular pela França e potencialmente pelo circuito internacional.
IA não substitui artistas — amplifica
Talvez o ponto mais interessante do projeto não seja o resultado final, mas o processo.
A conclusão dos criadores é clara:
a IA não substitui o artista — ela funciona como ferramenta de experimentação, remix e expansão criativa.
No fundo, como o próprio Molière já fazia:
reaproveitar, recombinar e reinventar histórias existentes.
Só que agora… com um copiloto algorítmico.
Fonte: Le Monde
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