Música
Suno, Udio e a batalha pelo direito de criar música com IA
A música com inteligência artificial passou muito rápido da fase “olha que bizarro esse Drake falso” para a fase “chama o jurídico, chama o investidor e chama o departamento de licenciamento”. O que até pouco tempo parecia um brinquedo de meme, uma curiosidade para viralizar no TikTok ou um delírio tecnófilo de artista futurista, virou um dos centros nervosos da indústria musical.
Hoje, plataformas como Suno e Udio conseguem gerar faixas completas em poucos minutos, com voz, letra, arranjo, mixagem e estética de gênero. Ao mesmo tempo, gravadoras como Universal, Sony e Warner processam, negociam, fazem acordos e tentam transformar o caos em contrato. Segundo a Pitchfork, a música por IA já não é um fenômeno marginal: ela entrou nas paradas, nos acordos de licenciamento, nas disputas de copyright e nos planos estratégicos das majors.
A treta central é simples de entender e difícil de resolver: essas plataformas são ferramentas criativas legítimas ou máquinas treinadas em cima de catálogos protegidos sem autorização? Em junho de 2024, a RIAA anunciou processos contra Suno e Udio, acusando as empresas de uso massivo de gravações protegidas por direitos autorais para treinar sistemas de geração musical.
Desde então, a guerra saiu do campo puramente judicial e entrou no campo do “vamos negociar antes que alguém perca tudo”. Universal e Udio chegaram a um acordo em 2025 para desenvolver uma plataforma licenciada de criação musical com IA. Warner também fechou acordos com Udio e Suno, resolvendo litígios e preparando modelos licenciados para 2026.
Ou seja: a velha indústria não está apenas tentando matar a IA musical. Está tentando domesticá-la, colocar coleira, cobrar pedágio e transformar cada prompt em nova linha de receita.
Suno: a estrela pop da IA musical
A Suno é hoje a empresa mais visível desse novo ecossistema. Lançada publicamente em dezembro de 2023, a plataforma popularizou a promessa direta: criar qualquer música que você imaginar. O usuário digita um prompt, escolhe estilos, ajusta parâmetros e recebe uma faixa com vocal, letra, instrumentação e estrutura pop pronta para circular.
A Pitchfork destaca que a Suno afirma gerar cerca de 7 milhões de músicas por dia, um número que ajuda a explicar tanto o fascínio quanto o pânico da indústria. Porque, se a música vira uma torneira infinita, a pergunta deixa de ser apenas “quem cria?” e passa a ser “quem filtra, quem monetiza e quem paga a conta dos direitos?”.
A empresa foi processada por gravadoras, mas o cenário começou a mudar quando a Warner Music Group fechou um acordo com a plataforma. Pelo anúncio da própria Warner, a parceria prevê novos modelos licenciados em 2026, substituição dos modelos atuais e restrições para downloads, especialmente em músicas criadas na camada gratuita.
A Reuters também informou que o acordo resolveu o processo da Warner contra a Suno e abriu caminho para modelos licenciados, enquanto Universal e Sony continuavam em litígio contra a empresa. Aqui está o ponto quente: a Suno virou grande demais para ser ignorada, mas ainda polêmica demais para ser plenamente absorvida pela indústria tradicional.
Udio: da explosão viral ao jardim murado
A Udio surgiu em abril de 2024 com credenciais de peso: ex-pesquisadores do Google DeepMind e apoio de investidores como a Andreessen Horowitz. Assim como a Suno, vende a ideia de música completa gerada por prompt. Mas sua trajetória recente mostra um movimento diferente: sair da internet aberta e caminhar para um modelo mais controlado, licenciado e fechado.
A plataforma ficou conhecida também por ter sido usada na criação de “BBL Drizzy”, faixa viral associada ao universo das diss tracks e da cultura remix. Mas a fama veio junto com processo. Udio e Suno foram alvo das ações das majors em 2024.
Em 2025, a Universal anunciou acordo com a Udio para criar uma nova plataforma licenciada de música com IA. A AP noticiou que, após o acordo, a Udio deixou de oferecer downloads de músicas geradas por IA, provocando reação negativa de usuários. A Warner também anunciou acordo semelhante com a Udio, estabelecendo uma estrutura para um serviço licenciado de criação musical com lançamento previsto para 2026.
Na prática, a Udio virou símbolo de uma tendência: a IA musical pode até nascer como ferramenta aberta, mas as majors preferem que ela viva dentro de um cercadinho bem iluminado, com controle de uso, licenciamento e dinheiro voltando para os donos dos catálogos.
Boomy: democratização, ruído e o fantasma da fraude
A Boomy é anterior à explosão Suno/Udio. Lançada em 2021, ela se posicionou como uma ferramenta para pessoas sem experiência musical criarem faixas rapidamente, com controles de gênero, andamento, instrumentos, mixagem e voz.
O problema é que a Boomy acabou associada a uma das histórias mais espinhosas da nova música automatizada: o caso Michael Smith. O Departamento de Justiça dos EUA acusou Smith de usar músicas geradas com IA e bots para fraudar plataformas de streaming e obter milhões de dólares em royalties.
Em março de 2026, o Guardian noticiou que Smith se declarou culpado de conspiração para cometer fraude eletrônica, em um esquema que teria usado músicas geradas por IA e audições automatizadas para desviar mais de US$ 10 milhões em royalties.
Esse caso é importante porque mostra o lado mais podre do “conteúdo infinito”: se qualquer um pode gerar milhares de faixas, criar artistas falsos e simular audiência, o streaming vira um cassino de robôs. E, nesse cassino, quem perde primeiro é o artista humano que já recebia pouco.
ElevenLabs: quando a voz vira território de guerra
A ElevenLabs ficou mais conhecida por ferramentas de voz sintética, clonagem vocal e dublagem com IA. No universo musical, isso toca num nervo exposto: a voz é identidade, marca, presença, corpo, assinatura emocional. Clonar uma voz não é a mesma coisa que gerar uma batida genérica.
Segundo a Pitchfork, a ElevenLabs ainda não fechou grandes acordos com gravadoras, mas já se aproximou do campo musical por meio de projetos envolvendo vozes sintéticas e figuras reconhecíveis. A empresa também enfrentou processo movido por dubladores e autores, que alegaram uso indevido de vozes a partir de audiolivros protegidos.
No fundo, a ElevenLabs representa uma camada específica da revolução: não é apenas “fazer música com IA”, mas manipular presença vocal. E isso é dinamite jurídica, artística e emocional.
Klay Vision: a startup misteriosa que agradou as majors
A Klay Vision é um caso curioso. Ainda sem um produto amplamente consolidado no mercado, a empresa ganhou atenção por buscar um caminho mais diplomático: licenciamento antes da guerra total.
A Pitchfork descreve a Klay como uma startup com pouco produto público, mas muito discurso de mercado, incluindo ambições de criar uma plataforma de streaming e uma rede social musical. O ponto mais relevante é que a empresa aparece associada a acordos com as três grandes gravadoras e suas editoras, um diferencial enorme num setor em que outras startups começaram sendo processadas.
É o modelo “não peça desculpas depois, peça licença antes”. Pode ser menos punk, menos viral e menos sexy para o usuário final, mas é exatamente o tipo de estratégia que costuma deixar advogado de major dormindo melhor.
Splice: IA para produtor, não para turista de prompt
A Splice já era relevante antes da febre generativa. Sua biblioteca de samples royalty-free virou parte do fluxo de trabalho de produtores de pop, eletrônica, hip-hop e música comercial. A diferença é que a IA, no caso da Splice, entra menos como “aperte um botão e receba uma música” e mais como ferramenta para encontrar, recombinar e transformar sons.
A própria Splice afirma que começou sua trajetória de IA voltada a criadores em 2019 com o Similar Sounds, ferramenta que usa machine learning para encontrar sons parecidos no catálogo. Em 2026, a empresa anunciou novas ferramentas de IA voltadas à compensação de criadores de samples quando seus sons são usados como fonte ou variação.
Esse é um caminho importante porque muda o enquadramento: em vez de substituir o produtor por um prompt, a IA vira uma extensão do estúdio. Menos “robô compositor” e mais “assistente de produção turbinado”.
Loudly e Soundraw: música funcional, royalty-free e mercado de fundo
Nem toda música com IA quer disputar o Grammy, imitar Drake ou ressuscitar Freddie Mercury em versão deepfake. Plataformas como Loudly e Soundraw miram um mercado gigantesco e menos glamouroso: trilhas, música de fundo, vídeos corporativos, redes sociais, games, publicidade barata, conteúdo de creator e sonorização sob demanda.
A Pitchfork aponta que a Loudly oferece geração por prompt, remix, compatibilidade com DAWs e distribuição, enquanto a Soundraw se posiciona como solução para música de fundo royalty-free, com material criado internamente.
Esse é talvez o setor mais silenciosamente ameaçador para compositores de biblioteca, produtores de trilha branca e músicos que vivem de sync pequeno. A IA pode não matar o artista pop, mas pode esmagar o mercado intermediário de música funcional — aquele jingle, aquela trilha de vídeo institucional, aquele loop de fundo que pagava o aluguel de muita gente.
Music Flamingo e a IA que não compõe: analisa
Outro ramo da corrida não é a geração, mas a análise musical. A Pitchfork cita o Music Flamingo, ligado à Nvidia, como uma plataforma voltada à compreensão de estrutura, instrumentação, letra e contexto cultural da música.
Esse tipo de IA não entra necessariamente para criar canções, mas para organizar, recomendar, classificar e extrair sentido de catálogos gigantescos. É uma camada menos visível para o público, mas altamente estratégica para gravadoras, plataformas de streaming e empresas que querem transformar gosto musical em dado acionável.
Aqui mora uma das partes mais assustadoras — e lucrativas — da história: a IA não precisa compor a próxima música para controlar o mercado. Ela pode simplesmente decidir qual música será descoberta.
A grande virada: de processo para licenciamento
O que está acontecendo agora é uma migração do conflito bruto para o contrato. Em 2024, as majors bateram forte em Suno e Udio. Em 2025 e 2026, começaram a aparecer acordos, modelos licenciados, plataformas fechadas, opt-in de artistas, controle de voz, nome, imagem e composição.
Isso não significa paz. Significa que a indústria percebeu que a IA musical não vai desaparecer. O novo jogo é decidir quem fica com o dinheiro quando a máquina canta.
Para os artistas, o cenário é ambíguo. Há oportunidades reais: novas ferramentas de composição, produção barata, experimentação estética, prototipagem rápida e distribuição criativa. Mas há também riscos brutais: diluição de mercado, clonagem de estilo, contratos abusivos, perda de controle sobre voz e imagem, além de um oceano de conteúdo sintético empurrando o valor médio da música ainda mais para baixo.
Para as gravadoras, a IA é ameaça e salvação ao mesmo tempo. Ela pode corroer o valor dos catálogos, mas também pode gerar novas receitas se for licenciada, cercada e convertida em produto corporativo.
Para startups, o recado é claro: crescer rápido demais sem acordo pode virar processo. Pedir licença cedo demais pode matar a cultura de usuário. O equilíbrio entre revolução e submissão ao velho mercado será a linha fina dessa década.
O que isso significa para a MVAI
Para a MVAI, a leitura é direta: a música com IA já entrou na fase industrial. Não estamos mais falando só de curiosidade tecnológica. Estamos falando de cadeia produtiva, catálogo, vídeo, artista virtual, licenciamento, distribuição, branding, publicidade, sync, comunidades e monetização.
A oportunidade não está apenas em gerar música. Isso qualquer ferramenta fará cada vez melhor. A oportunidade está em criar linguagem, narrativa, personagem, videoclipe, comunidade, estética, curadoria e modelo de negócio.
A nova indústria musical será menos parecida com uma gravadora tradicional e mais parecida com uma mistura de estúdio audiovisual, laboratório de IA, agência de publicidade, selo musical, canal de mídia e fábrica de propriedade intelectual.
Suno e Udio abriram a porteira. As majors tentam colocar cerca. Mas o território ainda está em disputa.
E, como sempre acontece quando uma tecnologia nova bagunça o coreto, quem entender antes que a música agora é software, mídia e personagem ao mesmo tempo vai sair na frente. Quem achar que é só “apertar um botão e fazer musiquinha” vai virar figurante no próprio futuro.
Fonte: Pitchfork
Música
Dr. Dre abraça a IA na música: “É uma nova ferramenta para a criatividade”
Um dos produtores mais influentes da história do hip-hop já está usando inteligência artificial dentro do estúdio.
Dr. Dre afirmou que não considera a IA uma ameaça à música e comparou a resistência atual à tecnologia com a desconfiança que cercou, décadas atrás, a chegada dos sintetizadores e das baterias eletrônicas.
“É uma nova ferramenta para a criatividade”, declarou o produtor em entrevista ao The New York Times ao lado do empresário Jimmy Iovine, segundo a Billboard.
Dre revelou também que já utiliza IA em seu processo de produção. A ideia, segundo ele, não é simplesmente pedir que uma máquina faça uma música, mas usar a tecnologia para experimentar novas possibilidades a partir de algo que ele próprio criou.
Em outras palavras: humano primeiro, IA depois.
O produtor afirmou que usa a ferramenta para observar o que a inteligência artificial consegue fazer com um material que acabou de produzir. E foi além: disse que está abraçando a tecnologia e quer descobrir até onde ela poderá chegar.
Jimmy Iovine: artistas talentosos poderão fazer discos melhores
Jimmy Iovine, parceiro histórico de Dre e cofundador da Beats, também adotou uma posição claramente favorável.
Para ele, a existência de IA não eliminará música ruim — porque música ruim sempre existiu. Mas produtores e artistas talentosos poderão usar essas novas ferramentas para criar trabalhos melhores.
A dupla conhece bem esse tipo de transformação tecnológica. Dre e Iovine criaram a Beats Electronics e a Beats Music, negócios vendidos à Apple em 2014 por mais de US$ 3 bilhões.
A discussão já mudou
A questão que começa a dominar a indústria talvez já não seja simplesmente “usar ou não usar IA?”, mas como ela será usada, identificada e remunerada.
Em julho de 2026, IFPI, RIAA, Grammy Awards, SAG-AFTRA e outras organizações anunciaram uma proposta internacional de identificação das gravações que separa duas categorias: “AI-Generated”, para músicas cuja parte criativa principal foi produzida por IA, e “AI-Assisted”, para obras essencialmente humanas que utilizaram IA em determinados elementos.
A própria Apple já acrescentou à especificação técnica do Apple Music campos de transparência para informar quando IA foi utilizada de maneira relevante em gravações, composições, artes ou videoclipes.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre direitos autorais continua aberta. Gravadoras, músicos e empresas de tecnologia negociam quem pode autorizar o treinamento de modelos, quem recebe e como artistas devem ser creditados e remunerados. Alguns acordos de licenciamento já começam a substituir a fase inicial de confronto judicial por modelos comerciais envolvendo catálogos e ferramentas de IA.
Ferramenta ou substituição?
A declaração de Dr. Dre toca justamente no ponto central dessa nova fase.
Baterias eletrônicas não eliminaram bateristas. Sintetizadores não acabaram com instrumentos acústicos. Computadores não acabaram com produtores musicais.
Eles mudaram quem podia produzir, quanto custava produzir e quais sons podiam existir.
A inteligência artificial pode representar uma transformação ainda maior.
A diferença estará na maneira como artistas e produtores decidirem utilizá-la — e nas regras que a indústria estabelecer para garantir autoria, consentimento, crédito e remuneração.
Para Dr. Dre, pelo menos, a escolha já foi feita:
a IA entrou no estúdio.
Música
Universal, Sony e Warner propõem regras para músicas com IA nos rankings
Universal, Sony, Warner e selos independentes propõem novas regras para definir quando uma música criada com inteligência artificial poderá aparecer nos rankings oficiais.
As maiores gravadoras do mundo querem estabelecer uma fronteira entre a música produzida com auxílio da inteligência artificial e as gravações criadas quase inteiramente por máquinas.
Universal Music Group, Sony Music e Warner Music Group se uniram a empresas como BMG, Concord, Believe, HYBE, Glassnote e Mom+Pop para apresentar princípios globais de elegibilidade para músicas desenvolvidas com IA generativa.
Pela proposta, uma gravação que utilize inteligência artificial somente poderia aparecer nas paradas oficiais se fosse “substancialmente criada por humanos”. O sistema utilizado também precisaria ser legal, autorizado e treinado com materiais devidamente licenciados.
IA não está proibida
A proposta não representa uma proibição completa da inteligência artificial na música.
Ferramentas generativas poderiam continuar sendo utilizadas na composição, na produção e na criação de elementos sonoros. O ponto central seria preservar uma participação humana reconhecível no processo artístico.
O problema é que a expressão “substancialmente criada por humanos” ainda não possui uma definição objetiva. Não está claro, por exemplo, quanto de uma voz, instrumento, arranjo ou produção poderia ser gerado antes de uma faixa deixar de ser considerada uma criação humana.
Também não há, por enquanto, confirmação de que organizações como Billboard ou Official Charts adotarão as regras sugeridas pelas gravadoras. Trata-se de uma proposta apresentada à indústria, não de uma norma mundial já em vigor.
Música gerada ou assistida por IA?
O movimento complementa outro projeto anunciado por organizações como IFPI, RIAA, Grammy Awards, SAG-AFTRA e associações de gravadoras independentes.
O sistema propõe dois tipos de identificação:
AI-Generated: quando a IA produziu a totalidade ou a parte principal dos elementos criativos, como a voz principal, os instrumentos centrais ou toda a música a partir de comandos.
AI-Assisted: quando a obra foi criada principalmente por pessoas, mas utilizou IA generativa em determinados elementos.
Pelas regras sugeridas para os rankings, gravações classificadas como totalmente geradas por IA não seriam elegíveis. Já as músicas assistidas por IA poderiam participar, desde que cumprissem as exigências de autoria, licenciamento, transparência e legalidade.
O problema dos streams artificiais
A preocupação das gravadoras não está apenas na autoria.
As novas regras também procuram combater músicas produzidas em grande escala para manipular plataformas, gerar reproduções automáticas e retirar dinheiro do sistema de royalties.
Em julho de 2026, a Deezer informou que recebia aproximadamente 90 mil músicas geradas por IA por dia, o equivalente a mais da metade dos novos arquivos enviados à plataforma. Apesar do volume, esse conteúdo representa entre 1% e 3% das reproduções da empresa. Segundo a Deezer, até 85% dos streams registrados em faixas totalmente geradas por IA podem ser fraudulentos e são retirados do cálculo de royalties.
Uma pesquisa encomendada pela plataforma também mostrou que 80% dos entrevistados defendem a identificação das músicas totalmente geradas por IA. Outros 52% acreditam que essas gravações não deveriam disputar as mesmas paradas das músicas feitas por artistas humanos.
O verdadeiro debate
A discussão já não é simplesmente aceitar ou rejeitar a inteligência artificial.
As próprias grandes gravadoras estão fechando acordos com empresas de IA que utilizam catálogos licenciados. Universal, Sony e Warner, por exemplo, assinaram contratos com a plataforma KLAY, que afirma treinar seu modelo musical exclusivamente com obras autorizadas.
A disputa real envolve autoria, consentimento, licenciamento e transparência.
A IA já faz parte do processo criativo. O desafio será separar a tecnologia usada como instrumento artístico das fábricas automatizadas de conteúdo criadas para ocupar catálogos, manipular rankings e capturar royalties.
A pergunta que a indústria precisará responder agora é mais complexa: onde termina a ferramenta e começa a substituição do artista?
Fontes principais: The Verge, Sony Music, IFPI, RIAA, Deezer e Music Business Worldwide.
Música
Nasi peitou o medo da inteligência artificial — e fez história com “Perigoso”
Em “nAsI – Artificial Intelligence”, o vocalista do Ira! entregou suas próprias canções à transformação algorítmica, atravessou o samba, o trap, a cumbia e o boogaloo e conquistou o maior público de seu canal com um videoclipe político sobre imigração
Nasi poderia ter escondido a inteligência artificial nos créditos. Poderia ter chamado o processo de experimentação digital, programação musical ou pós-produção avançada. Poderia, sobretudo, ter usado a tecnologia silenciosamente, evitando a reação de uma classe artística que ainda discute direitos autorais, substituição de músicos e os limites éticos das plataformas generativas.
Ele fez o contrário.
Colocou a expressão “Artificial Intelligence” no título do trabalho, estampou uma versão cibernética de si próprio na comunicação visual e declarou, antes mesmo do lançamento, que sabia que receberia críticas. “Alguns vão jogar pedras, mas não estou nem aí”, afirmou ao apresentar o projeto.
Mais do que uma provocação, a frase define o espírito de “nAsI – Artificial Intelligence”, trabalho solo de seis faixas lançado em 24 de abril de 2026 pela Ditto Music. Em vez do rock e do blues normalmente associados à sua carreira, Nasi mergulhou em ritmos latino-americanos e caribenhos, utilizando ferramentas de IA para desmontar e reconstruir músicas de seu próprio catálogo.
O resultado ultrapassou o terreno da curiosidade tecnológica. O videoclipe de “Perigoso” chegou à casa de 1 milhão de visualizações, tornando-se, com enorme distância, o maior sucesso do canal oficial do cantor no YouTube.
A última medição pública indexada antes da virada apontava 997.696 reproduções. No mesmo momento, “Polvo en los Ojos” aparecia com cerca de 132 mil, “Alma Nocturna” com 92 mil e “Ogun” com 37 mil. “Perigoso”, portanto, alcançou mais de sete vezes a audiência do segundo videoclipe mais visto do projeto — uma escala inédita para o canal solo do vocalista do Ira!.
Não é apenas um número. É a confirmação de que o público não rejeitou automaticamente a experiência. Ao contrário: foi justamente a obra mais explicitamente atravessada pela estética, pela narrativa e pela controvérsia da IA que encontrou a maior audiência.
A máquina não compôs a história de Nasi
Existe uma distinção importante. “Artificial Intelligence” não é um álbum de músicas compostas do zero por uma máquina, nem utiliza uma imitação artificial da voz de Nasi.
As seis composições já existiam. Pertencem ao repertório solo do cantor e foram escolhidas por ele para sofrer transformações de gênero, harmonia, arranjo, instrumentação e atmosfera. A voz principal continua sendo a de Nasi, gravada em estúdio. A IA entra como ferramenta de reorganização e geração instrumental, trabalhando a partir de decisões, referências e sucessivas seleções humanas.
O processo começou na colaboração com Augusto Junior, músico ligado ao projeto Fake Music. Segundo Nasi, os primeiros testes eram mais limitados, mas a evolução dos programas permitiu alterar não apenas o acompanhamento, como também estruturas harmônicas e melódicas. As versões geradas eram avaliadas, descartadas ou refinadas até que o artista encontrasse uma direção que pudesse assumir como sua.
A ficha técnica revela um trabalho híbrido. Nasi assina a produção; Augusto Junior aparece como programador de IA e responsável pelas artes de capa e singles; Jeff Berg cuidou da engenharia das gravações, mixagem e masterização. Nanda Moura divide os vocais de “Alma Nocturna”; Johnny Boy participa dos vocais de apoio em “Perigoso”; Jonas Moncaio toca violoncelo em “Feitiço na Rua 23”; e Bruno Belasco grava trompete em “Perigoso”.
É justamente aí que o álbum ganha relevância histórica. Nasi não apresentou a inteligência artificial como substituta absoluta do músico. Criou um laboratório no qual repertório humano, voz real, instrumentistas, programação e produção algorítmica ocupam a mesma gravação.
“Foi uma brincadeira que ficou séria”, resumiu o cantor. Embora tenha dito que o projeto não define obrigatoriamente o futuro de sua carreira, Nasi afirmou não ter dúvidas de que o futuro da música passará pela interação entre o humano e o artificial.
Os seis videoclipes de “Artificial Intelligence”
O projeto não termina no áudio. As seis faixas receberam presença audiovisual no canal oficial de Nasi, formando uma espécie de álbum visual no qual a transformação musical encontra diferentes linguagens de animação, colagem, cinema de gênero e imagens geradas ou trabalhadas com inteligência artificial.
“Corpo Fechado”: o rock entra na roda de samba
Lançada originalmente no álbum “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”, de 2006, “Corpo Fechado” possuía uma base de blues e soul ligada à tradição da gravadora Stax. Para o novo projeto, Nasi direcionou a IA a produzir um samba de partido-alto inspirado em nomes como Martinho da Vila, João Nogueira, Agepê e Noriel Vilela.
O primeiro resultado, segundo o cantor, parecia um pagode genérico. Foi descartado. Somente depois que ele passou a fornecer referências mais específicas surgiu a versão definitiva. Essa sequência mostra que a máquina não trouxe uma solução autônoma e perfeita: foi necessário repertório cultural para que Nasi soubesse explicar o que buscava — e discernimento artístico para rejeitar o que não funcionava.
Lançado em 23 de janeiro, quando Nasi completou 64 anos, o single abriu oficialmente o projeto. A arte associada à faixa apresentou uma versão rejuvenescida do cantor na Lapa, aproximando memória musical, cultura popular carioca e fabricação digital. O videoclipe acumulava aproximadamente 8,8 mil visualizações na última medição indexada.
“Feitiço na Rua 23”: trap encontra o cinema de terror
“Feitiço na Rua 23” veio do álbum “Perigoso”, lançado em 2011. Na gravação original, a canção carregava elementos de rockabilly e surf music, além de uma narrativa sombria sobre uma mulher que teria sido afastada do protagonista por meio de um feitiço.
Na nova versão, guitarras e clima retrô cedem espaço ao trap. O violoncelo de Jonas Moncaio acrescenta uma camada humana e dramática à instrumentação predominantemente gerada com IA.
O videoclipe transforma a atmosfera da letra em uma colagem bem-humorada de horror clássico. Imagens e referências a “Drácula”, “Nosferatu” e “A Noite dos Mortos-Vivos” são reorganizadas para acompanhar a atualização sonora. A direção de arte e IA foi creditada a Ruy Araujo, da Motim Underground.
É o vídeo de audiência mais modesta do conjunto, com pouco mais de 360 reproduções na captura consultada. A disparidade, no entanto, ajuda a mostrar como os clipes tiveram trajetórias muito diferentes — e como “Perigoso” rompeu completamente a curva normal do canal.
“Perigoso”: um galo chamado Nasi enfrenta Trump
“Perigoso” é o centro simbólico do álbum.
A composição apareceu originalmente como um country-rock gravado com Renato Teixeira. Na versão de 2026, tornou-se um corrido mexicano, gênero narrativo profundamente ligado à cultura popular do México e que, em uma de suas ramificações, originou os chamados narcocorridos.
Nasi percebeu que o formato permitia aproximar a canção do debate sobre imigração e da tensão na fronteira entre México e Estados Unidos. O videoclipe foi construído como uma animação protagonizada por um galo inspirado no próprio cantor, que entra em confronto com um “galo Trump”.
A fábula denuncia a contradição de uma sociedade que depende historicamente do trabalho de imigrantes, mas passa a apoiar sua perseguição e deportação. É política transformada em desenho animado, corrido digital e sátira — sem esconder a posição de seu autor.
Musicalmente, a gravação preserva elementos humanos importantes: Johnny Boy aparece nos vocais de apoio e Bruno Belasco no trompete. Visualmente, o vídeo trabalha com uma linguagem mais imediatamente comunicativa do que os demais, com personagens reconhecíveis, conflito claro e uma narrativa que pode ser compreendida mesmo fora do contexto do álbum.
Essa combinação ajuda a explicar por que “Perigoso” escapou da bolha habitual do canal. O clipe não depende apenas da novidade de ter sido realizado com IA. Ele possui personagem, antagonista, fronteira geográfica, comentário político e humor visual. A tecnologia é o meio; a história continua sendo o motor.
Ao chegar a 1 milhão de visualizações, “Perigoso” não apenas estabeleceu o recorde do canal solo de Nasi. Também demonstrou que um artista veterano pode usar inteligência artificial sem abandonar sua identidade, sua voz ou sua disposição para o confronto.
“Polvo en los Ojos”: Coltrane atravessa o Caribe
“Polvo en los Ojos” retoma “Poeira nos Olhos”, gravada por Nasi e os Irmãos do Blues em 2001. A composição nasceu como uma adaptação autorizada de “Equinox”, de John Coltrane, e reaparece agora cantada em espanhol e revestida por um arranjo afrocubano próximo do universo do Buena Vista Social Club.
Nasi afirmou ter ficado especialmente impressionado com o naipe de metais produzido para a faixa. O resultado lhe pareceu tão preciso que também revelou uma limitação da tecnologia: a perfeição excessiva pode retirar da música as pequenas oscilações, sujeiras e imperfeições responsáveis pela sensação de presença humana.
Essa tensão — fascínio e desconfiança ao mesmo tempo — é um dos melhores argumentos do álbum. Nasi não se comporta como propagandista ingênuo da IA. Ele se permite admirar a capacidade da ferramenta e, simultaneamente, identificar o ponto em que a execução começa a soar artificial demais.
O videoclipe aparecia como o segundo mais assistido do projeto, com aproximadamente 132 mil visualizações, mostrando que a abertura latino-americana do disco encontrou público para além da faixa viral.
“Alma Nocturna”: tango, cumbia e encontro de vozes
“Alma Noturna” foi lançada em 2015 e nasceu de uma parceria de Nasi e Johnny Boy com Kiko Dinucci, responsável pela letra. A versão original se aproximava dos afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
Em “Artificial Intelligence”, a música é traduzida para o espanhol e passa a combinar a dramaticidade do tango com a pulsação dançante da cumbia colombiana. Nanda Moura divide os vocais com Nasi, garantindo que o centro emocional da faixa permaneça diretamente humano.
O videoclipe amplia a dimensão de dueto e de deslocamento cultural presente na gravação. Entre os vídeos do álbum, aparecia com aproximadamente 92 mil visualizações — audiência bastante superior à média histórica do canal antes do novo projeto.
“Ogun”: do blues-rock ao baile porto-riquenho
Gravada originalmente no álbum “Vivo na Cena”, de 2010, “Ogum” era uma composição de blues-rock pesado. Sua nova encarnação, intitulada “Ogun”, troca a massa das guitarras por um boogaloo porto-riquenho, gênero surgido do contato entre ritmos latinos, soul, jazz e rhythm and blues.
O arranjo remete aos momentos mais festivos de Tito Puente e transforma a canção em música de baile. Não se trata de apenas trocar timbres: a nova levada modifica a postura da voz de Nasi, a circulação rítmica e o significado corporal da faixa.
O videoclipe fecha o arco latino do álbum e somava cerca de 37 mil visualizações na medição consultada. É mais um exemplo de como “Artificial Intelligence” permitiu que um cantor identificado há quatro décadas com o rock paulista experimentasse territórios que dificilmente seriam reunidos em um disco convencional.
A repercussão: curiosidade, resistência e cautela
O anúncio do projeto despertou atenção antes mesmo de o álbum ficar pronto. A Folha de S.Paulo apresentou Nasi como o primeiro artista brasileiro de grande reconhecimento a preparar um álbum desse tipo e descreveu sua atitude como a de alguém disposto a “abraçar o monstro” que boa parte da classe musical teme.
A Rolling Stone Brasil adotou uma distinção importante: as músicas não foram criadas pela IA, já que pertenciam previamente ao repertório de Nasi. A tecnologia foi usada para produzir novas versões e reorganizar o material existente. Essa formulação evita tanto o exagero promocional quanto a falsa ideia de que o cantor apenas apertou um botão e aceitou o primeiro resultado.
Band, Novabrasil, Kiss FM, R7, Blog n’Roll, Sonoridade Underground e outros veículos destacaram a passagem do rock para gêneros como samba, trap, corrido, cumbia, tango e boogaloo. A cobertura foi majoritariamente curiosa e descritiva: reconheceu o caráter experimental, explicou o processo híbrido e reproduziu a defesa de Nasi de que a IA deveria funcionar como ferramenta de interação, não como destino único da música.
A repercussão internacional, porém, ainda não possui a mesma dimensão da cobertura brasileira. O peso histórico do projeto está, por enquanto, menos em uma consagração crítica global e mais na posição ocupada por Nasi: a de um artista popular, com uma carreira consolidada desde a explosão do rock brasileiro, assumindo publicamente uma tecnologia que muitos de seus contemporâneos preferem combater ou ignorar.
Nasi e Timbaland: pioneiros, mas com uma ressalva histórica
Colocar Nasi ao lado de Timbaland é uma comparação pertinente — desde que se explique o recorte.
Em 2025, Timbaland lançou a empresa Stage Zero e apresentou TaTa, uma artista virtual construída com ferramentas de inteligência artificial. O produtor, que também se tornou consultor da plataforma Suno, passou a defender uma nova categoria chamada por ele de “A-Pop”. Sua proposta não é apenas usar IA nos arranjos, mas desenvolver personagens, propriedade intelectual e sistemas inteiros de produção musical artificial.
Nasi segue pelo caminho oposto e complementar. Em vez de fabricar uma artista virtual, parte de uma autoria inequivocamente humana: sua voz, suas composições, sua biografia, sua interpretação e seu posicionamento político. A IA é convocada para fazer o repertório atravessar fronteiras estilísticas que talvez fossem inviáveis em uma produção convencional.
Nesse sentido específico — artistas veteranos, consagrados pela indústria tradicional e dispostos a colocar a IA generativa no centro público de um novo projeto — Nasi e Timbaland realmente formam uma dupla rara.
Mas não seria historicamente correto afirmar que foram os únicos pioneiros mundiais. Em 2018, Taryn Southern lançou “I AM AI”, álbum pop composto com auxílio de sistemas como Amper Music, IBM Watson Beat, NSynth e AIVA. Em 2019, Holly Herndon lançou “PROTO”, trabalhando com Spawn, uma inteligência artificial treinada em sessões com vozes humanas.
A formulação mais forte e defensável é outra: Nasi está entre os primeiros grandes nomes da música popular brasileira e entre os raros veteranos do rock mundial a assumir frontalmente a inteligência artificial generativa como eixo de um álbum e de sua identidade audiovisual. No cenário internacional da música mainstream contemporânea, Timbaland é seu paralelo mais evidente.
Nasi não pediu desculpas por experimentar
O aspecto mais radical de “Artificial Intelligence” talvez não esteja nos instrumentos artificiais, nas animações ou nas traduções para o espanhol.
Está na ausência de pedido de desculpas.
Nasi não apresentou o álbum como uma demonstração tecnológica neutra. Também não fingiu que a ferramenta não levantava problemas. Reconheceu que a perfeição pode desumanizar uma gravação, defendeu a participação de músicos e afirmou que o caminho ideal seria a colaboração entre IA, instrumentistas e arranjadores.
Ao mesmo tempo, recusou o medo como política criativa.
O vocalista do Ira! entregou à máquina canções que já haviam sobrevivido ao blues, ao rock, aos palcos e ao tempo. Depois, escolheu o que permanecia, gravou novamente sua voz e transformou os resultados em uma obra assinada. Não permitiu que a inteligência artificial falasse por ele; obrigou a tecnologia a entrar em seu universo.
“Perigoso” chegar a 1 milhão de visualizações é a consequência mais visível dessa coragem. Um clipe produzido fora da estrutura das grandes gravadoras, publicado em um canal de pouco mais de mil inscritos e protagonizado por uma animação política atravessou a barreira que nenhum outro vídeo solo de Nasi havia alcançado.
Pode-se gostar ou não do resultado. Pode-se questionar a qualidade de determinadas gerações, a procedência dos bancos de treinamento e o impacto econômico dessas ferramentas. São debates necessários.
O que já não pode ser negado é que Nasi esteve lá.
Enquanto boa parte da música brasileira discutia se deveria abrir a porta, ele entrou, observou o monstro de perto, colocou-o para tocar samba, trap, corrido mexicano, cumbia e boogaloo — e saiu do outro lado com o maior videoclipe de seu canal.
Nasi peitou o medo. E, com “Artificial Intelligence”, escreveu um dos primeiros capítulos realmente populares da música generativa brasileira.
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