Cinema
IA em Cannes: diretores migram do pânico para a curiosidade — e o debate racha o festival
Durante muito tempo, a inteligência artificial foi tratada em Hollywood como uma ameaça quase existencial: uma máquina pronta para substituir roteiristas, atores, técnicos, montadores, artistas visuais e, no limite, a própria ideia de autoria. Em Cannes, porém, esse debate começa a mudar de temperatura. O medo não desapareceu, mas já divide espaço com uma pergunta mais prática: como usar a IA sem entregar a ela o comando da criação?
A mudança de tom foi percebida em diferentes conversas na Croisette. A reportagem do The Hollywood Reporter descreve um grupo crescente de cineastas defendendo que a tecnologia deve servir ao artista, não substituí-lo. A mesma leitura aparece em cobertura do TheWrap, segundo a qual a IA deixou de ser vista apenas como ameaça por parte dos profissionais do cinema e passou a despertar curiosidade sobre seu uso para tornar produções mais viáveis economicamente.
O ponto central é menos “cinema feito por IA” e mais “cinema feito com IA”. Essa diferença, aparentemente sutil, é decisiva. Para muitos realizadores, a tecnologia pode acelerar efeitos visuais, pré-visualização, dublagem, restauração, montagem, pesquisa de imagem e processos repetitivos de pós-produção. Mas a concepção estética, a direção de atores, a dramaturgia e o olhar autoral continuam sendo territórios humanos.
Um exemplo citado na cobertura internacional é o do cineasta francês Xavier Gens. Em reportagem da Reuters publicada pelo Deccan Herald, ele afirmou que, com IA, poderia realizar certos efeitos visuais em três meses em vez de um ano, reduzindo custos de 4 milhões para 2 milhões de euros. A frase resume uma das forças que empurram o setor para a adoção: em uma indústria pressionada por orçamentos menores, bilheterias instáveis e competição com plataformas digitais, economia de tempo e dinheiro pesa muito.
Mas Cannes também mostrou que a aceitação da IA não vem sem atrito. Steven Soderbergh levou ao festival o documentário “John Lennon: The Last Interview”, construído a partir de uma entrevista concedida por Lennon e Yoko Ono no dia do assassinato do ex-Beatle, em 8 de dezembro de 1980. Para visualizar trechos mais abstratos da conversa, Soderbergh usou imagens geradas por IA da Meta em cerca de 10% do filme. A decisão provocou reação imediata, inclusive entre críticos, mas o diretor defendeu a transparência: para ele, assumir publicamente o uso da ferramenta é parte essencial do debate.
Esse talvez seja o novo pacto em formação: não fingir que a IA não existe, mas exigir que seu uso seja declarado, limitado e eticamente controlado. O problema não está apenas na ferramenta, mas na opacidade. Quando uma imagem, uma voz, um rosto ou uma performance são sintetizados sem consentimento, o debate deixa de ser tecnológico e passa a ser trabalhista, jurídico e moral.
Peter Jackson, homenageado em Cannes com a Palma de Ouro Honorária, também entrou na discussão. Em masterclass no festival, o diretor de “O Senhor dos Anéis” afirmou não rejeitar a IA em si, comparando-a a outros efeitos especiais. Ao mesmo tempo, destacou que é “absolutamente crítico” proteger atores contra o uso não autorizado de sua imagem. Jackson ainda chamou atenção para um efeito colateral curioso: em um ambiente de suspeita generalizada contra a IA, performances humanas mediadas por tecnologia, como a captura de movimento de Andy Serkis como Gollum, podem ser injustamente confundidas com criações artificiais.
O debate também ultrapassa a seleção oficial. Segundo o El País, o World AI Film Festival, evento paralelo em Cannes dedicado a obras feitas com inteligência artificial generativa, reuniu mais de 5.500 trabalhos de 80 países. A presença desse festival mostra que a produção audiovisual com IA já deixou de ser curiosidade de laboratório e se tornou um campo próprio de experimentação estética, embora ainda marcado por limitações técnicas, problemas de estilo e dúvidas sobre direitos autorais.
No Marché du Film, o mercado de negócios de Cannes, a IA também ganhou protagonismo. Guillaume Esmiol, diretor executivo do mercado, defendeu que a discussão não deve ser sobre substituir criatividade, mas sobre ampliar possibilidades criativas e abrir novas oportunidades de negócio. A programação incluiu debates sobre direitos de propriedade intelectual, usos responsáveis e aplicações reais da IA no processo cinematográfico.
A indústria, portanto, parece entrar em uma fase menos ingênua e menos histérica. De um lado, há entusiasmo com redução de custos, democratização de ferramentas e novas linguagens. De outro, permanecem os riscos: apropriação indevida de imagem e voz, substituição de trabalho humano, homogeneização estética, treinamento de modelos com obras protegidas e perda de controle sobre a autoria.
Para o cinema, a questão decisiva talvez não seja se a IA pode gerar imagens convincentes. Ela já pode. A pergunta mais importante é outra: essas imagens carregam intenção, experiência, conflito, memória, corpo, erro e presença humana? É aí que Cannes, mesmo flertando com algoritmos, ainda parece defender sua velha religião: a de que cinema não é apenas fabricação de imagens, mas uma forma de olhar.
A IA pode acelerar processos, baratear produções e abrir caminhos para realizadores que antes não tinham acesso a certos recursos. Mas, se quiser ser aceita no cinema de autor, terá de aceitar também uma condição: permanecer ferramenta. Quando tenta virar autora, a máquina ainda encontra resistência. Quando ajuda o artista a filmar o que antes era impossível, começa a ser convidada para a conversa.
Cinema
Cully Hill Boys: o filme de IA que escancara a importância da direção humana
Cully Hill Boys usa roteiro profissional, rostos licenciados e uma pilha de modelos generativos para mostrar até onde o cinema com IA chegou. Mas também deixa uma coisa clara: tecnologia sozinha ainda não sabe contar uma boa história.
A inteligência artificial já consegue gerar cenas espetaculares. O problema sempre foi juntar essas cenas e fazer aquilo parecer um filme.
Cully Hill Boys, novo projeto da plataforma Higgsfield AI, tenta atravessar justamente essa fronteira. E o resultado é interessante por uma contradição: quanto mais o filme se aproxima do cinema tradicional, mais evidente fica a quantidade de trabalho humano por trás dele.
A história acompanha três rappers do leste de Londres que roubam por acidente o dinheiro de um criminoso. O roteiro foi escrito por Timothy Wayne Planagan e circulou anteriormente pela Black List, plataforma conhecida por revelar roteiros ainda não produzidos. O projeto também apareceu entre os finalistas de roteiro de longa-metragem do London Independent Story Prize.
A Higgsfield adquiriu os direitos para uma adaptação com IA, enquanto Planagan manteve os direitos para uma eventual produção convencional. É uma solução contratual particularmente interessante para uma indústria que ainda tenta entender como negociar obras entre esses dois mundos.
Atores que nunca foram ao set
Mikyle “N3on” Rafiq, Matt Kiatipis e o lutador Israel Adesanya aparecem como protagonistas — mas nenhum deles precisou filmar as cenas.
Segundo o The Verge, os três licenciaram suas imagens para que versões digitais fossem utilizadas na produção.
Esse detalhe importa.
Num momento em que Hollywood discute justamente consentimento, imagem e reprodução digital de artistas, Cully Hill Boys aposta no licenciamento explícito em vez de simplesmente fabricar rostos sem autorização.
Uma fábrica de modelos — comandada por humanos
O filme também mostra que “feito com IA” está longe de significar apertar um botão.
Claude foi usado na elaboração de prompts; tecnologias da ByteDance participaram da geração de vídeo; outras ferramentas entraram em imagens e edição. A própria Higgsfield já descreve fluxos de produção em que roteiro, referências de personagens, cenários, enquadramentos e prompts são preparados antes da geração propriamente dita.
O Seedance 2.5, promovido pela empresa, promete clipes de até 30 segundos, áudio sincronizado, referências multimodais e resolução de até 4K — avanços importantes diante dos poucos segundos que durante anos limitaram o vídeo generativo.
Mas há uma pedra no caminho.
Prompts divulgados pela produção fazem referências diretas às linguagens de Guy Ritchie e Edgar Wright. Isso recoloca no centro uma das grandes questões da IA generativa: até onde vai inspiração estética e onde começa a apropriação de trabalho usado para ensinar os modelos?
A discussão não é abstrata. Em fevereiro, a SAG-AFTRA criticou publicamente vídeos produzidos com Seedance envolvendo reproduções de artistas, enquanto a Disney também reagiu ao uso de suas propriedades intelectuais.
Talvez essa seja a verdadeira notícia
Cully Hill Boys ainda apresenta defeitos típicos do audiovisual generativo: textos incompreensíveis em cena, algumas interações estranhas e personagens que nem sempre parecem compartilhar o mesmo espaço emocional.
Mesmo assim, existe uma mudança importante acontecendo.
A IA começa a deixar de ser apenas uma máquina de produzir clipes impressionantes para entrar num território muito mais complicado: contar histórias longas.
E o experimento da Higgsfield acaba produzindo uma resposta curiosa para quem imagina um futuro de cinema totalmente automatizado.
Quanto melhor o filme fica, mais importantes parecem ser o roteirista, os diretores, os atores que autorizaram suas imagens e as pessoas tomando decisões atrás das máquinas.
A IA pode mudar radicalmente os meios de produção.
Mas cinema ainda precisa de alguém querendo dizer alguma coisa.
Fontes: The Verge; Higgsfield AI; London Independent Story Prize; Variety/SAG-AFTRA.
Cinema
‘Guardians of the Burrow’: o filme de IA que transforma ciência em cinema
Uma tarântula gigante divide sua toca com um sapo minúsculo no chão úmido da Amazônia. A cena parece saída de um documentário clássico da BBC: luz baixa, câmera próxima, movimentos pacientes, textura de natureza filmada com equipamento caríssimo.
Só que nada disso foi filmado.
O curta Guardians of the Burrow, da criadora australiana Jodie Heenan, é um documentário de vida selvagem inteiramente gerado por inteligência artificial. A obra simula uma cena raríssima: a parceria entre uma tarântula amazônica e um pequeno sapo conhecido como dotted humming frog, uma relação observada por biólogos, mas extremamente difícil de registrar em vídeo dentro de uma toca subterrânea.
A ideia do filme não é inventar uma criatura fantástica. É fazer o contrário: usar IA para visualizar algo que existe na natureza, mas quase nunca foi captado por câmeras convencionais.
Segundo o The Guardian, Heenan apresenta o curta como uma espécie de “documentário impossível”: uma tentativa de mostrar, com aparência realista, um comportamento natural que seria muito difícil de filmar sem interferir no ambiente. O filme venceu uma premiação no OMNI International AI Film Festival, realizado em Sydney, em uma edição dedicada ao cinema feito com ferramentas generativas.
A relação entre sapos pequenos e tarântulas é uma das parcerias mais curiosas da natureza. Em algumas regiões da América do Sul, pequenos anfíbios vivem próximos às aranhas e se beneficiam da proteção da toca. Em troca, eles podem comer formigas e pequenos insetos que ameaçariam os ovos da tarântula. É uma relação descrita como mutualismo ou comensalismo, dependendo da interpretação científica.
É justamente aí que o curta toca num ponto sensível: se a cena representa um fenômeno real, mas foi criada por IA, ela ainda pode ser chamada de documentário?
A resposta depende da transparência. Guardians of the Burrow não tenta esconder sua origem artificial. O próprio material de divulgação afirma que o filme foi criado com IA e apresenta a tecnologia como uma “nova câmera” para visualizar o que seria quase inacessível a uma equipe tradicional.
O caso é importante porque mostra uma mudança de fase. A IA no audiovisual não está mais restrita a monstros, ficção científica ou vídeos de impacto nas redes sociais. Ela começa a entrar em territórios antes associados à paciência, observação e registro direto do real — como o documentário de natureza.
Isso abre possibilidades enormes. Cientistas, educadores e cineastas podem recriar ambientes microscópicos, comportamentos raros, ecossistemas ameaçados e cenas históricas da vida animal sem colocar espécies em risco. Também pode democratizar a produção: um criador independente passa a competir visualmente com estruturas que antes exigiam grandes equipes, viagens, câmeras especiais e orçamentos altos.
Mas o risco também é evidente. Se o público não souber o que foi filmado, o que foi simulado e o que foi reconstruído com base científica, a IA pode transformar o documentário em uma zona cinzenta entre conhecimento e ilusão.
Por isso, o futuro desse tipo de obra talvez não dependa apenas da tecnologia, mas de uma nova ética de exibição. O espectador precisa saber quando está diante de uma imagem captada no mundo real, quando está vendo uma reconstituição e quando a cena foi totalmente gerada por IA.
Guardians of the Burrow funciona porque assume sua natureza híbrida. Não vende a IA como prova, mas como linguagem. Não substitui a pesquisa de campo, mas propõe uma forma de imaginar visualmente aquilo que a ciência já conhece e a câmera ainda não alcançou.
No fim, o curta deixa uma pergunta maior para o cinema: a IA pode mentir com aparência de verdade — mas também pode revelar verdades que nunca conseguimos filmar.
A diferença entre uma coisa e outra será a honestidade de quem cria.
Cinema
Filme sobre OpenAI, Sam Altman e crise de 2023 ganha nova distribuidora
Filme de Luca Guadagnino sobre Sam Altman e a crise da OpenAI foi descartado pela Amazon MGM após acordo bilionário com a OpenAI, mas ganhou novo fôlego com a Neon, distribuidora de Parasita e Anora.
A Neon comprou os direitos de distribuição mundial de Artificial, filme dirigido por Luca Guadagnino sobre Sam Altman e a crise interna que quase implodiu a OpenAI em 2023. O longa, que havia sido abandonado pela Amazon MGM Studios mesmo estando praticamente finalizado, agora deve ser lançado ainda este ano com ambição declarada de entrar na corrida pelo Oscar.
O filme acompanha os dias que antecederam a demissão e a rápida recondução de Altman ao cargo de CEO da OpenAI, um dos episódios mais simbólicos da disputa contemporânea entre governança, segurança, capital e poder na indústria de inteligência artificial. Andrew Garfield interpreta Sam Altman. O elenco também inclui Monica Barbaro, Yura Borisov, Mark Rylance e Ike Barinholtz no papel de Elon Musk.
A saída da Amazon MGM chamou atenção porque aconteceu poucos meses depois de a Amazon anunciar uma parceria estratégica multianual com a OpenAI, acompanhada de um investimento de US$ 50 bilhões. Segundo a própria Amazon, o acordo prevê um aporte inicial de US$ 15 bilhões, seguido por mais US$ 35 bilhões condicionados ao cumprimento de determinadas metas.
Oficialmente, a Amazon afirmou que Artificial seria “melhor servido” caso fosse lançado por outro estúdio. A justificativa, porém, abriu espaço para especulações na imprensa internacional sobre possíveis conflitos entre os interesses corporativos da gigante de tecnologia e a representação cinematográfica de uma das figuras mais influentes — e controversas — da atual corrida pela inteligência artificial.
A crise real retratada pelo filme começou em novembro de 2023, quando o conselho da OpenAI removeu Sam Altman do comando da empresa. Dias depois, após pressão interna, reação de investidores e intensa instabilidade pública, Altman retornou como CEO. Em comunicado publicado na época, a OpenAI confirmou seu retorno e anunciou uma nova composição inicial de conselho, com Bret Taylor, Larry Summers e Adam D’Angelo.
Essa história interessa a Hollywood porque concentra, em poucos dias, quase todos os elementos dramáticos da era da IA: fundadores carismáticos, conselhos divididos, medo de riscos existenciais, bilhões de dólares em jogo, pressão de funcionários, influência de big techs e uma disputa permanente entre missão pública e ambição privada.
A escolha da Neon muda o destino do projeto. A distribuidora independente construiu uma reputação rara nos últimos anos, associada a filmes de forte prestígio crítico e performance em premiações. Entre seus títulos estão vencedores do Oscar como Parasita e Anora, além de uma sequência expressiva de vencedores da Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Na prática, a aquisição transforma Artificial de um projeto incômodo para uma big tech em um possível filme de prestígio para a temporada de premiações. A Neon já sinalizou que pretende lançar o longa ainda este ano e colocá-lo na disputa do Oscar, movimento que reposiciona a obra como comentário cultural sobre o poder da IA, e não apenas como cinebiografia de executivo do Vale do Silício.
Para a indústria audiovisual, o caso também expõe uma contradição cada vez mais difícil de ignorar: os mesmos conglomerados que financiam, distribuem e exibem cinema estão se tornando parceiros comerciais diretos das empresas que controlam a infraestrutura e os modelos de inteligência artificial. Quando uma obra ficcional toca em personagens reais desse ecossistema, a independência editorial passa a ser tão importante quanto o orçamento de produção.
Artificial ainda não tem data exata de estreia divulgada, mas sua nova casa indica uma estratégia clara: sair da zona de desconforto corporativo e entrar no circuito de cinema autoral, festivais e Oscar. O filme sobre a crise da OpenAI agora virou, ele próprio, um caso sobre os limites entre tecnologia, dinheiro, reputação e liberdade artística.
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