Cinema
iQIYI quer transformar streaming em rede social de conteúdo gerado por IA
A iQIYI lançou o Nadou Pro, uma suíte com dezenas de agentes de IA para roteiro, direção, design visual, edição e renderização. A promessa é ousada: colocar no mercado, ainda em 2026, um filme totalmente gerado por IA com apelo comercial.
A corrida pelo primeiro grande filme comercial gerado por inteligência artificial ganhou um novo protagonista: a iQIYI, uma das maiores plataformas de streaming da China e frequentemente chamada de “Netflix chinesa”. Durante sua conferência anual de conteúdo, a empresa apresentou o Nadou Pro, uma plataforma de produção audiovisual baseada em IA que pretende automatizar praticamente todas as etapas de criação de filmes e séries — do roteiro ao storyboard, da direção visual à edição e renderização final.
A ambição não é pequena. Segundo informações publicadas pela Bloomberg e repercutidas pelo Gizmodo, o CEO da iQIYI, Gong Yu, afirmou que a empresa espera que a IA produza a maior parte de seus novos filmes e séries nos próximos cinco anos. A plataforma já teria uma primeira leva de 16 obras feitas com o Nadou Pro, incluindo ficção científica, fantasia, drama histórico e produções contemporâneas.
O Nadou Pro é apresentado pela própria iQIYI como o primeiro “agente de IA” chinês voltado à produção profissional de cinema e televisão. Na prática, a ferramenta funciona como um estúdio audiovisual sintético: ela integra cerca de 70 agentes de IA responsáveis por tarefas como escrita de roteiro, planejamento de cena, direção, design visual e edição. A empresa afirma que o sistema já vinha sendo testado internamente desde 2025 em projetos de filmes, dramas e animações.
A estratégia da iQIYI não é apenas lançar uma ferramenta. É reorganizar o próprio modelo de streaming. Gong Yu defende uma transição de plataformas centralizadas — onde poucos executivos escolhem o que o público vai assistir — para um ecossistema mais parecido com uma rede social audiovisual, com criadores produzindo e publicando conteúdo com apoio de IA. Em março, o executivo já havia dito que a IA poderia reduzir o custo de produção em uma ordem de grandeza, aumentar o número de criadores em pelo menos uma ordem de grandeza e multiplicar a quantidade de obras disponíveis.
A ideia é simples e brutal: se o audiovisual tradicional é caro, lento e dependente de grandes equipes, a IA entra como linha de montagem. Menos diária de set, menos logística, menos câmera, menos locação, menos espera. Mais renderização. Mais protótipo. Mais volume. É o tipo de discurso que arrepia sindicatos, diretores de fotografia, atores, roteiristas e produtores — mas que faz brilhar os olhos de plataformas pressionadas por custo, concorrência e queda de margem.
E a iQIYI precisa mesmo encontrar uma nova curva de crescimento. Em 2025, a empresa registrou receita anual de RMB 27,29 bilhões, cerca de US$ 3,9 bilhões, uma queda de 7% em relação a 2024. No quarto trimestre, voltou a crescer 3% ano contra ano, mas o cenário ainda é de pressão sobre o velho modelo do streaming: conteúdo caro, disputa feroz por atenção e concorrência direta com vídeos curtos, microdramas e plataformas sociais.
A China, aliás, já entendeu que o audiovisual não será disputado apenas entre Netflix, Disney, Amazon e Tencent Video. A disputa agora passa por quem controla a infraestrutura de geração audiovisual. A iQIYI quer usar modelos de empresas como Alibaba e ByteDance na versão doméstica do Nadou Pro, enquanto a versão internacional deve se conectar ao Google Veo 3.1, segundo a Bloomberg.
O movimento também vem acompanhado de uma estratégia delicada: o uso de atores digitais. A iQIYI afirmou que mais de 100 artistas teriam concordado em participar de um banco de performers para licenciamento de imagem em produções com IA. A reação foi imediata nas redes chinesas. Fãs e profissionais questionaram o risco de substituição de atores reais, enquanto alguns artistas citados tentaram se distanciar da iniciativa.
Gong Yu ainda colocou lenha na fogueira ao sugerir que filmagens com atores reais poderiam se tornar, no futuro, algo cada vez mais raro — quase uma espécie de “patrimônio cultural imaterial”. A frase viralizou na China não apenas por parecer provocação, mas porque toca exatamente no nervo exposto da indústria: a IA não está chegando só para ajudar no acabamento, no VFX ou no storyboard. Ela está chegando para disputar o centro da produção.
O ponto mais importante para o mercado global é que a iQIYI não está falando de clipes experimentais ou vídeos engraçadinhos de feed infinito. A aposta é em longa duração, propriedade intelectual e consumo pago. A empresa quer provar que um filme gerado por IA pode sair do território do “slop” viral e entrar na economia real do entretenimento: assinatura, bilheteria, licenciamento, publicidade e franquia.
Esse é justamente o gargalo que ainda trava o cinema com IA no Ocidente. Vídeos curtos gerados por IA viralizam o tempo todo, mas ainda falta uma obra longa, coerente, emocionalmente potente e comercialmente bem-sucedida. Hollywood experimenta, mas com medo. Netflix já usou IA em cenas finais de produção, Amazon MGM criou uma equipe interna para ferramentas de IA, e cineastas como Darren Aronofsky têm testado séries geradas com IA. Ainda assim, o grande “filme IA” que o público pagaria para ver ainda não apareceu.
O cenário ficou ainda mais simbólico depois da descontinuação do Sora pela OpenAI. Segundo a própria OpenAI, as experiências web e app do Sora foram encerradas em 26 de abril de 2026, enquanto a API deve ser descontinuada em 24 de setembro de 2026. Ou seja: enquanto o produto que inaugurou parte do hype global do vídeo generativo sai de cena, plataformas chinesas tentam ocupar o espaço com ferramentas voltadas diretamente à produção industrial.
A pergunta agora não é mais se a IA vai entrar no cinema. Ela já entrou. A pergunta é quem vai transformar IA em pipeline, pipeline em catálogo e catálogo em audiência pagante.
Para a MVAI, esse movimento confirma uma tese central: o audiovisual com IA não é um brinquedo, nem um filtro, nem uma moda de prompt. É uma nova infraestrutura de produção cultural. A câmera não morreu, o ator não morreu, o diretor não morreu. Mas todos eles entraram numa guerra com uma nova fábrica: uma fábrica que não dorme, não pede diária, não aluga locação e não precisa esperar a luz perfeita do fim da tarde.
A iQIYI está tentando ser a primeira grande plataforma a dizer isso em voz alta. E, goste-se ou não, a China acabou de colocar mais uma peça pesada no tabuleiro da revolução audiovisual.
Fonte: Gizmodo
Cinema
IA contra Hollywood: Grok divulga sua versão de “A Odisseia”
Projeto produzido com Grok Imagine tem direção de Dev Walker e surge após Elon Musk prometer um longa-metragem baseado no clássico de Homero.
A Grok Imagine, ferramenta de geração de imagens e vídeos por inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, divulgou na sexta-feira (23) os primeiros sete minutos de sua adaptação de A Odisseia, poema épico atribuído ao grego Homero.
Apresentado como o primeiro episódio de uma série, o vídeo foi desenvolvido em colaboração com a Wonder Studios e o diretor Dev Walker, demonstrando como ferramentas generativas já estão sendo utilizadas em produções audiovisuais narrativas.
Em julho, Musk havia prometido produzir até o final de 2026 um longa-metragem baseado na obra, que classificou como uma adaptação historicamente fiel. Por enquanto, o projeto apresentado tem pouco mais de sete minutos, sem calendário divulgado para novos episódios.
IA versus cinema tradicional
O lançamento também acontece em meio às críticas de Musk à adaptação cinematográfica de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan, que estreou em julho e conquistou grande sucesso de bilheteria.
Enquanto Nolan apostou em uma produção de grande escala, com filmagens em diferentes países e uso extensivo de efeitos práticos, a versão do Grok explora a geração de imagens por inteligência artificial.
A recepção inicial foi dividida. O TechCrunch elogiou o realismo visual de algumas cenas, mas criticou a falta de emoção, a rigidez dos diálogos e a fragilidade da narrativa.
Apesar das limitações, o experimento reforça uma transformação no audiovisual: a possibilidade de criar sequências cinematográficas complexas com ferramentas generativas, mantendo profissionais humanos envolvidos na direção e na criação.
Cinema
Diretor de O Rei Leão aposta na IA para revolucionar o cinema
Rob Minkoff prepara Storm Dogs, produção que combina atores reais e personagens gerados por inteligência artificial. A aposta é reduzir custos e abrir espaço para novas histórias em Hollywood.
Rob Minkoff, codiretor do clássico O Rei Leão (1994), está abraçando a inteligência artificial no cinema. Em entrevista ao jornal britânico The Times, publicada em 7 de outubro, o cineasta defendeu o potencial da tecnologia para transformar a produção de filmes, tornando-a mais barata e menos dependente de grandes equipes.
O próximo projeto é Storm Dogs, filme familiar produzido pela Particle6, empresa de Eline van der Velden, também responsável pela criação da personagem virtual Tilly Norwood.
Um filme com atores reais e personagens de IA
Storm Dogs contará a história de animais que ajudam uma criança pequena a encontrar o caminho de casa após uma enchente.
A produção pretende combinar cenas com atores reais e personagens gerados por IA, incluindo cães e uma criança. O início das filmagens está previsto para 2027.
Para Minkoff, ferramentas de inteligência artificial podem reduzir significativamente os custos de produção, especialmente em filmes que dependem de animação e efeitos visuais.
Menos empregos ou mais filmes?
A principal controvérsia está na redução das equipes. Minkoff reconhece o impacto potencial da IA sobre os empregos, mas acredita que produções mais baratas também poderão estimular investimentos em histórias originais.
A discussão já mobiliza Hollywood. A Particle6 foi alvo de críticas após apresentar Tilly Norwood, personagem digital que provocou reação do sindicato dos atores SAG-AFTRA, contrário à substituição de profissionais por intérpretes sintéticos.
Uma nova Hollywood?
A entrada de um diretor consagrado como Rob Minkoff nesse mercado sinaliza uma mudança importante: a inteligência artificial deixa de ser apenas uma experiência tecnológica e passa a integrar projetos cinematográficos comerciais.
A grande questão agora não é apenas quanto custará produzir um filme, mas quem terá acesso a essa tecnologia, quem continuará criando e como os profissionais serão remunerados.
Fonte principal: The Times (7/10/2026). Informações complementares: Particle6, entrevistas de Rob Minkoff e SAG-AFTRA.
Cinema
Para Tom Cruise, o futuro do cinema terá IA — e continuará precisando de humanos
Tom Cruise entrou no debate sobre inteligência artificial em Hollywood com uma posição menos apocalíptica do que pode parecer: para o ator, a chegada da tecnologia ao cinema é inevitável — mas isso não significa o desaparecimento da criação humana.
Durante uma conversa da série BAFTA: A Life in Pictures, em Londres, Cruise afirmou que a IA “está chegando e vai acontecer”, mas ressaltou que o público continuará procurando experiências humanas.
“Não há nada como o ser humano”, disse o ator. “As pessoas querem ver coisas reais.”
IA não significa o fim do cinema
Cruise, conhecido por defender filmagens práticas, realizar grande parte das próprias cenas de ação e promover a experiência das salas de cinema, acredita que novas tecnologias podem coexistir com formas tradicionais de produção.
Ele também afirmou não ser contrário ao streaming, mas considera a experiência coletiva da sala de cinema uma forma artística diferente.
O ator resumiu sua resposta ao avanço da inteligência artificial com um conselho aos profissionais da indústria:
“Continuem criando.”
Um debate que já divide Hollywood
A discussão acontece enquanto estúdios, atores, diretores e sindicatos tentam definir até onde a IA pode entrar na produção cinematográfica — da geração de imagens e efeitos visuais à reprodução digital de rostos e performances.
A própria trajetória recente de Cruise reforça sua posição. Em 2025, ele recebeu um Oscar honorário, e a Academia destacou oficialmente sua contribuição à comunidade cinematográfica e sua defesa da experiência nos cinemas.
Para Cruise, portanto, a questão não parece ser impedir a chegada da inteligência artificial.
É descobrir como continuar fazendo cinema quando ela estiver em toda parte.
Fonte principal: NME.
Fontes adicionais: Variety, Screen Daily, Euronews, TheWrap e Academy of Motion Picture Arts and Sciences.
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