Cinema
Diretor de O Rei Leão aposta na IA para revolucionar o cinema
Rob Minkoff prepara Storm Dogs, produção que combina atores reais e personagens gerados por inteligência artificial. A aposta é reduzir custos e abrir espaço para novas histórias em Hollywood.
Rob Minkoff, codiretor do clássico O Rei Leão (1994), está abraçando a inteligência artificial no cinema. Em entrevista ao jornal britânico The Times, publicada em 7 de outubro, o cineasta defendeu o potencial da tecnologia para transformar a produção de filmes, tornando-a mais barata e menos dependente de grandes equipes.
O próximo projeto é Storm Dogs, filme familiar produzido pela Particle6, empresa de Eline van der Velden, também responsável pela criação da personagem virtual Tilly Norwood.
Um filme com atores reais e personagens de IA
Storm Dogs contará a história de animais que ajudam uma criança pequena a encontrar o caminho de casa após uma enchente.
A produção pretende combinar cenas com atores reais e personagens gerados por IA, incluindo cães e uma criança. O início das filmagens está previsto para 2027.
Para Minkoff, ferramentas de inteligência artificial podem reduzir significativamente os custos de produção, especialmente em filmes que dependem de animação e efeitos visuais.
Menos empregos ou mais filmes?
A principal controvérsia está na redução das equipes. Minkoff reconhece o impacto potencial da IA sobre os empregos, mas acredita que produções mais baratas também poderão estimular investimentos em histórias originais.
A discussão já mobiliza Hollywood. A Particle6 foi alvo de críticas após apresentar Tilly Norwood, personagem digital que provocou reação do sindicato dos atores SAG-AFTRA, contrário à substituição de profissionais por intérpretes sintéticos.
Uma nova Hollywood?
A entrada de um diretor consagrado como Rob Minkoff nesse mercado sinaliza uma mudança importante: a inteligência artificial deixa de ser apenas uma experiência tecnológica e passa a integrar projetos cinematográficos comerciais.
A grande questão agora não é apenas quanto custará produzir um filme, mas quem terá acesso a essa tecnologia, quem continuará criando e como os profissionais serão remunerados.
Fonte principal: The Times (7/10/2026). Informações complementares: Particle6, entrevistas de Rob Minkoff e SAG-AFTRA.
Cinema
Para Tom Cruise, o futuro do cinema terá IA — e continuará precisando de humanos
Tom Cruise entrou no debate sobre inteligência artificial em Hollywood com uma posição menos apocalíptica do que pode parecer: para o ator, a chegada da tecnologia ao cinema é inevitável — mas isso não significa o desaparecimento da criação humana.
Durante uma conversa da série BAFTA: A Life in Pictures, em Londres, Cruise afirmou que a IA “está chegando e vai acontecer”, mas ressaltou que o público continuará procurando experiências humanas.
“Não há nada como o ser humano”, disse o ator. “As pessoas querem ver coisas reais.”
IA não significa o fim do cinema
Cruise, conhecido por defender filmagens práticas, realizar grande parte das próprias cenas de ação e promover a experiência das salas de cinema, acredita que novas tecnologias podem coexistir com formas tradicionais de produção.
Ele também afirmou não ser contrário ao streaming, mas considera a experiência coletiva da sala de cinema uma forma artística diferente.
O ator resumiu sua resposta ao avanço da inteligência artificial com um conselho aos profissionais da indústria:
“Continuem criando.”
Um debate que já divide Hollywood
A discussão acontece enquanto estúdios, atores, diretores e sindicatos tentam definir até onde a IA pode entrar na produção cinematográfica — da geração de imagens e efeitos visuais à reprodução digital de rostos e performances.
A própria trajetória recente de Cruise reforça sua posição. Em 2025, ele recebeu um Oscar honorário, e a Academia destacou oficialmente sua contribuição à comunidade cinematográfica e sua defesa da experiência nos cinemas.
Para Cruise, portanto, a questão não parece ser impedir a chegada da inteligência artificial.
É descobrir como continuar fazendo cinema quando ela estiver em toda parte.
Fonte principal: NME.
Fontes adicionais: Variety, Screen Daily, Euronews, TheWrap e Academy of Motion Picture Arts and Sciences.
Cinema
Google quer pagar milhões para colocar Hollywood dentro da IA
O Google está tentando aproximar sua inteligência artificial de alguns dos ativos mais valiosos de Hollywood: seus personagens, filmes e universos culturais.
Segundo reportagens do Los Angeles Times e do The Verge, executivos da empresa vêm conversando com estúdios como Disney, Universal e Warner Bros. Discovery sobre possíveis acordos para licenciar propriedade intelectual e permitir seu uso em modelos e produtos de IA. Nenhum grande acordo deste tipo foi oficialmente anunciado até agora.
A negociação mostra que a próxima guerra da inteligência artificial pode não ser travada apenas em GPUs, benchmarks ou qualidade de geração.
Ela será também uma guerra por cultura.
Quanto vale Darth Vader para uma IA?
De acordo com o The Verge, citando informações do Los Angeles Times, uma negociação envolvendo um único personagem de um grande estúdio poderia chegar a dezenas de milhões de dólares. Pacotes maiores, envolvendo bibliotecas inteiras de personagens, poderiam elevar esses contratos para cifras muito maiores.
Para o Google, não se trata apenas de conseguir material para desenvolver modelos melhores.
Imagine abrir uma ferramenta de IA e poder criar legalmente uma imagem ou um vídeo com personagens de Disney, Pixar ou outros grandes universos do entretenimento.
É uma diferença enorme entre gerar “um guerreiro espacial parecido com Darth Vader” e gerar Darth Vader oficialmente licenciado.
O segundo caso transforma um experimento tecnológico em produto cultural reconhecível por bilhões de pessoas.
O Google já está entrando em Hollywood
A aproximação não começou agora.
Em junho, Google DeepMind e A24 anunciaram uma parceria de pesquisa para desenvolver novos processos de produção utilizando inteligência artificial. O Google também realizou um investimento no estúdio, embora oficialmente não tenha divulgado o valor.
A DeepMind mantém ainda colaboração com a Primordial Soup, empresa fundada pelo diretor Darren Aronofsky, para experimentar o Veo na produção audiovisual.
Ao mesmo tempo, concorrentes seguem caminho semelhante.
A Runway aprofundou em 2026 sua parceria com a Lionsgate. As empresas anunciaram um programa conjunto para desenvolver novas propriedades intelectuais e projetos audiovisuais utilizando inteligência artificial. A Lionsgate também adquiriu participação na Runway.
Ou seja: tecnologia e entretenimento estão começando a se misturar institucionalmente.
O problema não é apenas tecnológico
Existe, porém, um obstáculo que nenhum novo modelo resolve sozinho: confiança.
Pesquisa do Pew Research Center publicada em 2026 mostra que 40% dos adultos americanos esperam um impacto negativo da IA sobre a sociedade, contra apenas 16% que enxergam um impacto predominantemente positivo.
Entre pessoas de 18 a 29 anos, o pessimismo é ainda maior: 48% esperam impacto negativo sobre a sociedade.
Em outra medição do Pew, realizada em junho de 2026, 55% dos adultos de 18 a 29 anos disseram estar mais preocupados do que empolgados com o avanço da inteligência artificial.
É aqui que Hollywood se torna particularmente valiosa.
Personagens conhecidos, cineastas respeitados e grandes franquias podem oferecer algo que nenhuma atualização de software consegue fabricar rapidamente:
legitimidade cultural.
Mas Hollywood também corre riscos
Os estúdios têm razões para negociar.
IA pode reduzir custos, acelerar pré-produção, criar efeitos, storyboards, versões, dublagens, publicidade e permitir novas formas de produção.
Mas existe uma diferença enorme entre usar IA como ferramenta de produção e entregar bibliotecas inteiras de propriedade intelectual para empresas de tecnologia.
Hollywood precisa decidir até onde pretende abrir essa porta.
Porque personagens, atores, roteiristas e universos cinematográficos não são simplesmente dados.
São ativos culturais construídos durante décadas.
E esse talvez seja o ponto mais importante dessa nova disputa.
Durante alguns anos, parecia que Hollywood precisava desesperadamente das empresas de inteligência artificial para acompanhar a próxima revolução tecnológica.
Agora começa a aparecer o outro lado da equação:
as empresas de IA também precisam desesperadamente de artistas, personagens, histórias e cultura.
Modelos conseguem gerar bilhões de imagens.
Criar algo que bilhões de pessoas realmente se importem em assistir continua sendo outro problema.
E talvez seja justamente aí que Hollywood ainda tenha a carta mais valiosa na mão.
Fontes: The Verge, Los Angeles Times, Google DeepMind, Runway e Pew Research Center.
Cinema
Cully Hill Boys: o filme de IA que escancara a importância da direção humana
Cully Hill Boys usa roteiro profissional, rostos licenciados e uma pilha de modelos generativos para mostrar até onde o cinema com IA chegou. Mas também deixa uma coisa clara: tecnologia sozinha ainda não sabe contar uma boa história.
A inteligência artificial já consegue gerar cenas espetaculares. O problema sempre foi juntar essas cenas e fazer aquilo parecer um filme.
Cully Hill Boys, novo projeto da plataforma Higgsfield AI, tenta atravessar justamente essa fronteira. E o resultado é interessante por uma contradição: quanto mais o filme se aproxima do cinema tradicional, mais evidente fica a quantidade de trabalho humano por trás dele.
A história acompanha três rappers do leste de Londres que roubam por acidente o dinheiro de um criminoso. O roteiro foi escrito por Timothy Wayne Planagan e circulou anteriormente pela Black List, plataforma conhecida por revelar roteiros ainda não produzidos. O projeto também apareceu entre os finalistas de roteiro de longa-metragem do London Independent Story Prize.
A Higgsfield adquiriu os direitos para uma adaptação com IA, enquanto Planagan manteve os direitos para uma eventual produção convencional. É uma solução contratual particularmente interessante para uma indústria que ainda tenta entender como negociar obras entre esses dois mundos.
Atores que nunca foram ao set
Mikyle “N3on” Rafiq, Matt Kiatipis e o lutador Israel Adesanya aparecem como protagonistas — mas nenhum deles precisou filmar as cenas.
Segundo o The Verge, os três licenciaram suas imagens para que versões digitais fossem utilizadas na produção.
Esse detalhe importa.
Num momento em que Hollywood discute justamente consentimento, imagem e reprodução digital de artistas, Cully Hill Boys aposta no licenciamento explícito em vez de simplesmente fabricar rostos sem autorização.
Uma fábrica de modelos — comandada por humanos
O filme também mostra que “feito com IA” está longe de significar apertar um botão.
Claude foi usado na elaboração de prompts; tecnologias da ByteDance participaram da geração de vídeo; outras ferramentas entraram em imagens e edição. A própria Higgsfield já descreve fluxos de produção em que roteiro, referências de personagens, cenários, enquadramentos e prompts são preparados antes da geração propriamente dita.
O Seedance 2.5, promovido pela empresa, promete clipes de até 30 segundos, áudio sincronizado, referências multimodais e resolução de até 4K — avanços importantes diante dos poucos segundos que durante anos limitaram o vídeo generativo.
Mas há uma pedra no caminho.
Prompts divulgados pela produção fazem referências diretas às linguagens de Guy Ritchie e Edgar Wright. Isso recoloca no centro uma das grandes questões da IA generativa: até onde vai inspiração estética e onde começa a apropriação de trabalho usado para ensinar os modelos?
A discussão não é abstrata. Em fevereiro, a SAG-AFTRA criticou publicamente vídeos produzidos com Seedance envolvendo reproduções de artistas, enquanto a Disney também reagiu ao uso de suas propriedades intelectuais.
Talvez essa seja a verdadeira notícia
Cully Hill Boys ainda apresenta defeitos típicos do audiovisual generativo: textos incompreensíveis em cena, algumas interações estranhas e personagens que nem sempre parecem compartilhar o mesmo espaço emocional.
Mesmo assim, existe uma mudança importante acontecendo.
A IA começa a deixar de ser apenas uma máquina de produzir clipes impressionantes para entrar num território muito mais complicado: contar histórias longas.
E o experimento da Higgsfield acaba produzindo uma resposta curiosa para quem imagina um futuro de cinema totalmente automatizado.
Quanto melhor o filme fica, mais importantes parecem ser o roteirista, os diretores, os atores que autorizaram suas imagens e as pessoas tomando decisões atrás das máquinas.
A IA pode mudar radicalmente os meios de produção.
Mas cinema ainda precisa de alguém querendo dizer alguma coisa.
Fontes: The Verge; Higgsfield AI; London Independent Story Prize; Variety/SAG-AFTRA.