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651%: o número que mostra como a IA está refazendo a música eletrônica do zero

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Ferramentas de IA para música explodem em receita enquanto a indústria eletrônica global chega ao recorde de US$ 15,1 bilhões

A música eletrônica sempre foi filha da máquina. Nasceu entre sintetizadores, drum machines, samplers, sequenciadores, cabines de DJ, pistas suadas e gente disposta a transformar ruído em futuro. Por isso, quando a inteligência artificial começa a chacoalhar a indústria musical, não é estranho que o primeiro grande terremoto aconteça justamente ali: no território onde tecnologia nunca foi acessório, mas linguagem.

O IMS Electronic Music Business Report 2025/26, apresentado em 22 de abril de 2026, durante a abertura do IMS Ibiza, trouxe um dado daqueles que não pedem licença: a indústria global da música eletrônica chegou ao recorde de US$ 15,1 bilhões, com crescimento de 7% em 2025, acima dos 6% registrados em 2024. O relatório é publicado pelo International Music Summit e compilado por Mark Mulligan, da MIDiA Research.

Mas o número mais incendiário do relatório não está apenas no tamanho da indústria. Está no que ele revela sobre a nova fábrica musical do planeta: as ferramentas de IA generativa e separação de stems tiveram crescimento de 651% em receita entre 2023 e 2025, alcançando US$ 333 milhões em 2025 e chegando a 63 milhões de usuários ativos mensais.

É o tipo de dado que muda a conversa. Não estamos falando mais de “brinquedinho de internet”, “curiosidade de produtor” ou “ferramenta para fazer meme musical”. Estamos falando de uma categoria econômica real, com escala de plataforma, base massiva de usuários e impacto direto na forma como música é criada, remixada, editada, performada e monetizada.

A pista de dança encontrou o prompt

A discussão pública sobre IA na música costuma girar em torno de direitos autorais, clonagem vocal, treinamento de modelos e ameaça aos artistas. Tudo isso é importante — e explosivo. Mas o relatório do IMS aponta para outro centro de gravidade: o maior impacto imediato da IA não está no consumo, mas na criação.

Segundo a cobertura da We Rave You sobre o relatório, as plataformas generativas permitiram que usuários que jamais abririam uma DAW — uma estação de trabalho de áudio digital como Ableton Live, FL Studio, Logic ou Pro Tools — passassem a criar músicas originais a partir de comandos de texto. Ao mesmo tempo, a separação de stems transformou vocais, baterias, baixos e melodias em peças desmontáveis de quase qualquer gravação.

Traduzindo para o chão da pista: a IA está fazendo com a produção musical o que o sampler fez décadas atrás — só que com esteroides, nuvem, prompt e escala global.

Antes, para remixar uma faixa, era preciso ter acesso a stems oficiais, conhecimento técnico ou muita gambiarra. Agora, qualquer DJ, produtor iniciante ou fã com curiosidade consegue separar elementos de uma música, testar versões, reconstruir arranjos, criar mashups, gerar bases, experimentar timbres e transformar ideias em áudio com uma velocidade absurda.

É democratização? É precarização? É pirataria estética? É renascimento criativo? Sim. Tudo ao mesmo tempo. A música eletrônica conhece bem esse caos: foi dele que saíram o house, o techno, o jungle, o garage, o dubstep, o baile funk, o afro house e metade das revoluções dançantes dos últimos 40 anos.

O novo mercado da música eletrônica não vive só de streaming

Outro ponto essencial do IMS Business Report 2026 é que a indústria eletrônica está aprendendo a não depender apenas da lógica do streaming. O relatório mostra que o faturamento global da cena vem de gravações, publishing, DSPs, festivais, clubes, ferramentas para criadores, merchandise, patrocínios e marcas. Segundo a DJ Mag, receitas de DSPs e merchandise estiveram entre os destaques do levantamento.

A Beatportal resume essa virada como uma passagem da “economia do consumo” para uma “economia do fandom”. Ou seja: menos dependência exclusiva de centavos por play e mais força em comunidades, eventos, produtos, experiências, marcas, venda direta e direitos expandidos.

Esse detalhe é crucial para entender por que a IA entra com tanta força. Ferramentas de criação não são apenas softwares. Elas viram infraestrutura de uma nova economia de criadores. Se antes a cadeia era artista → gravadora → distribuidora → rádio/streaming → público, agora existe uma zona intermediária gigantesca formada por produtores de quarto, DJs de TikTok, remixadores, beatmakers, criadores de conteúdo, fãs-produtores e artistas híbridos.

A IA entra exatamente aí: entre a ideia e a música pronta.

A velha eletrônica sempre foi inteligência artificial antes da IA

Para entender por que esse movimento é tão profundo, vale lembrar a própria história da música eletrônica. A EDM é um campo amplo de gêneros percussivos feitos originalmente para clubes, raves e festivais, produzidos para mixagens contínuas por DJs e apresentações ao vivo. Desde os anos 1980 e 1990, com a cultura rave, rádios piratas e cenas underground, a música eletrônica se expandiu em dezenas de subgêneros e ocupou o mainstream global.

Mas a eletrônica nunca foi só “um estilo”. Ela sempre foi um modo de produção. O estúdio virou instrumento. A máquina virou banda. A repetição virou transe. O erro virou textura. O DJ virou autor. O sampler virou memória coletiva.

Por isso, a chegada da IA não cai como um raio em céu azul. Ela chega num território historicamente acostumado a absorver ferramentas e transformá-las em estética. Drum machines como a TR-808, sintetizadores, samplers, controladores, CDJs, plugins, DAWs e plataformas como Splice já haviam redesenhado a criação musical antes. A diferença agora é a escala: a IA não apenas oferece novos sons; ela muda quem pode criar, com que velocidade e a partir de qual ponto de partida.

A pergunta deixa de ser “quem sabe tocar?” e passa a ser “quem sabe dirigir uma ideia sonora?”.

Separar stems virou o novo sampler

A separação de stems talvez seja a parte menos glamourosa da revolução, mas uma das mais importantes. Ela permite isolar voz, bateria, baixo, harmonia e outros elementos de uma música finalizada. Para DJs e produtores, isso significa uma liberdade brutal: acapellas improvisadas, versões alternativas, edits para pista, mashups, remixes não oficiais e reconstruções de repertório.

Na prática, o stem separation transforma qualquer faixa em matéria-prima.

Isso tem implicações artísticas e jurídicas gigantescas. Do ponto de vista criativo, é uma festa. Do ponto de vista dos direitos, é uma granada. Porque a mesma tecnologia que permite ao produtor independente estudar arranjos e criar versões inovadoras também pode abrir caminho para usos não autorizados, exploração de catálogos e colagens que desafiam os modelos tradicionais de licenciamento.

Mas aqui existe um ponto histórico: a música eletrônica sempre viveu de apropriação, recorte, loop e ressignificação. A IA apenas aumenta a velocidade e a resolução desse processo.

O dado dos 63 milhões de usuários muda o jogo

O número de 63 milhões de usuários ativos mensais em ferramentas de IA musical é talvez tão importante quanto a receita. Segundo a We Rave You, essa escala coloca as ferramentas de IA musical no território de serviços de streaming de médio porte, embora com receita por usuário ainda baixa em comparação às assinaturas musicais.

Isso sugere duas coisas.

A primeira: existe demanda real. Muita gente quer criar música, mesmo sem formação musical tradicional. A barreira técnica sempre foi uma espécie de porteiro invisível. A IA não elimina talento, repertório ou direção artística, mas derruba parte do muro operacional.

A segunda: esse mercado ainda pode crescer muito em monetização. Se milhões de usuários já estão usando ferramentas de IA musical, mas a receita média ainda é pequena, há espaço para planos premium, bibliotecas, licenciamento, plugins, distribuição integrada, marketplaces de vozes, packs de stems, masterização automática, videoclipes gerados por IA e ferramentas de performance ao vivo.

Ou seja: a música criada com IA não é só uma categoria estética. É uma cadeia produtiva nascendo.

A indústria eletrônica chega ao recorde, mas muda por dentro

O IMS 2026 mostra uma cena eletrônica global em crescimento, mas também em mutação. A indústria chegou aos US$ 15,1 bilhões depois de valer US$ 14,2 bilhões em 2024. Em Ibiza, a receita de ingressos de clubes atingiu €160 milhões em 2025, contra €150 milhões no ano anterior, mesmo com queda no número médio de eventos por venue.

Esse é um retrato curioso: menos volume, mais eficiência. Menos evento por evento, mais rendimento por programação. É a cena eletrônica entrando numa fase mais madura, profissionalizada e cara — ao mesmo tempo em que a criação musical fica mais barata, mais acessível e mais caótica.

De um lado, clubes, festivais, catálogos, marcas e patrocínios se sofisticam. Do outro, qualquer adolescente com prompt, fone e celular pode gerar uma faixa, separar stems, montar um edit e jogar no TikTok.

É uma indústria bilionária encontrando uma fábrica criativa descentralizada. Bonito? Perigoso? Inevitável.

Global South, Afro House e a pista fora do eixo EUA-Europa

Outro dado relevante do relatório é o avanço do chamado Sul Global. A Beatportal destaca que mercados com grandes populações passaram a impulsionar boa parte dos novos assinantes e ouvintes. A Indonésia, por exemplo, registrou aumento de 77% em ouvintes de música eletrônica no Spotify em 2025.

A DJ Mag também destaca que o relatório aponta a presença crescente do Sul Global no crescimento da indústria.

Isso conversa diretamente com o crescimento de gêneros e cenas que já não cabem no mapa tradicional da eletrônica europeia. Afro house, amapiano, funk brasileiro, dembow, guaracha, baile, techno latino, cenas africanas e asiáticas entram no jogo com outra gramática rítmica, outro corpo, outra relação com comunidade e festa.

O relatório também observa que o Afro House saltou da 10ª posição em buscas no Splice em 2023 para a 2ª em 2025, com aumento de 82% nas buscas.

Aqui a IA pode ter um papel ambíguo. Ela pode amplificar cenas periféricas, baratear produção, facilitar circulação e permitir que artistas do Sul Global criem com ferramentas antes restritas por custo. Mas também pode pasteurizar tudo, transformar cultura viva em preset global e acelerar a apropriação estética sem contexto.

A diferença entre revolução e extrativismo vai depender de quem controla as ferramentas, os catálogos, os dados, as plataformas e a remuneração.

AI slop ou nova vanguarda?

A própria Beatportal usa uma expressão importante ao falar do futuro da cena: a indústria precisa aproveitar ferramentas de IA sem cair no “AI slop”, aquela avalanche de conteúdo genérico, descartável, feito para ocupar feed e plataforma sem alma, sem risco e sem mundo.

Esse é o ponto nervoso.

A IA pode permitir que milhares de pessoas descubram a criação musical. Mas também pode entupir o ecossistema com faixas medianas, playlists sintéticas, artistas inexistentes e uma estética de algoritmo treinado para agradar todo mundo sem emocionar ninguém.

Na música eletrônica, isso é ainda mais delicado. Porque a pista não perdoa. Um beat pode ser tecnicamente perfeito e emocionalmente morto. Pode ter masterização impecável e zero corpo. Pode soar “profissional” e não levantar uma sobrancelha às três da manhã.

A grande questão não é se a IA vai criar música. Ela já está criando. A questão é quem vai transformar essa criação em linguagem, cena, estética, comunidade e presença.

O produtor vira diretor criativo

O crescimento das ferramentas de IA musical aponta para uma mudança de função. O produtor deixa de ser apenas alguém que domina software, síntese, mixagem e arranjo. Cada vez mais, ele vira um diretor criativo de sistemas.

Isso significa saber pedir, selecionar, editar, combinar, rejeitar, lapidar e contextualizar. A criação passa a ser menos linear e mais curatorial. Em vez de construir tudo nota por nota, muitos criadores vão operar como diretores de fluxo: geram possibilidades, escolhem caminhos, manipulam resultados e dão acabamento humano.

É parecido com o que já acontece no audiovisual com ferramentas de geração de imagem e vídeo. A autoria não desaparece, mas muda de lugar. O gesto artístico passa a estar na concepção, na direção, no gosto, no repertório, na montagem, na assinatura e na capacidade de dizer “isso presta” ou “isso é só lixo brilhante”.

Na música, esse filtro será cada vez mais valioso.

O Brasil deveria prestar atenção

Para o Brasil, esse relatório é mais do que uma curiosidade internacional. É um sinal estratégico.

O país tem uma das culturas musicais mais fortes do mundo, uma cena eletrônica diversa, um funk em permanente mutação tecnológica, produtores de quarto altamente inventivos e uma tradição absurda de gambiarra criativa. Se a barreira de entrada cai, o Brasil pode ganhar uma nova geração de criadores capazes de exportar som, estética e linguagem.

Mas há um problema: as ferramentas são dolarizadas. A criatividade é brasileira, mas a infraestrutura é importada. Isso cria uma tensão central para o futuro da música feita com IA no país. Quem não tiver acesso a assinaturas, créditos, plugins, modelos e distribuição fica novamente na periferia da revolução.

Por outro lado, se artistas, selos, coletivos, escolas, produtoras e plataformas brasileiras entenderem o momento, a IA pode virar uma aliada poderosa. Não para substituir a música brasileira, mas para multiplicar sua capacidade de produção, experimentação e presença global.

A música eletrônica brasileira — do techno ao funk, do bass ao experimental, do pop periférico à IA generativa — tem tudo para disputar esse novo território. Mas precisa entrar agora, antes que a nova indústria seja desenhada apenas por empresas do Norte Global.

Conclusão: a próxima pista será feita por humanos, máquinas e prompts

O IMS Business Report 2026 não está dizendo apenas que a música eletrônica vale US$ 15,1 bilhões. Está dizendo que a infraestrutura criativa da música está mudando. A explosão de 651% nas receitas de ferramentas de IA musical é o alarme mais claro até agora: a criação sonora entrou numa nova fase.

A música eletrônica, que sempre foi o laboratório pop da tecnologia, aparece novamente na linha de frente. A pista de dança agora conversa com o prompt. O DJ conversa com stems separados por IA. O produtor conversa com modelos generativos. O fã começa a virar criador. O software vira parceiro. O catálogo vira material desmontável. A música vira processo contínuo.

Mas a pergunta que fica é a mais antiga de todas: quem tem algo a dizer?

Porque ferramenta, por si só, não faz cena. Modelo nenhum cria cultura sozinho. A IA pode gerar som, mas ainda não sabe viver uma madrugada, perder um amor, suar numa pista, tomar enquadro voltando pra casa, atravessar uma cidade, inventar uma comunidade, desafiar um sistema ou transformar precariedade em batida.

A revolução está aberta. E a música eletrônica, mais uma vez, está dançando antes de todo mundo entender a coreografia.

A Redação MVAI reúne jornalistas, pesquisadores e criadores especializados em inteligência artificial, música, cultura digital e inovação. Nossos conteúdos são produzidos com apuração, fontes confiáveis, revisão editorial e atualização constante.

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Música

Universal, Sony e Warner propõem regras para músicas com IA nos rankings

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majors e IA

Universal, Sony, Warner e selos independentes propõem novas regras para definir quando uma música criada com inteligência artificial poderá aparecer nos rankings oficiais.

As maiores gravadoras do mundo querem estabelecer uma fronteira entre a música produzida com auxílio da inteligência artificial e as gravações criadas quase inteiramente por máquinas.

Universal Music Group, Sony Music e Warner Music Group se uniram a empresas como BMG, Concord, Believe, HYBE, Glassnote e Mom+Pop para apresentar princípios globais de elegibilidade para músicas desenvolvidas com IA generativa.

Pela proposta, uma gravação que utilize inteligência artificial somente poderia aparecer nas paradas oficiais se fosse “substancialmente criada por humanos”. O sistema utilizado também precisaria ser legal, autorizado e treinado com materiais devidamente licenciados.

IA não está proibida

A proposta não representa uma proibição completa da inteligência artificial na música.

Ferramentas generativas poderiam continuar sendo utilizadas na composição, na produção e na criação de elementos sonoros. O ponto central seria preservar uma participação humana reconhecível no processo artístico.

O problema é que a expressão “substancialmente criada por humanos” ainda não possui uma definição objetiva. Não está claro, por exemplo, quanto de uma voz, instrumento, arranjo ou produção poderia ser gerado antes de uma faixa deixar de ser considerada uma criação humana.

Também não há, por enquanto, confirmação de que organizações como Billboard ou Official Charts adotarão as regras sugeridas pelas gravadoras. Trata-se de uma proposta apresentada à indústria, não de uma norma mundial já em vigor.

Música gerada ou assistida por IA?

O movimento complementa outro projeto anunciado por organizações como IFPI, RIAA, Grammy Awards, SAG-AFTRA e associações de gravadoras independentes.

O sistema propõe dois tipos de identificação:

AI-Generated: quando a IA produziu a totalidade ou a parte principal dos elementos criativos, como a voz principal, os instrumentos centrais ou toda a música a partir de comandos.

AI-Assisted: quando a obra foi criada principalmente por pessoas, mas utilizou IA generativa em determinados elementos.

Pelas regras sugeridas para os rankings, gravações classificadas como totalmente geradas por IA não seriam elegíveis. Já as músicas assistidas por IA poderiam participar, desde que cumprissem as exigências de autoria, licenciamento, transparência e legalidade.

O problema dos streams artificiais

A preocupação das gravadoras não está apenas na autoria.

As novas regras também procuram combater músicas produzidas em grande escala para manipular plataformas, gerar reproduções automáticas e retirar dinheiro do sistema de royalties.

Em julho de 2026, a Deezer informou que recebia aproximadamente 90 mil músicas geradas por IA por dia, o equivalente a mais da metade dos novos arquivos enviados à plataforma. Apesar do volume, esse conteúdo representa entre 1% e 3% das reproduções da empresa. Segundo a Deezer, até 85% dos streams registrados em faixas totalmente geradas por IA podem ser fraudulentos e são retirados do cálculo de royalties.

Uma pesquisa encomendada pela plataforma também mostrou que 80% dos entrevistados defendem a identificação das músicas totalmente geradas por IA. Outros 52% acreditam que essas gravações não deveriam disputar as mesmas paradas das músicas feitas por artistas humanos.

O verdadeiro debate

A discussão já não é simplesmente aceitar ou rejeitar a inteligência artificial.

As próprias grandes gravadoras estão fechando acordos com empresas de IA que utilizam catálogos licenciados. Universal, Sony e Warner, por exemplo, assinaram contratos com a plataforma KLAY, que afirma treinar seu modelo musical exclusivamente com obras autorizadas.

A disputa real envolve autoria, consentimento, licenciamento e transparência.

A IA já faz parte do processo criativo. O desafio será separar a tecnologia usada como instrumento artístico das fábricas automatizadas de conteúdo criadas para ocupar catálogos, manipular rankings e capturar royalties.

A pergunta que a indústria precisará responder agora é mais complexa: onde termina a ferramenta e começa a substituição do artista?

Fontes principais: The Verge, Sony Music, IFPI, RIAA, Deezer e Music Business Worldwide.

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Música

Nasi peitou o medo da inteligência artificial — e fez história com “Perigoso”

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nAsI

Em “nAsI – Artificial Intelligence”, o vocalista do Ira! entregou suas próprias canções à transformação algorítmica, atravessou o samba, o trap, a cumbia e o boogaloo e conquistou o maior público de seu canal com um videoclipe político sobre imigração

Nasi poderia ter escondido a inteligência artificial nos créditos. Poderia ter chamado o processo de experimentação digital, programação musical ou pós-produção avançada. Poderia, sobretudo, ter usado a tecnologia silenciosamente, evitando a reação de uma classe artística que ainda discute direitos autorais, substituição de músicos e os limites éticos das plataformas generativas.

Ele fez o contrário.

Colocou a expressão “Artificial Intelligence” no título do trabalho, estampou uma versão cibernética de si próprio na comunicação visual e declarou, antes mesmo do lançamento, que sabia que receberia críticas. “Alguns vão jogar pedras, mas não estou nem aí”, afirmou ao apresentar o projeto.

Mais do que uma provocação, a frase define o espírito de “nAsI – Artificial Intelligence”, trabalho solo de seis faixas lançado em 24 de abril de 2026 pela Ditto Music. Em vez do rock e do blues normalmente associados à sua carreira, Nasi mergulhou em ritmos latino-americanos e caribenhos, utilizando ferramentas de IA para desmontar e reconstruir músicas de seu próprio catálogo.

O resultado ultrapassou o terreno da curiosidade tecnológica. O videoclipe de “Perigoso” chegou à casa de 1 milhão de visualizações, tornando-se, com enorme distância, o maior sucesso do canal oficial do cantor no YouTube.

A última medição pública indexada antes da virada apontava 997.696 reproduções. No mesmo momento, “Polvo en los Ojos” aparecia com cerca de 132 mil, “Alma Nocturna” com 92 mil e “Ogun” com 37 mil. “Perigoso”, portanto, alcançou mais de sete vezes a audiência do segundo videoclipe mais visto do projeto — uma escala inédita para o canal solo do vocalista do Ira!.

Não é apenas um número. É a confirmação de que o público não rejeitou automaticamente a experiência. Ao contrário: foi justamente a obra mais explicitamente atravessada pela estética, pela narrativa e pela controvérsia da IA que encontrou a maior audiência.

A máquina não compôs a história de Nasi

Existe uma distinção importante. “Artificial Intelligence” não é um álbum de músicas compostas do zero por uma máquina, nem utiliza uma imitação artificial da voz de Nasi.

As seis composições já existiam. Pertencem ao repertório solo do cantor e foram escolhidas por ele para sofrer transformações de gênero, harmonia, arranjo, instrumentação e atmosfera. A voz principal continua sendo a de Nasi, gravada em estúdio. A IA entra como ferramenta de reorganização e geração instrumental, trabalhando a partir de decisões, referências e sucessivas seleções humanas.

O processo começou na colaboração com Augusto Junior, músico ligado ao projeto Fake Music. Segundo Nasi, os primeiros testes eram mais limitados, mas a evolução dos programas permitiu alterar não apenas o acompanhamento, como também estruturas harmônicas e melódicas. As versões geradas eram avaliadas, descartadas ou refinadas até que o artista encontrasse uma direção que pudesse assumir como sua.

A ficha técnica revela um trabalho híbrido. Nasi assina a produção; Augusto Junior aparece como programador de IA e responsável pelas artes de capa e singles; Jeff Berg cuidou da engenharia das gravações, mixagem e masterização. Nanda Moura divide os vocais de “Alma Nocturna”; Johnny Boy participa dos vocais de apoio em “Perigoso”; Jonas Moncaio toca violoncelo em “Feitiço na Rua 23”; e Bruno Belasco grava trompete em “Perigoso”.

É justamente aí que o álbum ganha relevância histórica. Nasi não apresentou a inteligência artificial como substituta absoluta do músico. Criou um laboratório no qual repertório humano, voz real, instrumentistas, programação e produção algorítmica ocupam a mesma gravação.

“Foi uma brincadeira que ficou séria”, resumiu o cantor. Embora tenha dito que o projeto não define obrigatoriamente o futuro de sua carreira, Nasi afirmou não ter dúvidas de que o futuro da música passará pela interação entre o humano e o artificial.

Os seis videoclipes de “Artificial Intelligence”

O projeto não termina no áudio. As seis faixas receberam presença audiovisual no canal oficial de Nasi, formando uma espécie de álbum visual no qual a transformação musical encontra diferentes linguagens de animação, colagem, cinema de gênero e imagens geradas ou trabalhadas com inteligência artificial.

“Corpo Fechado”: o rock entra na roda de samba

Lançada originalmente no álbum “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”, de 2006, “Corpo Fechado” possuía uma base de blues e soul ligada à tradição da gravadora Stax. Para o novo projeto, Nasi direcionou a IA a produzir um samba de partido-alto inspirado em nomes como Martinho da Vila, João Nogueira, Agepê e Noriel Vilela.

O primeiro resultado, segundo o cantor, parecia um pagode genérico. Foi descartado. Somente depois que ele passou a fornecer referências mais específicas surgiu a versão definitiva. Essa sequência mostra que a máquina não trouxe uma solução autônoma e perfeita: foi necessário repertório cultural para que Nasi soubesse explicar o que buscava — e discernimento artístico para rejeitar o que não funcionava.

Lançado em 23 de janeiro, quando Nasi completou 64 anos, o single abriu oficialmente o projeto. A arte associada à faixa apresentou uma versão rejuvenescida do cantor na Lapa, aproximando memória musical, cultura popular carioca e fabricação digital. O videoclipe acumulava aproximadamente 8,8 mil visualizações na última medição indexada.

“Feitiço na Rua 23”: trap encontra o cinema de terror

“Feitiço na Rua 23” veio do álbum “Perigoso”, lançado em 2011. Na gravação original, a canção carregava elementos de rockabilly e surf music, além de uma narrativa sombria sobre uma mulher que teria sido afastada do protagonista por meio de um feitiço.

Na nova versão, guitarras e clima retrô cedem espaço ao trap. O violoncelo de Jonas Moncaio acrescenta uma camada humana e dramática à instrumentação predominantemente gerada com IA.

O videoclipe transforma a atmosfera da letra em uma colagem bem-humorada de horror clássico. Imagens e referências a “Drácula”, “Nosferatu” e “A Noite dos Mortos-Vivos” são reorganizadas para acompanhar a atualização sonora. A direção de arte e IA foi creditada a Ruy Araujo, da Motim Underground.

É o vídeo de audiência mais modesta do conjunto, com pouco mais de 360 reproduções na captura consultada. A disparidade, no entanto, ajuda a mostrar como os clipes tiveram trajetórias muito diferentes — e como “Perigoso” rompeu completamente a curva normal do canal.

“Perigoso”: um galo chamado Nasi enfrenta Trump

“Perigoso” é o centro simbólico do álbum.

A composição apareceu originalmente como um country-rock gravado com Renato Teixeira. Na versão de 2026, tornou-se um corrido mexicano, gênero narrativo profundamente ligado à cultura popular do México e que, em uma de suas ramificações, originou os chamados narcocorridos.

Nasi percebeu que o formato permitia aproximar a canção do debate sobre imigração e da tensão na fronteira entre México e Estados Unidos. O videoclipe foi construído como uma animação protagonizada por um galo inspirado no próprio cantor, que entra em confronto com um “galo Trump”.

A fábula denuncia a contradição de uma sociedade que depende historicamente do trabalho de imigrantes, mas passa a apoiar sua perseguição e deportação. É política transformada em desenho animado, corrido digital e sátira — sem esconder a posição de seu autor.

Musicalmente, a gravação preserva elementos humanos importantes: Johnny Boy aparece nos vocais de apoio e Bruno Belasco no trompete. Visualmente, o vídeo trabalha com uma linguagem mais imediatamente comunicativa do que os demais, com personagens reconhecíveis, conflito claro e uma narrativa que pode ser compreendida mesmo fora do contexto do álbum.

Essa combinação ajuda a explicar por que “Perigoso” escapou da bolha habitual do canal. O clipe não depende apenas da novidade de ter sido realizado com IA. Ele possui personagem, antagonista, fronteira geográfica, comentário político e humor visual. A tecnologia é o meio; a história continua sendo o motor.

Ao chegar a 1 milhão de visualizações, “Perigoso” não apenas estabeleceu o recorde do canal solo de Nasi. Também demonstrou que um artista veterano pode usar inteligência artificial sem abandonar sua identidade, sua voz ou sua disposição para o confronto.

“Polvo en los Ojos”: Coltrane atravessa o Caribe

“Polvo en los Ojos” retoma “Poeira nos Olhos”, gravada por Nasi e os Irmãos do Blues em 2001. A composição nasceu como uma adaptação autorizada de “Equinox”, de John Coltrane, e reaparece agora cantada em espanhol e revestida por um arranjo afrocubano próximo do universo do Buena Vista Social Club.

Nasi afirmou ter ficado especialmente impressionado com o naipe de metais produzido para a faixa. O resultado lhe pareceu tão preciso que também revelou uma limitação da tecnologia: a perfeição excessiva pode retirar da música as pequenas oscilações, sujeiras e imperfeições responsáveis pela sensação de presença humana.

Essa tensão — fascínio e desconfiança ao mesmo tempo — é um dos melhores argumentos do álbum. Nasi não se comporta como propagandista ingênuo da IA. Ele se permite admirar a capacidade da ferramenta e, simultaneamente, identificar o ponto em que a execução começa a soar artificial demais.

O videoclipe aparecia como o segundo mais assistido do projeto, com aproximadamente 132 mil visualizações, mostrando que a abertura latino-americana do disco encontrou público para além da faixa viral.

“Alma Nocturna”: tango, cumbia e encontro de vozes

“Alma Noturna” foi lançada em 2015 e nasceu de uma parceria de Nasi e Johnny Boy com Kiko Dinucci, responsável pela letra. A versão original se aproximava dos afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Em “Artificial Intelligence”, a música é traduzida para o espanhol e passa a combinar a dramaticidade do tango com a pulsação dançante da cumbia colombiana. Nanda Moura divide os vocais com Nasi, garantindo que o centro emocional da faixa permaneça diretamente humano.

O videoclipe amplia a dimensão de dueto e de deslocamento cultural presente na gravação. Entre os vídeos do álbum, aparecia com aproximadamente 92 mil visualizações — audiência bastante superior à média histórica do canal antes do novo projeto.

“Ogun”: do blues-rock ao baile porto-riquenho

Gravada originalmente no álbum “Vivo na Cena”, de 2010, “Ogum” era uma composição de blues-rock pesado. Sua nova encarnação, intitulada “Ogun”, troca a massa das guitarras por um boogaloo porto-riquenho, gênero surgido do contato entre ritmos latinos, soul, jazz e rhythm and blues.

O arranjo remete aos momentos mais festivos de Tito Puente e transforma a canção em música de baile. Não se trata de apenas trocar timbres: a nova levada modifica a postura da voz de Nasi, a circulação rítmica e o significado corporal da faixa.

O videoclipe fecha o arco latino do álbum e somava cerca de 37 mil visualizações na medição consultada. É mais um exemplo de como “Artificial Intelligence” permitiu que um cantor identificado há quatro décadas com o rock paulista experimentasse territórios que dificilmente seriam reunidos em um disco convencional.

A repercussão: curiosidade, resistência e cautela

O anúncio do projeto despertou atenção antes mesmo de o álbum ficar pronto. A Folha de S.Paulo apresentou Nasi como o primeiro artista brasileiro de grande reconhecimento a preparar um álbum desse tipo e descreveu sua atitude como a de alguém disposto a “abraçar o monstro” que boa parte da classe musical teme.

A Rolling Stone Brasil adotou uma distinção importante: as músicas não foram criadas pela IA, já que pertenciam previamente ao repertório de Nasi. A tecnologia foi usada para produzir novas versões e reorganizar o material existente. Essa formulação evita tanto o exagero promocional quanto a falsa ideia de que o cantor apenas apertou um botão e aceitou o primeiro resultado.

Band, Novabrasil, Kiss FM, R7, Blog n’Roll, Sonoridade Underground e outros veículos destacaram a passagem do rock para gêneros como samba, trap, corrido, cumbia, tango e boogaloo. A cobertura foi majoritariamente curiosa e descritiva: reconheceu o caráter experimental, explicou o processo híbrido e reproduziu a defesa de Nasi de que a IA deveria funcionar como ferramenta de interação, não como destino único da música.

A repercussão internacional, porém, ainda não possui a mesma dimensão da cobertura brasileira. O peso histórico do projeto está, por enquanto, menos em uma consagração crítica global e mais na posição ocupada por Nasi: a de um artista popular, com uma carreira consolidada desde a explosão do rock brasileiro, assumindo publicamente uma tecnologia que muitos de seus contemporâneos preferem combater ou ignorar.

Nasi e Timbaland: pioneiros, mas com uma ressalva histórica

Colocar Nasi ao lado de Timbaland é uma comparação pertinente — desde que se explique o recorte.

Em 2025, Timbaland lançou a empresa Stage Zero e apresentou TaTa, uma artista virtual construída com ferramentas de inteligência artificial. O produtor, que também se tornou consultor da plataforma Suno, passou a defender uma nova categoria chamada por ele de “A-Pop”. Sua proposta não é apenas usar IA nos arranjos, mas desenvolver personagens, propriedade intelectual e sistemas inteiros de produção musical artificial.

Nasi segue pelo caminho oposto e complementar. Em vez de fabricar uma artista virtual, parte de uma autoria inequivocamente humana: sua voz, suas composições, sua biografia, sua interpretação e seu posicionamento político. A IA é convocada para fazer o repertório atravessar fronteiras estilísticas que talvez fossem inviáveis em uma produção convencional.

Nesse sentido específico — artistas veteranos, consagrados pela indústria tradicional e dispostos a colocar a IA generativa no centro público de um novo projeto — Nasi e Timbaland realmente formam uma dupla rara.

Mas não seria historicamente correto afirmar que foram os únicos pioneiros mundiais. Em 2018, Taryn Southern lançou “I AM AI”, álbum pop composto com auxílio de sistemas como Amper Music, IBM Watson Beat, NSynth e AIVA. Em 2019, Holly Herndon lançou “PROTO”, trabalhando com Spawn, uma inteligência artificial treinada em sessões com vozes humanas.

A formulação mais forte e defensável é outra: Nasi está entre os primeiros grandes nomes da música popular brasileira e entre os raros veteranos do rock mundial a assumir frontalmente a inteligência artificial generativa como eixo de um álbum e de sua identidade audiovisual. No cenário internacional da música mainstream contemporânea, Timbaland é seu paralelo mais evidente.

Nasi não pediu desculpas por experimentar

O aspecto mais radical de “Artificial Intelligence” talvez não esteja nos instrumentos artificiais, nas animações ou nas traduções para o espanhol.

Está na ausência de pedido de desculpas.

Nasi não apresentou o álbum como uma demonstração tecnológica neutra. Também não fingiu que a ferramenta não levantava problemas. Reconheceu que a perfeição pode desumanizar uma gravação, defendeu a participação de músicos e afirmou que o caminho ideal seria a colaboração entre IA, instrumentistas e arranjadores.

Ao mesmo tempo, recusou o medo como política criativa.

O vocalista do Ira! entregou à máquina canções que já haviam sobrevivido ao blues, ao rock, aos palcos e ao tempo. Depois, escolheu o que permanecia, gravou novamente sua voz e transformou os resultados em uma obra assinada. Não permitiu que a inteligência artificial falasse por ele; obrigou a tecnologia a entrar em seu universo.

“Perigoso” chegar a 1 milhão de visualizações é a consequência mais visível dessa coragem. Um clipe produzido fora da estrutura das grandes gravadoras, publicado em um canal de pouco mais de mil inscritos e protagonizado por uma animação política atravessou a barreira que nenhum outro vídeo solo de Nasi havia alcançado.

Pode-se gostar ou não do resultado. Pode-se questionar a qualidade de determinadas gerações, a procedência dos bancos de treinamento e o impacto econômico dessas ferramentas. São debates necessários.

O que já não pode ser negado é que Nasi esteve lá.

Enquanto boa parte da música brasileira discutia se deveria abrir a porta, ele entrou, observou o monstro de perto, colocou-o para tocar samba, trap, corrido mexicano, cumbia e boogaloo — e saiu do outro lado com o maior videoclipe de seu canal.

Nasi peitou o medo. E, com “Artificial Intelligence”, escreveu um dos primeiros capítulos realmente populares da música generativa brasileira.

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Música

Rolling Stones usam IA em videoclipe, mas traçam limite para a música

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Mick Jagger

Vocalista dos Rolling Stones afirma que músicos podem utilizar inteligência artificial, desde que apresentem ideias próprias e não tentem reproduzir artistas sem autorização.

Mick Jagger não declarou guerra à inteligência artificial. Apesar de algumas manchetes sugerirem uma rejeição completa à música criada com IA, a posição do vocalista dos Rolling Stones é mais específica: a tecnologia pode ser utilizada, mas não deveria servir apenas para copiar outros artistas.

“Se alguém quiser fazer música com IA, vá em frente. Mas ela precisa ser original”, afirmou Jagger durante uma entrevista de capa concedida à Billboard. Segundo ele, o criador ainda precisa colocar suas próprias ideias, escolhas e pensamentos no trabalho.

O músico se mostrou especialmente contrário à criação de canções que reproduzam artificialmente sua voz, sua interpretação ou o estilo dos Rolling Stones. Jagger classificou como errado o lançamento de músicas capazes de soar exatamente como a banda sem sua participação ou consentimento.

“Há pessoas que usam IA para criar uma música do zero no estilo dos Rolling Stones. Se você fosse realmente uma pessoa criativa, não faria isso”, declarou.

Os Rolling Stones também utilizaram IA

A posição pode parecer contraditória porque os próprios Rolling Stones recorreram à tecnologia no videoclipe de “In the Stars”, faixa do álbum Foreign Tongues. O vídeo empregou deepfake para colocar versões rejuvenescidas dos rostos de Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood sobre músicos reais.

Jagger explicou que as pessoas, os instrumentos e o ambiente filmado eram reais. A alteração digital aconteceu principalmente nos rostos. Keith Richards também sugeriu que efeitos desse tipo podem encontrar um lugar adequado nos videoclipes, embora tenha dito preferir ouvir algo original a uma criação baseada em cópias.

Jagger ainda reconheceu que a IA pode acelerar trabalhos técnicos e tarefas repetitivas dentro do estúdio. Para ele, porém, as músicas ainda precisam ser escritas, interpretadas e conduzidas por pessoas.

A declaração coloca o cantor em uma posição menos radical do que a manchete inicialmente sugere. Jagger não rejeita necessariamente a música feita com inteligência artificial. Ele rejeita a substituição da autoria por imitação.

É uma distinção que começa a ganhar espaço na indústria: não apenas decidir se a IA deve ser utilizada, mas estabelecer consentimento, licenciamento, transparência e participação humana. A própria IFPI afirma defender modelos nos quais a tecnologia seja empregada para apoiar a criatividade, sem substituir artistas ou desrespeitar seus direitos.

Para Mick Jagger, portanto, a fronteira não está entre música humana e música artificial. Está entre usar uma ferramenta para criar algo próprio e usar uma máquina para se apropriar da identidade de outra pessoa.

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